Gosto pessoal não é parâmetro!

Você pode gostar do que quiser, só não tente me convencer de que eu também deveria

Embalado pelo clima de Copa do Mundo e pelo buzz do “melhor filme de todos os tempos da última semana”, Hereditário, acho que podemos falar um pouco sobre a liberdade dos gostos pessoais e as diferenças entre preferências particulares e qualidades técnicas e, principalmente não ser obrigado a gostar de nada só porque todo mundo está falando bem.

Mas antes de começarmos, quero deixar bem claro aqui que não desgostei de Hereditário, mas também não achei o “filme de terror do século” como andam pintando por aí. Afinal temos mais de oitenta anos pela frente e, se considerarmos só os últimos dois anos, já temos filmes bem superiores, tecnicamente, à película de Ari Aster. A direção, o elenco e a iconografia do filme, com certeza estão entre os melhores dos últimos anos, mas não me pegou como eu gostaria.

Este é o primeiro ponto que gostaria de levantar neste texto: gosto é um emaranhado de referências e experiências pessoais e únicas. Não adianta todo o esmero técnico da direção, do elenco e do roteiro se, no final, o tema não fala com você. Se o filme não encontra onde se apoiar naquele conjunto específico de ingredientes que formam a sua personalidade, e seus gostos, ele simplesmente não vai te encantar. E não há absolutamente nada de errado com isso.

Veja bem… Não é que eu não tenha gostado… Só não achei tudo isso… Entende?

Referência é tudo! Talvez por isso sempre que um filme novo chega aos cinemas com algum sucesso, os mais empolgados logo se colocam a adjetivá-lo como os “melhores filmes de todos os tempos”. Não há nada errado em se encantar com um filme e querer divulgá-lo para o maior número de pessoas possíveis e gritar suas qualidades aos quatro ventos. Mas não se irrite se sua empolgação esbarrar na experiência de alguém que viu mais filmes que você. Um grande teste de qualidade para qualquer obra artística é o tempo, e o filme que mal estreou às vezes precisa só de alguns dias decantando na sua mente pra você admitir que nem era tão bom assim.

Essa experiência muitas vezes é considerada, por aqueles que possuem problemas com opiniões diferentes, como rabugice, chatice ou velhice pura e simples. Aqui sugiro deixar a soberba de lado e lembrar-se do primeiro item que apontei neste texto, as experiências e referências particulares de cada um. Uma pessoa com mais horas de sala de cinema que você pode ter noções diferentes do que é bom pra ela. E o mesmo se aplica pro amigo mais velho que adora criticar o gosto por cinema ainda em formação das gerações mais novas. Funciona pros dois lados.

Então se experiências e referências particulares são fundamentais para se determinar o gosto por um filme ou obra artística, como definir se essa obra é realmente boa? Bom, aí é que o caldo entorna pra valer, pois a maioria das pessoas, pelo menos nas Redes Sociais, aparentemente não conseguem diferenciar gosto pessoal e qualidade técnica. E, pior ainda, algumas destas pessoas parecem que podem morrer a qualquer momento se admitir que seu filme favorito não é tão bom assim.

Enquanto o gosto por algo é muito particular, a qualidade de algo é muito mais fácil de se determinar. Existem técnicas para se definir o que é bom ou não. E este tipo de informação pode ser compreendida mais facilmente do que o gosto pessoal. Existem artigos, livros, escolas, cursos, faculdades e premiações que definem e atestam a qualidade técnica de algo. E mesmo assim, se você discordar, você mesmo pode apresentar sua teoria academicamente e contestar o status quo. A beleza da academia é isso. Todas as teorias são aceitas. Só precisam ser postas em prática e comprovadas. Simples, não é? Não exatamente.

Sou melhor que o Exorcista sim! Pelo menos pra alguns…

Como já disse aqui, algumas pessoas não conseguem admitir que algo que gosta não é bom ou, que alguém não goste de algo considerado o estado da arte, mesmo que isso seja perfeitamente compreensível.  Voltamos lá pro começo do texto, de novo. Seu gosto é a soma dos elementos que determinam sua personalidade, que vem dos mais variados backgrounds culturais, familiares, sociais, estudos, etc. Você pode gostar de funk ou música clássica. Isso depende mais do que “conversa” com você mais do que um monte de livros que provam por A+B que um é melhor que o outro tecnicamente.

E friso o “tecnicamente” aqui, pois, artisticamente, a coisa se complica. A estética é algo sempre em movimento. O padrão estético buscado pelo cinema no começo do século passado já mudou e foi substituído por algo mais adequado para os tempos e sociedade atuais. O que não significa que um é melhor que o outro. Eles apenas pertencem a um recorte cronológico específico, dependendo do distanciamento temporal para avaliar sua importância naquele momento. Algo que a academia e os estudiosos se encarregam. Você achar bonito ou ultrapassado, não vai mudar a importância daquele filme preto e branco, mudo ou cheio de efeitos práticos. Fique tranquilo!

