HQRROR #50 – Flinch: Horror e Desespero Livro Um

Ou, como as antologias podem trazer novidades quando em mãos certas


Criado pela DC Comics em 1993 para publicar histórias em quadrinhos com conteúdo mais gráfico e adulto do que aqueles que a editora estava acostumada, o selo Vertigo completa em 2018, impressionantes 25 anos. Com o passar do tempo, o selo adulto da editora do Superman se tornou um terreno fértil para os artistas brilharem com histórias em quadrinhos disruptivas e autorais.

Hoje apenas uma sombra do que foi no início, o selo Vertigo viveu seu auge na década de 90. Quadrinhos geniais e premiados como Hellblazer, Sandman, Os Invisíveis e Preacher, mostraram que era possível trazer algo novo para a mídia. Com a liberdade dada aos criadores, e o foco em histórias adultas recheadas de sexo, violência e profanação, o horror sempre foi  um dos gêneros que mais ocupou o catálogo da Vertigo nestes 25 anos.

Em 1999, próximo à virada do milênio e com o clima de fim-do-mundo pairando sobre nossas cabeças, a genial editora Karen Berger resolveu ousar novamente e trazer para o selo uma antologia de contos de horror. Um formato que, embora desgastado e explorado à exaustão na Era de Ouro do horror em quadrinhos por editoras como Warren Publishing e EC Comics, ainda poderia render algo interessante sob a chancela da, então inovadora, Vertigo.

Karen Berger reuniu um time com os melhores artistas daquela virada de século, incluindo nomes como Jim Lee, Frank Quitely, Bruce Jones, Richard Corben, Brian Azzarello, Bill Sienkiewicz, Garth Ennis, Phill Hester, Bill Willingham, Greg Rucka, Kelley Jones e muitos outros, e colocou todo mundo para criar histórias de terror com uma abordagem diferente daqueles contos góticos envolvendo castelos, vampiros e reviravoltas surpreendentes, com que o leitor de gibis assustadores estava acostumado.

Assim nasceu Flinch, que pode ser traduzido como “perder a coragem” ou “amarelar” no bom português, uma série de antologia que trazia a cada edição, três contos de horror dos maiores nomes do mercado de quadrinhos americano. Cada uma das histórias buscava inovar no gênero, trazendo um horror mais mundano e atual, muito parecido com o que estava sendo feito nos demais títulos de linha do selo.

A total liberdade dada aos artistas permitiu que tivéssemos logo no primeiro volume, por exemplo, uma história passada em um futuro distópico onde gangues de velhinhos viciados em Viagra perseguem jovens em uma Londres mergulhada em caos. Em outro momento, um pai persegue seu filho em meio a uma parada gay e vai aos poucos sendo despido de todas as suas máscaras conforme encontra fantasmas do passado que quer esconder. Outra história explora os riscos da poluição, indo de encontro com o tema da ecologia, muito em voga nos anos 90.

Porém, enquanto alguns autores se encontram bem à vontade para explorar os limites do horror, alguns parecem bem distantes de suas zonas de conforto, de um jeito ruim, e entregam algumas histórias até bem pueris para uma publicação da Vertigo. Aquela irregularidade corriqueira que estamos acostumados a encontrar em séries de antologia. Ainda bem que temos Bruce Jones e Richard Corben, dois veteranos dos quadrinhos de horror setentistas, presentes na primeira edição, com uma das melhores HQs deste primeiro encadernado.

A série Flinch durou apenas 16 edições, publicadas entre junho de 1999 e janeiro de 2001, e a Panini reuniu neste primeiro volume todas as histórias e capas originais das oito primeiras edições em 196 páginas coloridas em papel LWC e capa cartão. A edição está caprichada, embora o índice de histórias seja bem confuso, e falte um texto introdutório para situar o leitor, contextualizando a série, que a própria Panini chama de “lendária antologia de horror da Vertigo” na contracapa.

Continuando o resgate histórico das séries antigas da Vertigo, com o cuidado que merecem, Flinch é mais uma ótima adição ao catálogo da Panini. Um gibi ousado que, mesmo quando erra, consegue surpreender pela variedade de temas abordados e pela criatividade em tirar o horror das coisas mais simples. Uma ótima forma de comemorar os 25 anos do selo com uma série que representa os principais conceitos que o tornaram garantia de qualidade em quadrinhos durante mais de duas décadas. Que venha logo o segundo volume.

Ficha técnica:

ISBN: 978-85-426-1166-3

Páginas: 196 (cores)

Formato: 17 x 26 cm

Autores: Vários

Preço de capa: R$ 28,90


Rodrigo Ramos
Rodrigo Ramos
Designer, roteirista da HQ Carniça, coautor dos livros Medo de Palhaço e Narrativas do Medo. Fã e pesquisador de quadrinhos e cinema de horror. Tem mais gibis em casa do que espaço pra guardar e tempo pra ler, mas quem nunca?

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