FAQ #2 – Jhésus Tribuzi

Entrevista exclusiva com um dos diretores da antologia de terror nacional, O Nó do Diabo, em cartaz no Projeta às 7 do Cinemark


O Nó do Diabo, antologia nacional de terror que tem como pano de fundo a escravidão, está em cartaz nos cinemas nacionais dentro do iniciativa Projeta às 7, do Cinemark. Ou seja, filme brasileiro dos bons, que cutuca a ferida alertando sobre o racismo enraizado no país desde os tenebrosos tempos escravocratas, exibido em nossas salas de cinema. Não tem desculpa para não assistir.

Os contos são dirigidos por Ramon Porto Mota – partes I e V -, Gabriel Martins, Ian Abé e Jhésus Tribuzi e têm um mesmo antagonista, Seu Vieira (Fernando Teixeira), a representação do racista dono das terras que ultrapassa gerações. Ainda no elenco estão Zezé Motta, Isabél Zuaa, entre outros nomes.

Batemos um papo para a seção FAQ com Tribuzi, que dá a letra sobre o poder do filme, as questões sociais nele escancaradas, o atual momento do cinema de terror nacional e a dificuldade de se fazer cinema de gênero no país, principalmente pós-golpe.

Gabriel Martins e Jhésus Tribuzi, diretores de O Nó do Diabo


101 Horror Movies: O período de escravidão do Brasil (que já é assustador por si só), assim como as religiões africanas e o folclore negro, como as lendas do Saci, Menino do Pastoreio, etc, podem render boas histórias de terror, mas nunca forma devidamente exploradas no gênero, principalmente no cinema. Por que vocês acham que esse tema, mesmo que delicado, nunca fizeram jus a todo seu potencial quanto cinema de horror? 

Jhésus Tribuzi: Eu acho “nunca” um termo um tanto forte. Mas, pondo em termos práticos, “ter potencial” é uma coisa e ter a oportunidade de desenvolver esse potencial é outra. Explorar narrativas na chave do horror (ou do fantástico, se ficarmos em termos mais gerais) requer não apenas força de vontade, mas também resiliência, resistência, tempo, dinheiro, suor, planejamento, sorte e muitos outros fatores. Imagino que existam ótimas histórias em gestação, da mesma forma que existem trabalhos que necessitam de muita coisa para finalmente verem a luz do dia, quiçá serem exibidos. Dá pra dizer que sim, devagar as coisas estão mudando, mas, ainda assim, o conjunto de fatores a serem pesados quando se pensa em trilhar esse tipo de caminho no cinema segue um pouco complicado.

101HM: Aproveitando a pergunta anterior, de onde surgiu a ideia e como foi o ponto de partida para fazer um filme de terror sobre a escravidão e explorar esses elementos no longa?  

JT: Bom, O Nó do Diabo teve sua gênese em um edital da EBC para exibição de audiovisual brasileiro na tevê aberta. Inicialmente, tudo foi concebido como uma minissérie em 5 partes feita para falar sobre os infindáveis horrores e fantasmas da escravidão e do preconceito – e tal ponto virou o nosso norte criativo: cada episódio falaria de tais fantasmas ao seu modo, sem deixar de dialogar ou refletir junto aos outros capítulos, seja em questões de forma ou conceituais/históricas. Contudo, o golpe e o posterior desmantelamento do país fez com que – diante da paisagem opressiva que se apresentava – optássemos por transformar o projeto em longa-metragem, o que, no meu ponto de vista, deixou o material ainda mais forte.

101HM: A antologia de terror no Brasil é pouquíssimo utilizada e os exemplos mais conhecidos são os filmes de Histórias Estranhas e As Fábulas Negas. Por que optaram por esta narrativa aqui e numa ordem cronológica inversa?

JT: Como esbocei na resposta anterior, isso teve muito a ver com o nosso norte criativo. Falar sobre os fantasmas e horrores da escravidão e do preconceito é falar sobre um tipo de monstro que parece não morrer nunca e que é sempre evanescente, infelizmente. Assim, escolhemos primeiro transformar o engenho num personagem forte – uma espécie de antro desse monstro – e fazer a narrativa girar ao seu redor e ao redor do Seu Vieira, o dono daquilo tudo. A ideia de sair dos tempos atuais e ir para o passado veio em seguida, justamente para mostrar como esse monstro se transforma e como os vários Vieiras que por ali passaram fazem parte do mesmo problema, da mesma monstruosidade que acossa os personagens através de gerações e gerações.

101HM: Quais foram as pesquisas históricas que vocês fizeram para a concepção do filme? Existem passagens que foram “baseadas em fatos reais”, tipo causos ou histórias contadas?

Houve uma pesquisa histórica feita pelo nosso amigo, colaborador e historiador Bruno Gaudêncio, que foi, obviamente, de grande valia para todo o projeto. Quanto a se valer de “causos” ou de “histórias contadas”, tudo o que posso dizer é que aprendi que a história da escravidão no Brasil nos deu material suficiente para entender que o mundo real – e a maldade inerente ao ser humano – sempre vai ser infinitamente pior do que a ficção. Assim, a liberdade artística que o horror e seus subgêneros nos deram foram ótimas ferramentas para tentar falar, ao nosso modo, sobre isso, mas, ainda assim, são ferramentas que empalidecem diante da realidade e do que se passou (e se passa) por aqui.

