HQRROR #44: Algumas Assombrações do Recife Velho

Um resgate em quadrinhos de um dos elementos mais tradicionais do nosso terror


Recife é conhecida como a cidade mais assombrada do Brasil. A tradição de contos assustadores envolvendo as ruas da capital pernambucana remonta de muito tempo atrás. Por exemplo, em 1929, quando era diretor do jornal A Província, Gilberto Freyre fez um levantamento de casos estranhos relatados nos arquivos do periódico. Tais relatos deram origem a uma série de artigos sobre o universo sobrenatural de Recife, que mais tarde foram organizados em um livro, Assombrações do Recife Velho, publicado em 1955.

Mais de sessenta anos depois, André Balaio e Roberto Beltrão, as mentes por trás d’O Recife Assombrado, roteirizaram, com o auxílio da bela arte de Téo Pinheiro e pesquisa histórica de Naymme Moraes, a adaptação para os quadrinhos de Algumas Assombrações do Recife Velho. Álbum lançado pela Global Editora em 2017 que traz sete contos inspirados diretamente nos causos pesquisados por Freyre na Recife do início do século passado, onde o que predomina é o horror folclórico, daqueles das rodas de conversa nas varandas do interior.

Mas nem por isso, menos assustadores.

O conto que abre o álbum, “O Boca-de-Ouro”, relata o encontro de um sujeito com um diabo malandro que vaga pelas ruas à noite aterrorizando aqueles que encontra pelo caminho. Em “Um Lobisomem Doutor”, vemos a filha de uma lavadeira atacada voltando pra casa e a chocante revelação da identidade do que a atacou.

A história seguinte, “O Papa-Figo”, conta a famosa lenda do ladrão de crianças e suas motivações por trás de seus crimes. Aqui, a arte de Téo Pinheiro adquire contornos mais sombrios e se torna mais detalhada, aumentando o impacto do roteiro assustador da dupla Balaio e Beltrão. Há ainda um contraste interessante presente no vilão, além do fato de suas vítimas serem crianças inocentes, que potencializa o impacto da história, que é a melhor do álbum.

Em “Um Barão Perseguido Pelo Diabo”, vemos um jovem fazendeiro que tem encontros noturnos com o próprio tinhoso. Logo em seguida, “O Visconde Encantado” nos apresenta a um aviador que desaparece durante uma de suas peripécias aéreas. A ótima “Visita de Amigo Moribundo” traz a descoberta chocante de um sujeito após reencontrar um amigo que não via há muito tempo. A HQ se encerra com o tétrico conto “O Sobrado em São José” sobre uma casa onde ocorrem coisas muito estranhas.

O que mais impressiona em Algumas Assombrações do Recife Velho é a qualidade consistente dos contos presentes na antologia. Embora algumas sejam mais interessantes e assustadoras que outras, graças à variedade de temas explorados nas páginas do álbum, todas as histórias possuem pontos positivos e negativos bem próximos. Se em algumas os traços de Téo Pinheiro parece mais simplificado, economizando nos cenários, em outras ele retrata paisagens e construções antigas detalhadamente. Enquanto alguns contos possuem a inocência dos causos contados pelas avós aos netinhos, outros capricham em passagens assustadoras belamente ambientadas.

Para aqueles que não são familiarizados com a obra original, o álbum ainda conta com uma biografia de Gilberto Freyre,uma introdução, e alguns textos explicativos, para situar melhor o leitor. As únicas pequenas ressalvas são quanto à capa e diagramação das páginas, bem convencionais, e à falta de uma divisão mais clara entre uma história e outra. Os títulos pequenos, muitas vezes passam despercebidos, emendando os contos involuntariamente. Mas nada disso apaga o brilho deste belo resgate histórico feito por quem entende muito do assunto em um dos melhores lançamentos do horror, e uma das mais agradáveis leituras em quadrinhos de 2017.

Ficha técnica:

ISBN: 978-85-2602-340-6

Páginas: 72 (colorido)

Formato: 20,5 x 27,5 cm

Gênero: Terror, folclore, quadrinhos, 

Autores: André Balaio, Naymme Moraes, Roberto Beltrão, Roberto Freyre

Ilustradores: Téo Pinheiro

Preço de capa: R$ 49,00

 


Rodrigo Ramos
Rodrigo Ramos
Designer, roteirista da HQ Carniça, coautor dos livros Medo de Palhaço e Narrativas do Medo. Fã e pesquisador de quadrinhos e cinema de horror. Tem mais gibis em casa do que espaço pra guardar e tempo pra ler, mas quem nunca?

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