HQRROR #40 – Carniça

A culpa seca o corpo!


O que acontece se você misturar Edgar Allan Poe com o folclore interiorano brasileiro sob o traço inspirado no quadro Os Retirantes, pintado em 1944 por Cândido Portinari? A resposta é Carniça, HQ nacional de horror escrita por Rodrigo Ramos e ilustrada por Marcel Bartholo, publicado de forma independente.

Com apenas 24 página que você devora em uma tacada só, Carniça traz a história de Jonas, um sertanejo alcoólatra e abusivo que mora em um rincão brasileiro, que após um surto de fúria, potencializado pela bebida, mata sua esposa em um acidente e resolve enterrá-la na propriedade rural. Consumido pela culpa e observado por um urubu – fazendo a vez do corvo no famoso poema do escritor de Baltimore – que o ronda de perto, Jonas vê aos poucos seu corpo entrando em uma terrível decomposição.

Encarnando David Cronenberg – A Mosca também parece ser uma grande influência para a dupla, conforme Jonas vai perdendo partes de seu corpo necrosado – a HQ com seu traço estilizado, escuro e carregado, vai narrando como Jonas é levado às raias da loucura e, metaforicamente, amaldiçoado pelo seu ato violento, definhando e apodrecendo como ser humano, mergulhado em remorso e sendo destruído psicológica e fisicamente, esse último, ao melhor estilo body horror.

Mas nas entrelinhas, traveste como um conto de horror sobrenatural uma história muito mais mundana e recorrente: a violência doméstica e abuso. Praticado por um sujeito agressivo, ignorante, infiel, imerso até o talo numa sociedade machista. Um recorte específico que representa em grande escala, o retrato de toda sociedade igualmente doente e podre.

Além disso, evoca as boas e velhas maldições do J-Horror, ao melhor estilo “karma is bitch”, que prega que você não passará incólume ao mal que causou. Tudo isso para dar uma nova e ainda mais assustadora roupagem a uma das mais velhas lendas do folclore caipira do país: a lenda do “Corpo Seco”.

Causo repassado em tradição oral de geração a geração, a lenda original, muito comum no interior do Sudeste e Centro-Oeste, retrata um sujeito que era tão ruim, mas tão ruim, que nem Deus, nem o Diabo e nem a terra que há de comer, quiseram ficar com o cadáver, então ele foi amaldiçoado a ficar vagando pelas noites como um corpo putrefato, em uma versão absolutamente tupiniquim da mitologia do zumbi.

Quadrinho de horror nacional na raça, com qualidade ímpar de ilustração e arte-final e roteiro que, a primeira vista parece simplório, mas vem recheado de crítica social velada, mostrando que a dupla entende do riscado sobre o que faz de verdade um conto de terror ser genuinamente assustador.

Causo para contar para os filhos e netos, naquela noite na fazenda regada a luz do lampião.

Carniça

Roteiro – Rodrigo Ramos

Arte – Marcel Bartholo

Editora Ugra Press


Marcos Brolia
Marcos Brolia
Jornalista, editor e idealizador do 101HM, é fanático por filmes de terror (ah, vá!) desde que se conhece por gente, dos classudos aos mais bagaceiras. Adoraria ter um papo de boteco com H.P. Lovecraft e virar um shot toda vez que ele falasse a palavra “indizível”.

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