HQRROR #33 – Gantz: G

Um retorno pouco satisfatório ao universo da bola preta misteriosa


Há quase exatos 17 anos chegava ao Japão o primeiro capítulo do mangá Gantz, escrito e desenhado por Hiroya Oku. A série, que se desdobrou por 37 volumes e treze anos de publicação, seguia o protagonista Kurono Kei e seu amigo Masaru Kato, ambos colegiais que, após morrerem atropelados por um trem, são revividos e forçados a participar em um jogo bizarro, gore e futurista nas ruas de Tóquio.

No jogo em questão, os participantes devem caçar e eliminar aliens utilizando super uniformes e armas ultra tecnológicas, somando pontos por cada morte, com os quais poderiam “comprar” três prêmios: liberdade, reviver alguém que morreu no jogo ou armamento especial. A série foi marcada por vários elementos, incluindo violência extrema, com muitos desmembramentos, ação frenética, variedade imensa de monstros e sexualidade acentuada.

No último arco do mangá, a ação frenética e o horror corporal passaram a dividir lugar com um enredo metafísico e filosófico ousado e grandioso, o que decepcionou muitos fãs, mais apegados ao formato inicial. Este leitor que vos escreve, discorda destes! O mangá de Gantz, do começo ao fim, é uma das obras mais grandiosas e intrigantes produzidas na terra do sol nascente.

Em 2004, uma versão em anime foi lançada, em w26 episódios, elevando a popularidade do nome Gantz pelo mundo. Por ter sido produzida dentro de um período no qual o mangá ainda estava pela metade, o anime teve um final próprio, adaptando o fim de um dos arcos principais da versão original. Mais recentemente, nos anos 2010, apareceram as versões live-action e um filme em CGI, este último intitulado Gantz: 0 e disponível no Netflix BR.

Em resposta ao pedido dos fãs e almejando revisitar seu universo, Hiroya Oku retomou o mangá por algum tempo com a série Gantz: G, escrevendo um total de 3 volumes. Dessa vez, porém, os desenhos ficaram a cargo do estreante Keita Iizuka. A nova saga durou de novembro de 2015 à março deste ano.

Chama atenção inicialmente o traço inferior de Iizuka, especialmente quando comparado com a arte de Hiroya. Em momentos há uma certa semelhança, mas a diferença se faz notar nos detalhes, nas cenas de ação ou movimento e nos painéis mais complexos, assim como no design de personagens secundários. Por vezes é bem difícil entender o que se passa na ação. A diferença entre ambos é gritante, como visto nos painéis abaixo:

Arte original carregada de ação e movimento, além de grande riqueza de detalhes.

Arte da nova versão, consideravelmente mais simplista

As primeiras páginas nos apresentam uma versão consideravelmente mais trágica de eventos, em que um ônibus inteiro cai dentro de um rio, matando todos os alunos, que são então levados para o quarto de Gantz, onde serão introduzidos ao jogo insano. A premissa de uma turma de adolescentes levados a participar de um jogo de vida ou morte imediatamente remete a outras duas obras consideravelmente famosas lá do outro lado: Battle Royale e Corpse Party. Ao contrário dessas duas obras ultra-violentas, em que os jovens são vítimas graduais (de si mesmos, no primeiro caso e de uma força sobrenatural, no último), Gantz: G utiliza o grosso desses estudantes apenas como vítimas para fazer número no primeiro jogo.

Uma personagem em particular é introduzida como possível protagonista – seu nome é Kei Kurona, versão feminina de Kei Kurono, o protagonista da série original. No entanto, ao longo dos episódios, esse protagonista acaba diluído frente suas colegas de turma. O núcleo principal, que devemos acompanhar do início ao fim, é composto por cinco garotas de potenciais diversos: uma nerd, uma rebelde, uma popular e uma alternativa, além da protagonista, que se passa como uma jovem neutra, sem nada que a defina, o que por si só já é uma característica definidora e uma semelhança com sua versão masculina. Apesar dos traços em comum, a possibilidade de um universo alternativo não parece muito plausível, considerando que a personagem Reika é vista aqui. Reika é uma supermodelo e uma das poucas figuras recorrentes ao longo dos vários volumes da saga principal.

Somam-se as cinco garotas, dois rapazes (um deles se parece uma mulher), ambos veteranos do jogo, que já alcançaram o prêmio de 100 pontos mais de uma vez cada. Apesar do núcleo majoritariamente feminino, a sexualidade exacerbada foi deixada totalmente de lado, aparentemente buscando um público maior. A violência também foi atenuada.

O rinocefante é uma das aberrações mais interessantes no primeiro arco.

Um dos pontos positivos da leitura continua sendo a ação. Os três volumes da série abarcam duas “partidas” de Gantz, sendo que na primeira os estudantes são levados para um zoológico bizarro, repleto de criaturas surreais compostas de diferentes animais, como a assustadora girafa com cabeça de crocodilo. Dos monstros imensos aos pequeninos, vemos um desfile de aberrações bastante criativo, com o selo de qualidade Hiroya Oku.

Aqui é possível percebermos o potencial artístico do desenhista em seu melhor. Boa parte do que se segue é um arco dramático longo (e um pouco cansativo) que compreende o intervalo entre as duas missões. Somos apresentados aos personagens em rotina escolar, Kurona é a menos desenvolvida nesse momento, o que afeta seu suposto protagonismo. Em compensação, a garota revoltada do grupo tem a melhor história de fundo e personalidade. Merecia um papel maior.

Esse intervalo dramático acaba sendo arrastado e o confronto final muito corrido. A inimiga final é bem poderosa, mas falta clareza no design das criaturas menores da fase. O desenho aqui torna-se bem simplista e um dos mais fracos da série como um todo. O estilo de colorismo digital utilizado no preto das roupas destoa consideravelmente do resto que está em quadro. A resolução é objetiva e deixa um gancho óbvio para retomar a história, mas ela acabaria seguindo o mesmo rumo da saga original, de forma que Gantz: G torna-se apenas um novo arco que poderia ser encaixado em algum lugar paralelo ao começo da outra saga.

Esse novo arco é uma espécie de fanservice para aqueles que estiverem com saudades daquele mundo, mas não oferece muito para quem não conhece o trabalho antigo. Vale mais apenas procurar o original antes, ou ler alguns dos títulos semelhantes que mencionei anteriormente. O longa animado digitalmente Gantz: 0 continua sendo a melhor coisa derivada da série até o momento e, se a esfera negra quiser, não será o último.

O time de garotas


Daniel Rodriguez
Daniel Rodriguez
Fã de horror em suas diferentes formas, principalmente cinematográfica. Incapaz de adentrar igrejas, pelo risco de combustão espontânea, dedica sua vida pagã a ensinar inglês, escrever sobre o gênero e, mais recentemente, fazer seus próprios filmes.

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