101HM: O cinema de terror sempre foi pautado por questões sócio políticas e culturais, e funciona como metáforas para o momento que a sociedade está vivendo. Vocês tiveram essa preocupação ao desenvolver o longa de vocês? Mesmo se tratando de um “filme de época”, acreditam que O Nó do Diabo é bastante atual ao olhar para o passado e denunciar o racismo que ainda vivemos no Brasil, tendo em vista que o primeiro segmento se passa em 2018,exemplificando que as marcas da escravidão aqui nunca se dissiparam por completo?

JT: Sim, tivemos essa preocupação. Não há como falar de escravidão e preconceito no Brasil sem ter em vista as marcas e rastros que existem em pleno 2018. Na verdade, posso até dizer que o personagem do Tavinho no primeiro episódio é um bom resumo de vários “homens de bem” que existem por ai e vivem cuspindo discurso de ódio disfarçado de palavras caducas como “ordem”, “bons costumes” e sei lá o quê mais.

101HM: O Nó do Diabo toca num tema polêmico que é o enobrecimento da cultura africana e o empoderamento do negro, bem como suas dificuldades de alcançar o sucesso (liberdade). Como vocês acham que o filme pode ser recebido pelo público, em tempos de sucessos como “Corra” e “Pantera Negra”, mas ao mesmo tempo, discurso de ódio forte nas redes sociais, e qual a mensagem que esperavam passar a ele?

 JT: Eis uma pergunta que não sei responder ao certo. O ponto é que acredito que não dá para tocar em feridas abertas como a escravidão e o preconceito sem fazer doer, infelizmente. Vai ter quem goste e vai ter quem odeie pelos mais variados motivos. Dito isso, me sentirei levemente feliz caso o longa deixe a galera do discurso de ódio babando e se contorcendo de raiva.

101HM: O cinema de terror/fantástico nacional vive sua melhor fase em muitos anos. Para vocês, a que se deve esse salto de qualidade, da quantidade de produções chegando aos cinemas, e com que olhos vocês veem esse momento efervescente?

JT: As estrelas se alinharam um pouco, né: com o passar dos anos, as opções de equipamentos aumentaram, editais foram surgindo e mais pessoas foram se arriscando, experimentando e aprendendo com as dificuldades inerentes do troço todo. Fazer cinema de gênero continua sendo caro e trabalhoso – mais caro e trabalhoso do que muitos acham que é – mas a janela aumentou. Torço para que, apesar dos pesares, as pessoas continuem arriscando e continuem querendo fazer cinema fantástico por aqui. Ainda há muita narrativa pra ser contada, creio eu.

101HM: Pergunta básica para fechar: quais as principais dificuldades que vocês encontraram em todo o processo do projeto? E como é fazer cinema de terror no Brasil?

 JT: Olha, para ser sincero, essa pergunta acaba se respondendo sozinha: a principal dificuldade do projeto foi justamente a de tentar fazer cinema de terror no Brasil. E fazer cinema de terror no Brasil é – basicamente – topar com a própria dificuldade de tentar existir enquanto tal.


Marcos Brolia
Marcos Brolia
Jornalista, editor e idealizador do 101HM, é fanático por filmes de terror (ah, vá!) desde que se conhece por gente, dos classudos aos mais bagaceiras. Adoraria ter um papo de boteco com H.P. Lovecraft e virar um shot toda vez que ele falasse a palavra “indizível”.

4 Comentários

  1. Marcus Vinícius disse:

    Muita felicidade saber que o cinema nacional de terror vem se expandindo e evoluindo, se tornando mais amplo e mais organizado. Espero que os próximos passos nos levem a conseguir o respeito que o terror nacional (e o cinema nacional em geral) merecem, e que um dia eu veja esses exemplares nos cinemas mainstream do país. Tenho muita vontade de conhecer esses festivais que passam esses filmes, mas eles não acontecem na minha região ; só posso esperar que os cinemas voltem sua atenção à eles, algum dia. E não acho que seja impossível: recentemente, um filme amador feito em São Luís, Muleque Té Doido, fez tanto sucesso na região, que a continuação foi lançada em cinemas do shopping, com direito a painel, e tudo, o que inflou nosso orgulho maranhense. Sei que um dia chegaremos lá, e filmes como O Nó do Diabo estarão disponíveis para o público médio que vai aos shoppings ver quais são os filmes da hora, e o encontrarão ao lado de Vingadores e Star Wars da vida.

  2. Bruno disse:

    Muito boa a entrevista, por mais projetos como esse!!!

  3. Vitor Machado disse:

    Tinha que botar ideologia política no meio… Tô fora!

    • pronto.falei. disse:

      a pergunta é, “como se fala desse tipo de tema sem envolver ideologia politica?”
      visto que, esse assunto é tratado com enfase, mesmo que em um sistema pluripartidário, por um especifico grupo politico. tal ideologia, organicamente será “botado” no meio.

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