HQRROR #45 – Moby Dick

Em tempos de tubarões voadores, o maior e mais emblemático confronto entre homem e animal ganha sua melhor versão em quadrinhos


Publicado originalmente em 1851, Moby Dick talvez seja um dos mais famosos e importantes romances americanos. Recebida com ressalvas na época de sua publicação original, o livro de Herman Melville, aos poucos foi ganhando notoriedade conforme suas camadas eram desvendadas, revelando muito mais do que o clássico embate entre homem e animal, mas também um tratado sobre obsessão e a fragilidade da humanidade diante da natureza e do acaso das coisas. A relevância que Moby Dick atingiu ao passar dos anos fez com que o livro fosse adaptado para as mais variadas mídias, quase nunca conseguindo traduzir sua profundidade para além do formato original.

Dentre estas mídias, o cinema foi a que mais trouxe versões do clássico de Melville, começando em 1926, com o filme mudo “The Sea Beast” de Milard Webb, passando pela mais famosa adaptação, “Moby Dick”, de 1956, dirigida por John Huston e estrelada por Gregory Peck, e até ganhando uma versão picareta em 2010 pela Asylum no filme “2010: Moby Dick”, de Trey Stokes. Nos quadrinhos, foi adaptado pela primeira vez em Classic Comics # 5 de 1941, com texto de Al KAnter e arte de Louis Zansky. Em 1990, foi a vez de D. G. Chichester e Bill Sienkiewicz levarem o romance de Melville para a edição de número quatro de Classics Illustrated da First Comics.

Mas foi só em 2014 que o quadrinista francês Cristophe Chabouté, premiado autor da bande dessineé, começou a publicar aquela que é considerada uma das melhores e mais fiéis adaptações do romance clássico de Herman Melville. E é esta premiada e elogiada adaptação de Moby Dick que a editora Pipoca & Nanquim traz para encorpar o seu catálogo de títulos indispensáveis para os leitores de quadrinhos em um volume único caprichadíssimo, como já se tornou marca registrada da editora.

Chabouté opta por manter o texto original de Melville, desenvolvendo a história aos poucos, que se desenrola diante dos olhos do leitor ao mesmo tempo em que a trama se desvenda a partir do ponto de vista do protagonista, um jovem marinheiro que embarca no navio Pequod juntamente da tripulação comandada pelo capitão Ahab, um velho baleeiro que perdeu sua perna há muitos anos no confronto com a gigantesca baleia cachalote que dá nome ao livro. A partir daí a HQ muda de foco diversas vezes, mostrando os acontecimentos sob os olhos de outros personagens da aventura, até voltar ao jovem marinheiro no final da história.

O traço de Chabouté é irretocável. O talento do artista escolhe sempre o ritmo ideal, seja para as sequências de ação, para os diálogos ou para os constantes mergulhos na psique dos personagens através de seus olhares e expressões. Com seus altos contrastes em preto e branco, o artista alterna entre quadros abertos, horizontais, para apresentar a ação em alto mar, e por quadros mais fechados, quando estamos dentro do navio.  

A belíssima edição com mais de 250 páginas reúne, em um único volume, as edições originais americanas, e apesar do tamanho, sua leitura flui com tranquilidade. Mas as sutilezas e beleza na narrativa de Chabouté convidam à releitura, que revela mais detalhes a cada viagem a bordo do Pequod.

Uma viagem que culmina com o devastador e poético surgimento do monstro no terceiro ato da história. O confronto que se desenrola diante dos olhos atônitos do protagonista, e dos leitores, é de tirar o fôlego, conduzido magistralmente pelo quadrinista com um domínio incrível da narrativa gráfica como pouco se vê por aí.

Ficha técnica:

ISBN: 978-8593695025

Páginas: 256 (preto e branco)

Formato: 28,4 x 21,6 x 2,6 cm

Autores: Herman Melville, Critophe Chabouté

Preço de capa: R$ 120,00


Rodrigo Ramos
Rodrigo Ramos
Designer, roteirista da HQ Carniça, coautor dos livros Medo de Palhaço e Narrativas do Medo. Fã e pesquisador de quadrinhos e cinema de horror. Tem mais gibis em casa do que espaço pra guardar e tempo pra ler, mas quem nunca?

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