FAQ #3 – Gabriela Amaral Almeida

Entrevistão da porra com a diretora de O Animal Cordial


O Animal Cordial, slasher nacional produzido pelo Rodrigo Teixeira, produtor de A Bruxa, está no circuito nacional em algumas poucas salas espalhadas pelo país. Ou seja, cace aí na programação da cidade para assistir a um dos melhores filmes de terror do ano.

O 101 Horror Movies bateu um papo por telefone com a diretora Gabriela Almeida Amaral, que contou para nós sobre o processo febril de criaçao do roteiro, como ela extraiu aquelas atuações viscerais do elenco, explica o porquê, para ela, ele é sim um filme SLASHER, e fala da intrínsica relação do cinema de terror com política e social, em entrevistsa exclusiva.

101 Horror Movies: De onde surgiu a história de O Animal Cordial e como foi esse desenvolvimento criativo?

Gabriela Amaral Almeida: Eu estava aguardando a aprovação em editais do que seria meu primeiro filme, A Sombra do Pai, e esse resultado ainda não tinha saído. Eu estava muito febril para contar uma história naquele momento efervescente com o golpe da presidente Dilma – vamos usar a palavra certa – então tinha muita coisa na garganta, tanto artística quanto politicamente. Corta e estou em um restaurante com a Luana Demange, minha colaboradora de longa data, além de ter co-dirigido um curta, O Terno, e termos feito escola de cinema juntas. Quando fomos pedir o prato, conversando com o garçom, descobrimos que aquele restaurante havia sido assaltado uma semana antes. Dentro desse caldeirão de indignação, a gente começou a se perguntar sobre a segurança no Brasil e o medo usado como um instrumento de poder. O medo vendido como um produto. E a partir desse questionamento, como temos um diálogo fluído de criação, a gente começou a imaginar, inventar uma história que se passasse nesse espaço e refletisse todas essas questões.

101HM: Na pré-estreia você disse que a construção do longa partiu de um processo febril de criação, e isso claramente é notado no desenrolar da construção de atmosfera e dos personagens e como a situação vai degringolando. Conte como foi esse processo.

GAA: A Luana escreveu um argumento curto de três páginas comigo, que apresentei para o Rodrigo (Teixeira, da RT Features, produtor do longa) e ele gostou muito e topou fazer já, uma vez que é o tipo do filme que tem que pegar essa temperatura e por na tela e não deixar a oportunidade passar. Então tive quatro meses para amadurecer o roteiro a ponto de filmá-los. Um roteiro de longa demora geralmente um ano e meio, dois anos para ficar pronto, polido, descansado, voltar a ler e rescrever. A Luana ficou me ajudando a lapidar esse roteiro, e o processo foi como se fosse uma estufa, onde simulamos as situações de temperatura e pressão, e graças a colaboração criativa dela, esse roteiro chegou nesse desenvolvimento. Essa coisa frenética que o Rodrigo sentiu como produtor, é porque não tivemos nenhum descanso, sempre pulando rápido de uma etapa para a outra, buscando uma verticalização cada vez maior. Tanto que quando falo contigo hoje, não acredito nesse absurdo que tenha acontecido em tão pouco tempo.

101HM: Como foi a direção de atores, e quais métodos você utilizou no set para tirar interpretações tão intensas do Murilo Benício e da Luciana Paes, que são dois doidos no filme e vão piorando conforme o tempo vai passando? E como foi a recepção deles em se sujar tanto de sangue falso?

GAA: Eu nunca abordei esses atores em nenhum momento com a palavra “FILME DE TERROR”. As pessoas que não conhecem como a gente, podem se assustar porque o senso comum sobre o gênero é que são interpretações baratas, sexpolitation, coisa de mau gosto. Essa é a concepção dos outros, não é a minha. Eu sempre abordei cada um dos atores sem mencionar que fazíamos um filme de gênero. Outra questão é que costumo, em todo trabalho que faço, articular um período de ensaio, que logo se conecta ao início das filmagens, e é nesse momento que crio um círculo de intimidade com os atores. Quando chegamos no set, a minha relação com os atores é tão forte, que o caráter mecânico que pode travar um set de filmagem, acaba sendo secundário. Então eu tive um mês de ensaio com esses atores, em parceria com o René Guerra, preparador de elenco, e para cada ator eu criei um roteiro diferente, que isso garante a construção de personagens complexos e cria um senso de veracidade para quem está na tela.

