HQRROR #26 – The Black Monday Murders

All Hail God Mammon


O dinheiro é uma das forças mais poderosas que existem. Ele move tudo na nossa sociedade. Desde grandes empreendimentos, que são capazes de mudar o rumo de toda uma nação, até coisas mais sutis, como os sonhos de um único indivíduo. Essa força parece ter um espírito próprio que alguns conhecem de perto e são capazes de controlar. Famílias milionárias, que são incrivelmente ricas há gerações, seriam um exemplo disso. O que será esse espírito? Por que certas pessoas têm mais controle sobre ele? Essa é a questão que serve de pano de fundo em The Black Monday Murders.

A história contará a relação que inúmeras escolas de ocultismo possuem com o funcionamento do atual sistema econômico e como elas estão interligadas a um assassinato que um detetive terá que solucionar. O clima noir da narrativa é constante e envolvente, fazendo com que queiramos devorar com mais  pressa suas páginas. O modo gradativo com que a história se desenvolve é brilhante, mostrando que os autores de fato compreendem que se deve trazer o leitor para dentro da narrativa aos poucos.       

A sobriedade retratada pelo exagero dos tons escuros nos quadros parece tentar trazer ao leitor uma interpretação pesada da questão  que é lidar com o dinheiro. A troca de cores para tons mais avermelhados, onde existe a manifestação de aspectos sobrenaturais da realidade interferindo no mundano também deve ser apontada. A escolha não arbitrária da cor vermelha implica na necessidade do sangue que deve ser derramado para que determinados eventos devam ocorrer.

O modo como cartas escritas pelos personagens e relatórios diversos intercalam a leitura visual é brilhante. É quase como se estivéssemos diante do próprio funcionamento da mente daqueles que fazem o dinheiro circular nas veias da economia mundial: ora se deve ler os dados com a mais dedicada atenção, ora se deve agir como um lobo faminto que se esgueira furtivamente atrás de sua presa.

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Essas mesmas cartas e relatórios também tem um outro motivo de ser: fazer que nos aproximemos ainda mais do papel do detetive Theodore Dumase (nome do detetive). A medida que as coisas vão acontecendo na trama, as pistas se tornam cada vez mais complexas para aquele que busca solucionar o caso de assassinato que funcionou como gatilho para o início de tudo. Os brilhantes responsáveis pela HQ, Jonathan Hickman e Tomm Coker, encontraram através desse recurso um modo de nos fazer SENTIR a dificuldade que assola a resolução do caso.

As personagens que, na narrativa, são responsáveis pelas maiores instituições financeiras do mundo podem ser vistas como engrenagens de uma grande máquina, onde quando uma peça se mostra defeituosa, outra surge para substituí-la. Simples assim. A condição humana se mostra descartável no sistema capitalista retratado em The Black Monday Murders. Existe também uma sofisticada retratação daqueles que habitam o outro lado, dos que não usufruem das fontes inesgotáveis de dinheiro. Os “comuns” são mostrados como invejosos que enxergam nos ricos malditos arrogantes que tudo têm e por isso devem ser odiados. A aproximação com a realidade vai se tornando cada vez mais assustadora. A questão que fica, ao final da leitura é: será que apenas nessa ficção não passamos de peões que ignoram suas medíocres condições existenciais em prol de um soldo miserável ao final do mês?  

Contando com quatro edições até o presente momento, The Black Monday Murders, publicadas pela Image Comics, se a série continuar com o ritmo que está apresentando, será considerada um clássico daqueles que devemos ler e reler várias vezes. Essa HQ agradará todos que buscam uma história madura com várias camadas de profundidade.

Ficha técnica:

The Black Monday Murders – 2016 – #1 até #4

Roteiro: Jonathan Hickman

Arte: Tomm Coker

Editora Image Comics

10

 


Tauami de Paula
Tauami de Paula
Estudante de Letras e de Filosofia, esse apreciador do absurdo e do inexplicável sempre encontrou mais sentido na arte do que na vida. Sendo raramente visto fora de casa, passa os dias lendo, escrevendo e criando teorias sobre tudo aquilo que não entende.

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