HQRROR #49 – O Corvo

A jornada maldita de uma alma que não pôde descansar…

 

Você provavelmente conhece O Corvo. Pode até não ter assistido a adaptação cinematográfica (shame on you!), mas com certeza já ouviu falar, especialmente agora que rolam as notícias de uma possível nova versão fílmica da obra.

Misturando elementos de dark fantasy, ação e sobrenatural estrelado por Brandon Lee, o filme é baseado na história em quadrinhos de James O’Barr lançada em 1989 que, por si só, já é uma obra extremamente pessoal, visto que O’Barr a escreveu como uma maneira de pôr para fora toda a tristeza, raiva e angústia que sentia após perder a namorada em um acidente de trânsito causado por um motorista bêbado.

O Corvo narra a história de Eric Draven, um mecânico que vive com a namorada Shelly. Ambos são atacados por uma gangue de rua depois que o carro do casal quebra. Eric é baleado na cabeça e acaba por sofrer uma paralisia, sendo obrigado apenas a assistir Shelly ser brutalmente espancada, estuprada e então assassinada, sendo deixado para morrer na estrada.

O casal é levado ao hospital, mas Eric morre na sala de operação enquanto sua noiva chega morta no local. No gibi, é dito que no passado havia uma crença de que quando alguém morria, um corvo levava a alma para o mundo dos mortos. Mas quando algo ruim acontecia, uma enorme tristeza era levada junto com a alma, não permitindo o descanso eterno. E às vezes, o corvo trazia a alma de volta ao reino dos vivos para um acerto de contas.

A HQ tem um clima bastante sombrio e melancólico, com todo seu visual gótico. O’Barr nos põe como testemunha da vingança de Draven, mostrando o morto-vivo metodicamente espreitando seus inimigos, controlando cada passo e atividade para que então possa matá-los. É claro, em vários momentos o personagem sofre de uma tremenda tristeza e angústia que assolam seus pensamentos o tempo inteiro. Quando não está caçando aqueles que o mataram, Draven fica na casa que ele e a noiva moravam, se perdendo em memórias de sua amada, deixando claro a tortura que a ausência dela é para si, mostrando o protagonista até mesmo se auto-mutilando.

Olha o Coringa! … nao pera

É nesse momento que podemos sentir o toque pessoal da obra, a extrema dor emocional que Draven sofre em sua jornada maldita e melancólica no reino dos vivos é o que  O’Barr sentia ao perder sua namorada no fatídico acidente que lhe motivou a escrever a graphic novel como uma forma de expurgar peso da perda.

Mais do que uma história de vingança, O Corvo narra uma história de uma alma lacerada pela morte prematura, não só dele mesmo, mas da mulher que amava. Aqui, o pássaro que dá título à obra tem uma função maior do que acompanhar o vingador e ser seus olhos e ouvidos como é retratado no filme. O pássaro não só age como guia, mas também como sua consciência, frequentemente reprimindo-o por insistir na morte da noiva, considerando o seu luto como sua fraqueza, que o distrai do propósito pelo qual foi trazido de volta à Terra.

O’Barr nos entrega uma obra que funciona não só como um conto de vingança, mas como uma história emocional sobre a dor e a perda, sobre redenção e sobre seguir em frente. É uma HQ de leitura fácil que flui muito bem, fazendo com que você só perceba isso quando a termina.

De uma forma mais pessoal, sempre considerei O Corvo o filme da minha vida por questões que não vem ao caso aqui. Ver que a obra seria relançada em terra brazilis depois de dez anos fora de catálogo me deixou completamente ansioso. A intensidade da história e a grandiosidade dela são ímpares. Não consigo dizer se O Corvo graphic novel é superior ou inferior á O Corvo filme pois ambas são obras que, apesar de uma ser adaptação da outra, trilham seu próprio caminho, tanto uma quanto a outra marcaram aqueles que um dia tiveram contato e com certeza marcarão aqueles que futuramente, graças ao relançamento pela Darkside Books e uma futura nova adaptação, entrarão em contato com Eric Draven.

U can’t touch this!


Angelus Burkert
Angelus Burkert
Psicopata em formação. Pegou gosto pelo cinema de horror após ir até a sessão de VHS de terror na locadora e olhar todas as capas de filmes possíveis. Fã confesso de música e games, provável que não mude nada com o passar dos anos, exceto o amor pela carnificina.

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