Horror é política sim!

A política tem tudo a ver com cinema de horror, com a música, com as artes! Você é quem talvez não entendeu nada…


Enquanto o futuro do país se torna cada vez mais incerto, mais e mais pessoas optam por se posicionar na esperança de esclarecer os riscos que corremos como coleitvo quando decisões são tomadas por ódio e baseadas em fake news. Desta forma, artistas, produtores de conteúdo, youtubers e sites desceram do muro para deixar claras as razões do #EleNão.

Mas enquanto alguns entendem posicionamento tomado, outros logo disparam “o que política tem a ver com o que você faz?”. “Pensei que isso era um site de entretenimento, ou um show de rock, nada a ver misturar com política“. Descontadas as razões mais óbvias, onde a reprovação está muito mais relacionada com discordância do que qualquer outra coisa, existem aqueles que talvez não tenham entendido que toda manifestação artística e cultural é política.

Embora o termo política tenha surgido na Grécia antiga para definir algo relacionado aos grupos que integravam a cidade, ou “Pólis”, com o tempo o termo expandiu seus significados, passando da organização e administração do Estado para englobar as relações sociais em um significado muito mais amplo e complexo, reforçado por Aristóteles em sua frase “o homem é um animal político”.

Desta forma, se a arte é um meio de expressão, nada mais natural que esta expressão traduza um povo de forma cultural, social e política. E não estamos falando de uma arte engajada politicamente, usada para dar poder de voz a uma causa, como fazem o hip-hop ou o tropicalismo nos movimentos musicais, estamos falando da tradução das relações sociais em um objeto de arte. E cinema, seja produzido de maneira industrial ou independente, é arte.

Portanto, nada mais longe da realidade do que dizer que política não tem nada a ver com o que fazemos aqui no 101 Horror Movies. Se cinema é política, o cinema de horror é muito mais político ainda. Nosso gênero favorito trata, entre outras coisas, dos nossos medos como sociedade. Cinema de horror, junto da ficção científica, talvez seja o mais político de todos e os temas tratados pelos cineastas do gênero, que vão muito além de assassinos mascarados perseguindo adolescentes em um acampamento, muito mais fundo nas nossas relações com o mundo, a sociedade à nossa volta e com nós mesmos.

Romero sempre na vanguarda

Talvez o exemplo máximo de política no cinema de horror esteja no subgênero dos zumbis, principalmente nos filmes de George A. Romero como A Noite dos Mortos-Vivos, de 1968, e Despertar dos Mortos, de 1978. A cinesérie de Romero tem início lá nos anos 60, no auge das manifestações em prol dos direitos civis, e apresenta um herói negro, que após enfrentar todas as dificuldades para sobreviver a uma horda de zumbis, é morto no dia seguinte com um tiro na cabeça dado por um policial. Ainda que o próprio Romero garantisse que não havia qualquer intenção política por trás de seu filme na época, é inegável que A Noite dos Mortos-Vivos traduza com perfeição o momento histórico em que foi produzido, ainda que inconscientemente.

Mas Romero soube entender e analisar os comentários feitos sobre sua magnus opus e, dez anos depois, abraçou de vez a crítica social e política em O Despertar dos Mortos. Ainda que o filme, em sua maior parte, concentre-se nos esforços de sobrevivência de um grupo de pessoas em meio ao caos apocalíptico, é quando este grupo encontra abrigo em um shopping center que a crítica aparece ácida e intensa. O caos lá fora e as pessoas felizes, alienadas enquanto tivessem acesso aos produtos infinitos à disposição naquele local e, posteriormente quando os zumbis invadem, as criaturas trôpegas vagando pelos corredores e parando diante das vitrines apenas comandadas por um instinto primal de consumo, mostram uma crítica ao consumismo desenfreado e ao capitalismo selvagem.

Ao lado de Romero, um dos mais importantes cineastas do horror a trazer comentários sociais e políticos a suas obras foi Wes Craven. Em seu primeiro filme, Aniversário Macabro, de 1972, Craven explora os traumas da sociedade americana polarizada pós-Vietnã e a demonização política, transformando seu filme de vingança em uma metáfora que funcionaria perfeitamente nos dias de hoje, quase cinquenta anos depois. Em Aniversário Macabro, violência gera mais violência e quando um lado deixa de agir pela lei e abraça a vingança, as diferenças entre vítima e criminoso desaparecem, sobrando apenas pessoas de moral questionável. Alguns estudiosos do gênero ainda especulam sobre o título, que destaca “a última casa à esquerda” como uma crítica à política violenta da direita americana.