101HM: No episódio desta semana do TRASH MODERNIZADO, sobre terror nacional, um dos pontos que discutimos e que achamos que seja um dos problemas do gênero é que os realizadores não têm levantado a bandeira e fincado: ISSO É UM FILME DE TERROR. O gênero muitas vezes não é devidamente assumido, se vende como suspense, drama, etc. Talvez seja medo da reação do público, da crítica (tipo um Eduardo Escorel da vida)… O Marcelo Mattina disse que você é apaixonada pelo terror e gostaria muito que você batesse o pé que sim, é um filme de terror, mas claro, que é uma escolha sua. Afinal, O Animal Cordial É UM FILME DE TERROR e você vai defendê-lo dessa forma?

GAA: ISSO É UM FILME DE TERROR! Eu tenho orgulho que ele seja de terror, como tenho orgulho que O Mensageiro do Diabo seja um filme de terror, O Exorcista seja um filme de terror. Eu estudei filmes de terror e fiz um mestrado sobre Stephen King. Na hora de vender, eu me lembro do Rodrigo perguntando: “é um filme de terror, né Gabriela?” Eu respondi que é mais, é um SLASHER, e a gente vai arcar com todo preconceito que vem, mas precisamos arcar. O filme é abraçado por festivais de gênero, por Sitges, pelo Fantasia, por muitos festivais internacionais e quando chega aos que não são de gênero, apesar das pessoas gostarem, não sabem como catalogar. Qual é o problema de um slasher estar em uma programação “séria”? Na raiz, o que é um filme de terror? Que tem no centro da trama o medo da morte, o medo da dor, o medo da finitude. Se levar isso para um texto, onde os personagens tem uma relação profunda com esse medo, é um texto extremamente filosófico. É existencialista.

101HM: Mas muita gente fica falando: “ai, não é um slasher”, provavelmente pensando que o subgênero se limita a um maluco mascarado matando adolescentes libidinosos em um acampamento…

GAA: Ele é um filme slasher porque a base da dramaturgia dele está nas mortes, está na exibição dessas mortes e no grafismo da violência, então é um slasher e vamos adiante com isso pra ver se com essa informação prévia, os espectadores não se surpreendam em ver ali personagens com questões complexas, como existe em toda história do terror. Não estou gerando absolutamente nada de novo. Mas sim, é um slasher, e não estou fazendo um filme citando referências, mas o subgênero é a espinha dorsal desse filme.

101HM: Para finalizar, voltando na primeira coisa que você falou do atual momento do país, e do golpe, o atual cinema de gênero nacional reflete muito o horror permeado em questões políticas e sociais. Foi assim com O Rastro, As Boas Maneiras, O Nó do Diabo e agora O Animal Cordial. Você acha que isso está se tornando uma marca registrada do nosso terror e que é impossível separar o terror de política e do cunho social nesse momento que o país está vivendo?

GAA: Criativamente, eu sou atraída por essas questões do medo, e politicamente eu estou vivendo isso aqui. É quase indissociável e não tem uma partição interna que consiga dividir isso. Na época do Macarthismo, por exemplo, com Vampiros de Almas, ele só é interpretado nessa fatura política com o passar do tempo, como vários filmes que vem nessa toada da teoria da conspiração dos anos 50. O que acontece é que os criadores que estão enveredando esse caminho aqui no Brasil, eles têm uma consciência do potencial do horror em retrospectiva. Eles sabem o que é o terror para cada momento da sociedade e como ele floresce, desde o gótico, os filmes de terror pós-segunda guerra com o medo nuclear, os próprios slasher que tem um boom com a epidemia da AIDS. Não é algo consciente, mas é como você percebe as angústias que estão no ar. Se você der uma olhada para trás com carinho, verá que o gênero sempre tem uma ascensão em momentos de angústia da sociedade. E essa angústia É social e política. Nesse momento estamos vivendo o grotesco. Estamos vivendo o Grand Guignol, o nonsense, um capitalismo hipertrofiado, e os artistas, como fruto do tempo, hão de captar isso. Não tem como não, se isso está na ordem do dia da nossa existência, se isso é drama real para muitas das coisas que a gente observa. A sensação que está no ar, a angústia, o medo, a tensão, é captada e essas sensações são a base desse cinema que a gente está falando aqui.

 


Marcos Brolia
Marcos Brolia
Jornalista, editor e idealizador do 101HM, é fanático por filmes de terror (ah, vá!) desde que se conhece por gente, dos classudos aos mais bagaceiras. Adoraria ter um papo de boteco com H.P. Lovecraft e virar um shot toda vez que ele falasse a palavra “indizível”.

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