HQRROR #38 – The Walking Dead

Rick, Negan e os Mortos Vivos em papel e nanquim


The Walking Dead na televisão está por aí há incríveis oito anos, um número expressivo, mas ainda menos impressionante que em quadrinhos, que já se estende por 14 anos! Ao passo em que o seriado acabou de alcançar o centésimo capítulo, com a estreia do último domingo, a versão em papel e tinta está nas vésperas de sua edição número 173.

Pois então, o que tem acontecido por lá? Por onde andam Rick e seus amigos em suas contrapartes desenhadas? Será que as HQs ainda são relevantes depois de todo esse tempo?

Atenção, o texto contém spoilers que podem ou não afetar o enredo futuro do seriado, mas evitarei entrar em detalhes e nomes de personagens que ainda morrerão. E acredite, são muitos…

A sétima temporada da série da FOX introduziu Negan (Jeffrey Dean Morgan) e preparou terreno para uma guerra total entre humanos, com alguns mortos-vivos no meio. A oitava temporada, por sua vez, promete o desenrolar desse confronto. Negan surgiu nos quadrinhos na centésima edição, lá em 2012, de forma semelhante ao visto no seriado, esmagando a cabeça do nosso amado Glenn, que descanse em paz. A guerra travada por Rick e seus amigos contra esse vilão pra lá de cruel compreendeu um período que foi de outubro de 2013 até abril de 2014, das edições 115 até 126.

Basicamente, para aqueles que já se aventuraram pelas páginas da HQ, os rumos dessa guerra entre humanos é bem claro. Assim como em todas as temporadas anteriores, a grande curiosidade reside na questão: quem será que morre? Considerando que costuma existir uma pequena divergência entre vivos e mortos de uma mídia para outro, é sempre uma surpresa.

Após a saga com Negan, há um salto temporal nos quadrinhos que já foi mencionado no episódio Misericórdia, com alguns flashforwards mostrando um Rick velhaco e barbudo. Nessa altura do campeonato, o roteiro de Kirkman para a HQ parecia haver se estagnado. A transformação de Rick em um líder disposto a fazer de tudo já não mais impressionava e nem as mortes recorrentes de personagens centrais. A morte e a ideia de um conflito humano versus humano tornaram-se banais.

Eis que Kirkman se reinventou e trouxe um conceito totalmente novo, o primeiro realmente exclusivo da série – eu pelo menos nunca vi nem ouvi falar de nada igual. “A Saga dos Sussurradores” reviveu os quadrinhos, tirando-o da zona de conforto na qual havia se estabelecido desde que o Governador deu as caras. Até então, tudo que se passa nas duas mídias é pautado em uma suposta realidade. O que Kirkman faz é um processo evolutivo em sua obra, no qual a história dá um giro inspirada por si mesma, e não pelo realismo, ou baseada em outras obras do gênero. No lugar de uma nova comunidade humana que luta por dominação sobre outra, temos um grupo novo, que preza pela selvageria e funciona segundo as leis da natureza, utilizando os zumbis em seu favor, de uma maneira que, se adaptada fielmente para a televisão, causará no mínimo repulsa em seu público, que já anda bem sensível para extremos de violência. 

A Princesa é o novo nome do momento nos quadrinhos.

Atualmente, The Walking Dead encontra-se em um momento pós-sussurradores, no qual a ameaça ainda não foi exatamente resolvida, mas novos personagens e perspectivas dão as caras. Uma figura bem peculiar, em específico, juntou-se aos mocinhos na edição 171: Princesa, a monarca auto-proclamada da completamente abandonada cidade de Pittsburgh, uma mulher latino-americana de personalidade forte e visual saído diretamente de Mad Max.

