HQRROR #42 – Despacho

A inusitada combinação entre folclore e bagaceira em quadrinhos


Se existe algo que o brasileiro sempre soube fazer muito bem, este algo é história em quadrinhos de terror. A grande miscigenação de nosso povo, formado de imigrantes de todos os cantos do planeta, cada um trazendo suas próprias lendas. As grandes massas rurais, e as grandes massas urbanas, claro, sempre foram terrenos férteis onde, seja por falta de recursos, informação, violência e, até mesmo, pela presença fortíssima enraizada da religião, o sobrenatural cravou suas raízes profundas.

Foi deste terreno que brotaram as obras geniais de gente como Rubens Francisco Lucchetti, Rodolfo Zalla, Flávio Collin, Eugênio Colonnese, e tantos outros mestres da nona arte que tiveram seu ápice nos anos 60 e 70, quando as tradicionais coletâneas de terror em quadrinhos enchiam as nossas bancas de jornais. Gibis do calibre de Calafrio, Spektro, Mestres do Terror, só pra citar algumas, traziam todos os meses contos dos mais variados temas. Alguns inspirados no cinema de horror, estrelando Drácula, Frankenstein e Lobisomem, e, outros tantos traduzindo nossas lendas e mitos para páginas, hoje amareladas e disputadas a tapas por colecionadores.

Embuchada de bode!

Porém, com o passar dos anos e a decorrência de inúmeros fatores, que não cabem neste texto, o mercado mudou, os leitores mudaram e nossas tradicionais histórias de horror saíram das bancas e voltaram para as sombras, de onde saíam esporadicamente, mas sem muito efeito, até alguns anos atrás, quando a publicação independente e as pequenas editoras voltaram a apostar nos nossos próprios monstros. Dentre as principais editoras a acreditar e apostar no quadrinho nacional está a Draco.

A editora, premiada por alguns dos melhores álbuns de terror brasileiro de todos os tempos, com O Rei Amarelo em Quadrinhos e O Despertar de Cthulhu em Quadrinhos, obras ousadas em suas temáticas e impecáveis em suas execuções, agora abre espaço para outra empreitada inusitada e intrigante: Despacho, uma coletânea de horror, aos moldes dos clássicos quadrinhos nacionais de antigamente, misturando nosso tradicional folclore com a estética bagaceira do cinema trash.

Peraí… Eu conheço essa porta!

Organizada por Fernando Barone e Samuel Sajo, Despacho reúne oito histórias bastante distintas entre si e que misturam desde O Sítio do Picapau Amarelo, lobisomens e mitos indígenas ao Chupacabra, ET de Varginha e, pasmem, o lendário Bebê-Diabo!

Este mix maluco de referências e estilos possui uma unidade bem forte entre si, algo sempre presente nas coletâneas da Draco, mas como em toda boa antologia, claro, possui algumas histórias que se sobressaem às outras. O destaque vai para “O Diabo que Te Carrege”, de Victor Freundt, nosso Richard Corben brasileiro; “Brutalizados no Sítio”, de Airton Marinho e Samuel Sajo; e “Investigações Tupiniquins e O Caso do Bebê-Diabo”, de Tiago P. Zanetik e Bruno Soares.

O correto não seria comer prata?

Com todo o espírito irreverente e anárquico dos quadrinistas independentes, a reverência à tradição brasileira dos quadrinhos de terror preenche cada página de Despacho, que ainda conta com a belíssima capa de Ioannis Fiore, e um acabamento gráfico caprichado, marca registrada da editora, onde, intencionalmente, ou não, o papel pólen utilizado para o miolo, ainda dá uma leve amarelada nas páginas, aumentando ainda mais a sensação de nostalgia.

Fernando Barone e Samuel Sajo escolheram a dedo o time de quadrinistas de Despacho, eles mesmos atuando em algumas das histórias, e selecionaram a nata dos quadrinhos nacionais de terror em atividade para compor um dos melhores álbuns do ano passado.

 

Despacho

Roteiro: Vários autores

Desenho: Vários autores

Editora Draco

Ano de lançamento: 2017


Rodrigo Ramos
Rodrigo Ramos
Designer, roteirista da HQ Carniça, coautor dos livros Medo de Palhaço e Narrativas do Medo. Fã e pesquisador de quadrinhos e cinema de horror. Tem mais gibis em casa do que espaço pra guardar e tempo pra ler, mas quem nunca?

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