HQRROR #13 – Matadouro de Unicórnios

As vísceras da vida na tua cara!


Mais uma vez fui alvejado na cara pela qualidade nacional em termos de quadrinhos. Quando comecei a leitura de Matadouro de Unicórnios, achei que teria algo do mesmo nível de Parafusos, Zumbis e Monstros do Espaço, uma vez que ambos vieram das mãos geniais de Juscelino Neco. Mal sabia eu que estava lendo algo que se tornou obrigatório para qualquer um interessado em narrativas bem construídas e confrontos violentíssimos com a realidade.

A história conta as desventuras de Gonçalo, um escritor falido, recém-divorciado e em crise criativa, que recebe uma proposta de ghostwriting. O trabalho é simples: contar a vida de um serial killer necrófilo. O conflito da narrativa começa quando, em meio à leitura do material sobre o assassino, Gonçalo reflete sobre os rumos que sua vida tomou e nas consequências positivas que uma série de homicídios poderia ter em sua carreira.

O roteiro mostra um protagonista consistente. Logo nas primeiras cenas somos informados que ele não é alguém que fez as melhores escolhas do mundo, ainda que elas tenham sido corajosas. Gonçalo é um homem frustrado, que tentou de tudo na vida para alcançar aquilo que almejava, sem pensar muito em suas atitudes.

A busca por um proposito, demonstrada genialmente em monólogos do personagem com ele mesmo, tudo justifica. Uma existência pacata não pode ser aceita, não por Gonçalo. Tudo vale para se ir além do ordinário – desde consumir vodka por via anal até cometer brutais assassinatos.

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Os traços crus que compõe as ilustrações, característica marcante do autor, dão aos momentos de gore proporções grotescas e às cenas de ação um realismo brutal. Em algumas críticas que li sobre Matadouro de Unicórnios, percebi que constantemente os momentos cômicos de humor negro são postos como a característica mais chamativa dessa obra. Óbvio que esses momentos são significativos (a utilização de elementos da cultura pop como armamento em algumas cenas é impagável), entretanto não é aí que mora o seu brilhantismo.

Juscelino, como já havia feito em seu livro gráfico anterior, nos mostra um ser humano ordinário, vivendo em silencioso desespero, atrás de algo maior. O vazio existencial de Parafusos, Zumbis e Monstros do Espaço se perpetua. Em uma interpretação ousada, digo que Matadouro é o mundo e os Unicórnios são os nossos sonhos.

Dizem que o grande problema de se lançar uma obra boa é a dificuldade de supera-la. Ainda que eu tenha achado que algumas relações pessoais não tenham sido completamente exploradas no decorrer da história, posso dizer que esse é um trabalho que foi MUITO além das minhas expectativas (que eram altas), superando seu antecessor e fazendo de mim um fã convicto de Juscelino Neco.

Com uma história inusitada e um dos subtextos mais interessantes que já vi, Matadouro de Unicórnios é, como eu disse, leitura obrigatória. Difícil mesmo vai ser superar esse segundo livro.

Fica técnica:

Matadouro de Unicórnios – 2016

Roteiro: Juscelino Neco

Desenhos: Juscelino Neco

Editora: Veneta

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Tauami de Paula
Tauami de Paula
Estudante de Letras e de Filosofia, esse apreciador do absurdo e do inexplicável sempre encontrou mais sentido na arte do que na vida. Sendo raramente visto fora de casa, passa os dias lendo, escrevendo e criando teorias sobre tudo aquilo que não entende.

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