HQRROR #43: A Teia Escarlate

Sexo e sangue em quadrinhos de terror adulto e violento como deve ser


Em algum lugar num passado remoto e imemorial, os deuses, sabendo que seu fim estava próximo, criaram os seres chamados imortais, que viveriam do sangue dos humanos. Um último ato de vingança contra suas crias que um dia deixaram de adorá-los. Esse é o mote da série Tempos de Sangue, de Eduardo Kasse, que atualmente conta com cinco livros, alguns contos que expandem o universo misto de ficção histórica, fantasia e horror por outros autores e, mais recentemente, a HQ A Teia Escarlate.

Escrita a quatro mãos por Kasse e Raphael Fernandes, que também edita o gibi, e belamente ilustrada por Clayton InLoco e Daniel Canedo, A Teia Escarlate é o primeiro projeto transmídia da Draco expandindo o universo de Tempos de Sangue, mostrando um outro ponto de vista sobre a criação dos imortais e suas vidas através dos tempos. Do Império Romano, passando pela Idade Média, até chegar aos primórdios do século XX, preparando o cenário para possíveis continuações.

A HQ começa com a morte da esposa de um centurião romano que se enfurece com os deuses por levarem sua amada e promete destruir todas as divindades que encontrar, uma a uma. Seu ódio o torna uma figura lendária, levando-o a se encontrar com o próprio César. O Imperador lhe atribui a missão de liderar um exército até uma cidade egípcia que dizem ser guardada pela deusa-aranha Neith, dando ao centurião uma chance de se vingar contra os deuses. Qualquer coisa que eu diga a partir daí, pode ser considerado spoilers, mas vale a pena ressaltar que acompanharemos a evolução de um personagem como imortal através das eras e como isso muda sua personalidade e a forma como interage com os humanos. Ao longo da história encontramos Dorian Gray, Marquês de Sade e até Aleister Crowley.

Eduardo Kasse e Raphael Fernandes costuram elementos que soam como mais do que simples referências. Dentro daquele universo, faz todo o sentido unir o mito dos imortais com estas figuras históricas. A HQ ganha estofo e torna a leitura muito mais interessante para o leitor mais atento que irá perceber as conexões entre a ficção e o mundo real espalhadas aqui e ali. Alguns leitores mais preguiçosos podem torcer o nariz, mas os trechos em prosa que intercalam alguns pontos de transição da HQ acrescentam muito à leitura, preenchendo de maneira muito mais eficiente as lacunas temporais entre um capítulo e outro.

Para ilustrar este conto de sangue, violência e luxúria, Raphael selecionou uma dupla incrível de artistas, ou um trio se adicionar a belíssima capa de Ioannis Fiore à soma. Clayton InLoco é o responsável pelo primeiro capítulo do gibi, dando vida ao cenário asséptico dos palácios romanos e aos desertos egípcios, com sua arte limpa, de traços finos e rostos expressivos. O destaque vai para a página dupla que retrata um assassinato famoso com vigor e agressividade tais que você consegue ouvir o som nas páginas.

Daniel Canedo se encarrega da segunda parte de A Teia Escarlate, retratando a decadência da Idade Moderna, nos anos pré-Revolução Francesa, recheados de orgias regadas a sangue, sexo e morte. Sua arte mais carregada, escura, com traços bastante realistas e cenários suntuosos, funciona muito bem neste contexto, criando cenas impactantes e grotescas. Com destaque para uma página dupla retratando uma famosa orgia que durou 120 dias que atrai o olhar aos detalhes ao mesmo tempo em que gera repulsa.

Sem ter recebido a atenção devida, A Teia Escarlate é um dos títulos mais interessantes dentre o vasto catálogo de quadrinhos de horror da Draco, e por ousar ao retratar o tema do vampirismo de maneira tão inusitada dentro da longa tradição de “Dráculas” em castelos góticos do nosso quadrinho, merece estar na estante de qualquer leitor que aprecie uma boa história de terror.

Ficha técnica:

ISBN: 978-85-8243-237-2

Páginas: 88 (pb, papel pólen bold)

Formato: 17 x 24cm

Gênero: Terror, fantasia histórica, quadrinhos

Autores: Eduardo Kasse e Raphael Fernandes

Ilustradores: Clayton InLoco e Daniel Canedo

Preço de capa: R$ 29,90


Rodrigo Ramos
Rodrigo Ramos
Designer, roteirista da HQ Carniça, coautor dos livros Medo de Palhaço e Narrativas do Medo. Fã e pesquisador de quadrinhos e cinema de horror. Tem mais gibis em casa do que espaço pra guardar e tempo pra ler, mas quem nunca?

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