É mais ou menos aqui, entre o gosto pessoal e técnica, que entra o crítico. Ele deve avaliar a obra a partir do ponto de vista técnico e estético imparcial e usar suas próprias referências para discorrer sobre os méritos e deméritos de uma obra. O crítico deve te ajudar a entender as razões por trás das qualidades e defeitos daquele filme, mas, no final, sua visão particular é fundamental, afinal, ele está escrevendo a análise a partir de seu ponto de vista e bagagem. Mesmo que buscamos saber a opinião de alguns críticos que preferimos, nada, nunca vai suplantar a nossa própria experiência cinematográfica.

Apenas tente entender que é possível considerar O Exorcista um ótimo filme, com qualidade técnica indiscutível, um ótimo elenco, prêmios, que resistiu ao escrutínio de críticos e acadêmicos por mais de trinta anos, se mantendo até hoje como um dos melhores do gênero e, mesmo assim, preferir Sexta-Feira 13 Parte 8 por ser um filme que marcou um rito de passagem da sua primeira ida sozinho ao cinema.

Podemos seguir gostando cada um de nossos filmes preferidos e, melhor ainda, podemos usar as Redes Sociais, e a sessão de comentários aqui, para expor nossos pontos de vista com educação, empatia, e, por que não, humildade o suficiente para gerar um debate plural que pode apresentar nuances que nossas próprias experiências não perceberam antes, e colocando pontos e contrapontos para que ambas as partes entendam cada um o lado da coisa, e que diabos, consigam até ver as obras com outros olhos e opiniões, ou captar coisas que ficaram faltando, ou foram exageradas.

Mas não precisamos tentar convencer ninguém que um é melhor que o outro. Gosto pessoal não é parâmetro!


Rodrigo Ramos
Rodrigo Ramos
Designer, roteirista da HQ Carniça, coautor dos livros Medo de Palhaço e Narrativas do Medo. Fã e pesquisador de quadrinhos e cinema de horror. Tem mais gibis em casa do que espaço pra guardar e tempo pra ler, mas quem nunca?

4 Comentários

  1. Renan T. disse:

    Excelente texto!

    Ainda não vi o filme e devo admitir que tantos elogios a ele só me deixaram com mais vontade de assistir e, pelo menos no meu caso, ir de encontro a algo que tem provocado tanto “alarde” evoca em mim uma certa neutralidade forçada quando for conferir o filme.

    Já aconteceu comigo de assistir determinado filme que todos rasgavam elogios e simplesmente não ver nada demais naquilo, de gostar de algo que ninguém gostou (Oi, Leatherface de 2017) e ainda de mudar de opinião numa segunda assistida e passar a gostar de algo que não gostava e vice-versa.

    Outra coisa que eu acho que mata é aquela frase feita de “não, espera, você não entendeu o filme”. As pessoas parecem não compreender que é possível entender o filme e ainda assim não gostar.

    A impressão que dá é que atualmente existe uma certa relutância em se expressar de forma autêntica, um medo de nadar contra a correnteza quando sua opinião não é tão popular. Acho que o impopular e o diferente sempre deu origem a tópicos bacanas, conversas e discussões que por vezes até acabam nos mostrando um lado de determinada obra que antes alguma das partes não tinha reparado. Lembro que quando assisti A Bruxa (2015) saí espalhando para todo mundo que tinha amado e que todo mundo tinha que ver. Na época até teve um burburinho parecido ao de Hereditário e das várias pessoas que eu tinha indicado o filme só uma ou duas, de fato, gostaram. As conversas que vieram depois disso me fizeram ver um lado do filme que antes eu não tinha reparado e, assim, não me fez desgostar do filme, mas definitivamente me fez vê-lo de um modo que talvez jamais tivesse visto. Enfim, o assunto dá pano pra manga, haha.

    • Rodrigo Ramos Rodrigo Ramos disse:

      Pois é, Renan!

      Aparentemente, nesta era de extremos, você não pode gostar de algo, nem desgostar! Aí fica difícil!

      Onde foram parar as infinitas possibilidades presentes no meio das duas pontas?

      Eu mesmo não achei Hereditário tudo isso, e recebi diversos olhares atravessados quando expressei minha opinião. Isso foi, em parte, a munição que precisava para este texto.

      Obrigado por comentar e mostrar que tem mais gente por aí que ainda acredita nas opiniões ponderadas!

      Abração!

  2. Dani Vidal disse:

    Não tem como fugir das referências pessoais na hora de analisar o impacto do filme sobre si mesmo. Até o fato de ter visto no cinema, se o público do cinema ajudou… Tudo isso influencia. Eu tive minha experiência no filme A Bruxa, muito alterada por estar em uma sala de cinema repleta de gente mal educada. Infelizmente só tinha uma sala disponível pra esse tipo de produção e não havia como fugir.

    Se você tem panico de sangue, claro que um filme slasher ou de zumbis… Algo mais gráfico vai mexer com seus medos muito mais do que um terror psicológico. É preciso parar de medir os outros com nossa régua.

    Existem análises técnicas mas ainda assim são questionáveis pois cinema não é matéria exata. Cada qual com seu cada qual e seguimos o jogo.
    🙂

    • Rodrigo Ramos Rodrigo Ramos disse:

      Oi Dani!

      Parar de medir os outros pela nossa régua não melhoraria só a experiência no cinema, mas a experiência no mundo! Né não?

      E que pena que estragaram sua sessão de A Bruxa. A atmosfera é fundamental pra se apreciar um filme destes! 🙁

      Obrigado pelo comentário e volte sempre!

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