HQRROR #32 – Tabloide

Jornalismo sádico


Existem gêneros que sempre andaram de mãos dadas com o terror. Histórias de serial killers com problemas mentais ou de desajustados sociais que encontram prazer em banhos de sangue dificilmente não contêm em seu enredo algum tipo de investigação. Essa proximidade entre os thrillers investigativos/policiais e o terror é extremamente comum e muito bem-vinda quando feita com esmero. Na HQ Tabloide, podemos ver essa união acontecendo de forma exemplar.

Em 2015, foram retirado do Sistema Catareira – o maior sistema de de captação e tratamento de água da grande SP – vários litros de água com o intuito de abastecer São Paulo, durante a crise hídrica que assolou aquele ano. Com a redução desse volume hídrico, vários carros que estavam submersos foram surgindo. Em um desses veículos, o corpo de uma mulher vestida de noiva é encontrado no porta-malas. A peculiaridade da situação atrai o raciocínio analítico da detetive e jornalista Samantha Castello, que decide embarcar na apuração desse caso.

Dentro da história, dois níveis de narrativas parecem se desenrolar: o primeiro acontece no nível mais superficial e óbvio, acompanhando o andar da investigação. O segundo nível acontece dentro da mente da detetive. Detalhes sobre a história de vida de Samantha nos são trazidos aos poucos, dando sentido aos pensamentos que da personagem que vão saltando nas páginas enquanto o caso é solucionado.

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Embora existam alguns clichês que talvez pudessem ter sido evitados, os detalhes dessa história dentro da história geram um deslocamento daquilo que é visto para aquilo que é pensado. Explico: Dentro das HQs, grande parte da história é contada através do imagético, ou seja, daquilo que é mostrado. Em Tabloide existem dois tipos de texto habitando em perfeita harmonia: aquele que é literalmente exposto (através dos quadros) e aquele que é contado pelo texto escrito. Nesse segundo caso, a mente do leitor é dirigida para a complexidade histórica e profundidade existencial que a protagonista possui.     

Voltando ao primeiro nível da trama, ela é extremamente bem elaborada e não deixa a curiosidade assentar em nenhum momento. As pistas que vão surgindo enquanto a investigação vai encontrando sua conclusão vão sendo dadas de formas nada óbvias, instigando o raciocínio do leitor a todo instante e surpreendendo de forma extremamente positiva em seu final.

Com relação à arte, um estilo cartunesco cru foi utilizado. O conflito, entre o conforto quase infantil que esse tipo ilustração causa (também demonstrado pela utilização de onomatopeias que nos remetem aos tempos em que quadrinhos ainda eram “coisas de criança”) com uma narrativa policial extremamente complexa, gera uma experiência de leitura fantástica que muito me lembrou Parafusos, Zumbis e Monstros do Espaço e Matadouro de Unicórnios.91yJVekkdQLOutro ponto bem bacana da obra é a adição de um trabalho escrito por Samantha, que é acrescentado no decorrer das páginas. Como foi dito antes, a protagonista também é jornalista e possui um tabloide onde publica notícias que nenhum outro jornal se dispõe a publicar. Esse detalhe também corrobora para a construção do segundo nível da trama, citado anteriormente.

Com uma história muito mais profunda do que a primeira leitura pode sugerir, Tabloide é uma narrativa policial que contém muito terror nos detalhes de seu desenvolvimento e de sua conclusão, tornando-se uma leitura extremamente prazerosa e intensa.

Ficha técnica:

Tablóide: a dama dos afogados – 2017

Roteiro: L.M. Melite

Arte: L.M. Melite, Thiago Ferreira e Francis Ortolan

Editora Veneta  

 


Tauami de Paula
Tauami de Paula
Estudante de Letras e de Filosofia, esse apreciador do absurdo e do inexplicável sempre encontrou mais sentido na arte do que na vida. Sendo raramente visto fora de casa, passa os dias lendo, escrevendo e criando teorias sobre tudo aquilo que não entende.

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