Na última edição publicada nos Estados Unidos (#172), há um momento particularmente interessante envolvendo a Princesa. Ela se juntou aos personagens Michonne, Eugene e outros três sobreviventes, que viajavam para encontrar um outro grupo. Neste grupo, salvo por Eugene, a diversidade é um destaque, com uma mulher e um homem negros, um casal lésbico, composto por uma mulher asiático-americana e uma grega, e a própria Princesa, que é chicana. Acontece que isso se torna um motivo de conversa entre os próprios personagens, em um comentário metalinguístico um tanto quanto… bobo. Fica a impressão de que tentavam chamar atenção para si mesmos, dizendo “olhem só como somos diversificados, parabéns ao nosso criador Robert Kirkman por ser inclusivo!”.

Pensando mais adiante, especula-se que no próximo arco, a começar na edição 175, o governo norte-americano ressurja e aí quero ver que autoridade nacional vai ter poder sobre Rick Motherfucking Grimes.

Negan e o Alien

Tanto nos quadrinhos quanto na série, pouco se sabe sobre a família de Rick Grimes para além de Lori, Carl e Judith. Esse mistério foi abordado no one-shot (edição única) The Walking Dead: The Alien, lançada em 2016 e estrelando Jeffr Grimes, irmão caçula de Rick que, no início do fim, estava em Barcelona, Espanha. O título utiliza a palavra alien para designar um estrangeiro e não um ser de outro planeta, diga-se de passagem.

A HQ de apenas 32 páginas conta com roteiro de Brian K. Vaughan, autor da obra-prima Y: O Último Homem, e desenhos de  Marcos Martin. Apesar de bem diferente do traço de Charles Adlard, o estilo preto-branco marcado pelo uso de sombras bem fortes é característica predominante. De certa forma, abraçando a mesma estética, mas com um estilo diferente. The Alien é leitura essencial para quem acompanha os quadrinhos e/ou a série, exatamente por aumentar o background conhecido de Rick. A HQ está disponível online AQUI (em inglês).

Um outro personagem que também recebeu uma luz em seu passado sombrio foi o vilão Negan. A minissérie Here’s Negan, lançada em pequenas doses de quatro páginas, conta a origem do personagem antes de tornar-se o líder dos Salvadores, um dos homens mais temidos do mundo de TWD. Contar o passado de um personagem do tipo é um risco imenso, já que uma história fraca pode muito bem assassinar toda a mística ao seu redor.

Já há alguns anos, Michonne ganhou um pequeno spin-off semelhante, que serviu para elevar ainda mais a personagem. O mesmo não acontece com Negan. A HQ solo é interessante, mas falha em criar um passado perturbador o suficiente para justificar o homem. Existem vários momentos de dramaticidade pouco desenvolvidas, que terminam por subaproveitar a ideia. Se tivessem trabalhado Negan em uma série maior, aí teríamos em mão uma preciosidade.

No universo televisivo, os spin-off foram melhor trabalhados com os livros e a série Fear the Walking Dead, além de webséries. Nas HQs, o mesmo aconteceu de forma muito acanhada e aquém de seu potencial.

Já há algum tempo, os quadrinhos mensais de TWD tem sido lançados no Brasil pela HQM, mantendo o formato americano. Mas ao que tudo indica, essa fase parece ter chegado ao fim. Em agosto deste ano, a editora anunciou a paralisação por tempo indeterminado nos lançamentos da franquia, alegando problemas com a crise financeira do país. Atualmente a editora está anunciando em sua própria loja todas as edições lançadas (48 no total) por menos de R$ 3,00 cada, o que não é bom sinal, já que o preço original beira os R$ 10.

Se a série principal continua sem perspectivas, os títulos paralelos sequer devem ser cogitados. Imagino que a toda-poderosa Panini intervenha em algum momento, adquirindo os direitos do título que merece mais do que uma publicação pela metade.

Na época em que vendeu a ideia de The Walking Dead para a editora, Kirkman prometeu Aliens no enredo. Vieram de uma forma bem diferente, não?


Daniel Rodriguez
Daniel Rodriguez
Fã de horror em suas diferentes formas, principalmente cinematográfica. Incapaz de adentrar igrejas, pelo risco de combustão espontânea, dedica sua vida pagã a ensinar inglês, escrever sobre o gênero e, mais recentemente, fazer seus próprios filmes.

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