Cidadão de bem praticando vingança

Avançando no tempo, um dos mais recentes grandes ciclos do cinema de horror americano, o torture-porn, encontra suas raízes em um dos maiores acontecimentos políticos do século passado, os atentados de 11 de setembro. Encabeçado pelas franquias de grande sucesso, Jogos Mortais e O Albergue, o torture porn fornece um entretenimento violento e catártico para audiências que, assim como a administração Bush, aderiram à tolerância zero. Em Jogos Mortais, os torturados possuem falhas morais e éticas, logo, mereceram aquilo tudo, enquanto em O Albergue, a xenofobia vem à tona quando os jovens americanos em uma feliz viagem de férias, caem nas mãos de um grupo de torturadores violentos.

Em 2004, no auge do movimento, estourou o escândalo da prisão de Guantánamo, onde prisioneiros de guerra eram torturados física e psicologicamente por soldados americanos. Ainda que Eli Roth, diretor de O Albergue, na época tenha declarado em entrevistas para a Fox que “as audiências apenas querem ter medo, mas em um ambiente seguro”, o torture porn e os filmes do gênero produzidos no auge do começo deste século, na esteira dos atentados de 11/9, dão vazão ao sentimento de vingança de uma sociedade que viu seus maiores temores se tornar realidade em cadeia nacional e, não à toa tenham feito tanto dinheiro nas bilheterias.

O posicionamento de Jogos Mortais, onde as vítimas merecem suas punições por suas “falhas”, aproximam a franquia do gênero slasher onde os negros são os primeiros a morrer e para sobreviver você não pode fazer sexo ou consumir drogas. O gênero se popularizou muito no começo dos anos 80, durante as administrações Reagan e Tatcher e, mais do que um alerta para os perigos do sexo em um momento tomado pelo medo da AIDS, refletem com perfeição um posicionamento de direita baseado no conservadorismo da sociedade daquela época.

Se livrando dos pobres americanos sujos…

Mais recentemente, filmes como Corra! e Uma Noite de Crime resgataram o comentário social e político no cinema de horror, colocando o racismo e a higienização como vilões no subtexto de filmes de grande sucesso de crítica e bilheteria. O discurso ali é claro e grita contra os opressores em um cinema político socialmente relevante como só o horror pode nos dar.

Portanto, antes de votar, reveja seus filmes preferidos, tente entender o que seus cineastas favoritos estavam dizendo e vote consciente. Coloque a mão na consciência de que a arte e a liberdade de expressão correm perigo. Que o seu próximo, o negro, o pobre, o gay, a mulher, o migrante – que podem ser da sua família, seu vizinho, seu colega de trabalho – correm perigo, exatamente como nesse tanto de exemplos dados no texto aí em cima, que são metáforas refletidas no seu gênero predileto e que nunca conversou com o conservadorismo e com a direita radical. Sempre se posicionou contra. E reflita antes de dizer ou escrever que “nada a ver misturar cinema, música, o terror, ou o rock, com política”, pois esses movimentos culturais nasceram exatamente como uma forma de protesto contra o sistema vigente opressor.

Vote sabendo que, uma vez que o cinema de horror tem tanto a dizer, ele é sempre um dos primeiros a ser perseguidos e censurados. E que o amor vença o terror, num final bem maniqueísta que esperamos que aconteça, assim como a Regan McNeill conseguiu se livrar do demônio que lhe traria a ruína, no final de O Exorcista.

Não deixe que uma noite de Expurgo aconteça no Brasil


Rodrigo Ramos
Rodrigo Ramos
Designer, roteirista da HQ Carniça, coautor dos livros Medo de Palhaço e Narrativas do Medo. Fã e pesquisador de quadrinhos e cinema de horror. Tem mais gibis em casa do que espaço pra guardar e tempo pra ler, mas quem nunca?

2 Comentários

  1. Eduardo disse:

    Se antes já admirava o trabalho de vocês, agora tenho me tornado cada vez mais fã. Meus parabéns e também muito obrigado, não só por se posicionarem, mas também por trazerem opiniões críticas embasadas e honestas sobre temas que muitos infelizmente insistem em não enxergar.
    Talvez se mais pessoas tivessem pensado um pouco melhor, lido coisas como essas que estão aí em cima ou mesmo de outros posts como o de “A primeira noite de crime” ou aquele sobre censura, o resultado de ontem não tivesse sido um pouco diferente…
    Enfim, parabéns pelo texto incrível.

    • Rodrigo Ramos Rodrigo Ramos disse:

      Muito obrigado, Eduardo!

      Infelizmente, nem todo o esforço que todos nós fizemos foi o suficiente para evitarmos que entrássemos nessa área tão perigosa. Agora é ficar de olho e acompanhar cada passo do novo governo.

      Estaremos juntos nessa!

      Abração!

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