Ghoul: Trama Macabra é produção indiana com um dedo de Blumhouse

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Há dez anos, o diretor indiano Ram Gopal Varma, no auge de sua autoconfiança, propôs um desafio – também conhecido como esquema publicitário – no qual espectadores de todo país teriam a chance de faturar 500 mil rúpias (uns 30 mil reais) se fossem capazes de assistir até o fim seu filme de horror Phoonk, dito ser O Exorcista hindu.

Não me recordo se alguém foi capaz de levar a cabo a façanha. Porém, minha curiosidade me dispôs a encarar o desafio, mesmo sem o benefício da recompensa. Esse é um breve relato de como me deparei com um dos piores filmes que já assisti. Tão ruim que foi capaz de me manter distante do horror indiano por uma década.

Corta, e então Jason Blum entra na história. O midas do horror norte-americano esticou seus longos dedos até a Índia, onde produziu, junto de outras cias locais, Ghoul: Trama Macabra, projeto do britânico Patrick Graham, que faz carreira no cinema e televisão em Mumbai.

Foi em um sonho, que a ideia por trás da minissérie chegou até Graham. Em seus devaneios noturnos, o cineasta ficou fissurado na premissa de um prisioneiro mais assustador que a própria prisão, seus guardas e outros prisioneiros.

A partir daí, abraçou o sobrenatural, debulhando-se em entidades do folclore árabe até conceber uma figura que adota elementos dos Ghouls e dos Jinns.  Os primeiros seriam monstros carniceiros que vagam por cemitérios, devorando carne humana. Os últimos são o que chamamos de gênio da lâmpada, porém imensamente mais complexos que aquele amigo azul do Alladin.

Com um monstro e um cenário em mente, Graham optou por inseri-los em um contexto distópico, fortemente politizado, no qual um governo ditatorial luta uma batalha de supressão ideológica. Nesse mundo não necessariamente futurístico, até um simples professor pode acabar preso e torturado sob a menor das acusações. Uma pegada bem ditadura no Brasil, sabe? E ainda tem gente que defenda que isso volte…

Queime antes que ponha ovos

Originalmente imaginado como longa-metragem, Ghoul: Trama Macabra evoluiu a partir dessas ideias até tornar-se uma minissérie em três capítulos, com distribuição via Netflix e o já famoso selinho de “produção original”.

O primeiro episódio, “O fogo que não queima”, é quase que inteiramente dedicado a construção desse mundo e seus personagens, estabelecendo as regras de uma Índia distópica e extremamente nacionalista, em que laços familiares são destruídos por lavagem cerebral política e “terroristas” são brutalmente torturados em nome do bem maior.  

A protagonista Nida Rahim, interpretada pela atriz veterana Radhika Apte, é uma mulher especializada em interrogatórios enviada para um presídio nos moldes do infame Camp X-Ray, com um tiquinho assim de Gulag soviético. O lugar é decrépito e sombrio, com ares de prédio abandonado e  funcionários igualmente acabados e problemáticos. Nida chega a lembrar a personagem central do longa iraniano Sob a Sombra, também bastante marcado por tons sócio-políticos.

Esse episódio piloto – se é que essa nomenclatura ainda é válida em tempos de Netflix – aparenta ser o conteúdo extra, que nasceu após o roteiro original do filme ser transformado em minissérie. Digo isso baseado no desenrolar relativamente arrastado e rocambolesco da trama, que por pouco não me desmotivou a dar continuidade.

O segundo episódio é onde o horror realmente surge. Como o título bem diz, é aqui que “Os pesadelos começarão”. Sem o aspecto trash, não-intencionalmente cômico e exagerado de Bollywood, Ghoul: Trama Macabra se esbanja nas trevas, adotando uma fotografia sombria, que remete à uma versão menos colorida do turco Baskin. O entrecho militar facilita bem essa aproximação, assim como a figura bestial que anda na escuridão com a bocarra arreganhada e sede de sangue.

É aqui que Graham se faz valer da ideia de um prisioneiro mais assustador que a própria prisão. A atmosfera tétrica do cárcere exerce uma pressão fantástica, que culmina com a sequência absolutamente brilhante de interrogatórios, em que Graham escala a tensão loucamente, sem nunca deixar a bola cair. Nesse momento, concluí estar diante de uma das melhores obras de horror de 2018.

Quando eu cheguei já tava assim

O último episódio, com o sutil nome de “Revele a culpa e coma a carne deles” evoca um horror Carpenteriano, com grande ênfase na paranóia e claustrofobia motivados por um ambiente opressivo e um monstro capaz de mudar de forma e trazer à tona a culpa que habita todas aqueles militares.Um dos pontos mais interessantes em se trabalhar o horror num núcleo militar é a necessidade de explorar o psicológico fragilizado pela intimidação e o choque, já que os personagens estão longe de serem indefesos.

Assim, a atuação pouco convincente de Ratnabali Bhattacharjee no papel de uma capitã amotinada acaba por minar um pouco esse esforço, já que seu papel é fundamental na instauração da paranóia, resultando em alguns momentos não tão instigantes.

O horror liberto mostra-se poderoso o suficiente para dispensar boa parte da construção de mundo, de forma que Ghoul muito provavelmente funcionaria como filme. Independente disso, Graham obteve muito êxito com o formato minissérie, especialmente ao criar um laço entre espectador-protagonista e por ter desenvolvido um monstro verdadeiramente assombroso.

Mais eficiente que revolucionária, essa série indiana com uma mãozinha da Blumhouse e os dois pés enterrados no aspecto político pode marcar um ponto de virada para o gênero lá no país de Ganesha, como a crítica de cinema Anvita Singh descreveu em seu artigo para o The Indian Express.

Se o “efeito maratona” pegar o público de jeito, o que não é muito difícil se pensarmos que três capítulos são próximos de um filme longo, o Ghoul dos infernos e sua trama macabra podem muito bem dar as caras em uma segunda temporada.

E parabéns pra você, que me fez entender, que minha paixão não é você


Daniel Rodriguez
Daniel Rodriguez
Fã de horror em suas diferentes formas, principalmente cinematográfica. Incapaz de adentrar igrejas, pelo risco de combustão espontânea, dedica sua vida pagã a ensinar inglês, escrever sobre o gênero e, mais recentemente, fazer seus próprios filmes.

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