HQRROR #36 – Meu Amigo Dahmer

Quando seu ex-colega do colegial se torna um serial killer…


Será que é possível detectar que um garoto como qualquer outro tem traços psicopatas? E, se possível, teria como evitar tamanha tragédia? Essa é a questão abordada por John “Derf” Backderf em Meu Amigo Dahmer, primeiro título da recém lançada divisão Darkside Graphic Novel pela Darkside Books. Não onbstante, também é a primeira HQ a fazer parte da coleção “Crime Scene”.

Backderf realmente foi colega do notório serial killer Jeffrey Dahmer no colegial. Originalmente concebida como uma HQ de oito páginas, o cartunista começou a coletar material para a história pouco tempo após os crimes de Dahmer invadirem a mídia. Porém, tentou vender o projeto diversas vezes, não tendo sucesso em nenhuma.

Frustrado e com a grana do próprio bolso, lançou Meu Amigo Dahmer em formato revista com apenas 24 páginas, pois era o que o mesmo podia pagar, em 2002. Resultado: ganhou o Prêmio Eisner e fez um sucesso estrondoso. Mesmo assim, o autor, não contente com o produto final, decidiu coletar informações com o FBI, voltou a sua cidade natal para entrevistar antigos colegas e professores do Eastview Junior High e Revere High School e dez anos depois, fora publicada a versão que temos hoje.

Logo no início podemos perceber o quanto as coisas com Jeff Dahmer já não estavam muito certas desde cedo, visto que o passatempo preferido do garoto era dissolver animais mortos em ácido para poder estudar o que havia por dentro dos mesmos. A atmosfera da história, desde seu início, é única. Ao mesmo tempo que Backderf nos coloca em um tom sombrio, ele também ambienta uma atmosfera teen, numa forma de retratar a juventude e adolescência dos anos 70. Outro fator interessantíssimo, é como o cartunista consegue criar contrapontos mostrando a sua casa e o seu dia-a-dia e o de Dahmer, retratando o futuro assassino sofrendo com bullying e os problemas em casa, como o casamento dos pais em ruínas e a falta de atenção deles. Não só isso, mas também explora o quanto aquilo lhe afetava psicologicamente.

Sushiman

Dahmer acabou se tornando uma celebridade entre os colegas de classe, visto que todos usavam o garoto como fonte de diversão devido seus tiques e fala deformada como uma suposta forma de zombar do decorador deficiente que era amigo de sua mãe. Isso levou à criação do “Fã-Clube Dahmer” e os trejeitos de comunicação que os jovens apelidaram de “Dahmerismos”.

Algumas questões interessantíssimas são postas em pauta várias vezes durante a narrativa: onde estavam os adultos? Como ninguém nunca tinha tempo para Dahmer? Como é possível que um adolescente estranho, isolado, que passava todas as manhãs de aula alcoolizado, em uma forma drástica de se livrar de seus problemas, nunca chamou atenção? Como uma mãe foi negligente a ponto de, após um casamento devastado, partir para sua cidade natal com o filho mais novo e deixando o adolescente problemático, prestes a se formar, para viver sozinho em casa?

Backderf também relata as obsessões e tentativas iniciais de atrocidades que Dahmer não cometera somente por se agarrar aos resquícios de sanidade que sobravam em sua mente, como a tentativa de surpreender um corredor, com o qual o jovem tinha sonhos necrófilos, e de matar um cachorro que havia encontrado na estrada.

Outro ponto forte da narrativa é a habilidade que em sempre retratar Dahmer como uma vítima da circunstância. Ou melhor, das circunstâncias: escolares, sociais e familiares, que mostram que seu destino não poderia ter sido outro além da tragédia que conhecemos. A ideia é mostrar que os sinais de sua possível transformação podem se fazer presentes em qualquer um e que só é preciso que a chama seja alimentada para se alastrar.

Por fim, Meu Amigo Dahmer é uma obra poderosa, com uma impecável edição da Darkside, repleta de conteúdo extra. Fácil de ser lida e que prende o espectador, relatando com maestria a juventude daquele que se tornaria um dos mais notórios assassinos da história e mostrar que qualquer pessoa próxima talvez precise de ajuda.

Eu bebo sim. Eu tô vivendo. Tem gente que não bebe e tá morrendo.


Angelus Burkert
Angelus Burkert
Psicopata em formação. Pegou gosto pelo cinema de horror após ir até a sessão de VHS de terror na locadora e olhar todas as capas de filmes possíveis. Fã confesso de música e games, provável que não mude nada com o passar dos anos, exceto o amor pela carnificina.

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