HQRROR #51 – Réquiem O Cavaleiro Vampiro

O vampiro nazista desencarnado de Pat Mills chega ao Brasil metendo o pé na porta


Talvez mais conhecido dos leitores brasileiros como o escritor e criador de Marshal Law e roteirista de Justiceiro 2099, Pat Mills é um dos maiores quadrinistas britânicos. Criador da revista 2000 AD nos anos 70, o autor é famoso por seu texto ácido e cheio de críticas às autoridades, sempre carregado no sexo e na violência. Características presentes em profusão em Réquiem O Cavaleiro Vampiro, seu mais recente trabalho a ser publicado no Brasil e que chega às livrarias pela Mythos.

Encantado com as particularidades do mercado de quadrinhos franco-belga, Mills sempre quis uma oportunidade de publicar algo na França. Para facilitar esta transição, o autor criou sua própria editora no país, junto dos sócios Jacques Collin e Olivier Ledroit, a Nickel Editions. Em novembro de 2000 chegava às livrarias francesas a primeira parte de Réquiem O Cavaleiro Vampiro, quadrinho de estreia da Nickel, que Mills produziu ao lado de Ledroit, com quem já havia trabalhado na HQ Sha.

Com uma estética totalmente heavy metal, Réquiem conta a história de Henrich Augsburg, um renomado soldado alemão nazista que morre no campo de batalha nos últimos dias da Segunda Guerra e renasce como um vampiro em Ressurreição, uma cópia invertida e sinistra da Terra, para onde vão todas as pessoas que cometeram algum tipo de maldade enquanto eram vivas. De acordo com seus crimes, estas pessoas podem ressurgir como vampiros, lobisomens, carniçais, centauros e todo um bestiário completo de criaturas sobrenaturais e malignas.

Neste primeiro volume, Réquiem acaba se envolvendo em uma guerra pelo poder envolvendo os Lemurianos, fantasmas de vítimas terrenas das criaturas de Ressurreição, e os vampiros de Drácula, o conde mesmo, uma vez que a única maneira dos fantasmas deixarem o inferno de Ressurreição é expirando, ou seja, matando quem lhes tirou a vida na Terra. A coisa toda parece meio confusa, uma vez que Mills preenche cada canto de Ressurreição com detalhes e mais detalhes de um universo riquíssimo que vale a pena explorar com calma. Mas  Réquiem é na verdade uma história em quadrinhos porrada, violenta, sangrenta e, como as demais obras do autor, ácida. Muito ácida!

Prepare-se para ficar desconfortável e cheio de sentimentos conflitantes ao torcer pelo personagem principal e “herói”, por falta de uma palavra melhor, do quadrinho que é um nazista dos mais filhos da puta, daqueles condecorados com a cruz de ferro pelo próprio führer. Nas mãos de um roteirista qualquer isso seria um convite para o desastre, mas nas mãos hábeis de Mills, rende momentos excelentes. Requiem acredita realmente que era um nobre soldado e que lutava por sua pátria, mas enquanto o autor vai revelando a vida pregressa do personagem na Terra, o asco é inevitável. E bota inevitável nisso. Em Réquiem, ninguém presta!

Ao situar toda a história em uma espécie de inferno/purgatório anabolizado, Mills traz para o quadrinho uma verdadeira legião de déspotas, criminosos, assassinos e pessoas da pior espécie para protagonizar um quadrinho que não poupa críticas nem a pessoas ditas “santas”, como a líder do bando de bucaneiras aéreas chamadas “Piratas Virgens”, secretamente baseada em uma controversa figura da igreja católica. Além de cutucadas na igreja, na polícia, na guerra às drogas e ao governo, ainda sobra espaço para participações de Aleister Crowley, Elizabeth Bathory, Nero, Calígula, Torquemada e o próprio Hitler.

Toda essa doideira fica ainda mais espetacular quando retratada pela arte embasbacante de Oliver Ledroit. O que este homem faz com as páginas de Réquiem O Cavaleiro Vampiro é impressionante. Sua arte possui uma estética mista de bondage, pintura gótica e capa de disco de heavy metal anos 80. E por mais estranho que isso possa parecer, é espetacular! Sua criatividade para criar cenários, monstros, violência desmedida e mulheres assustadoramente sensuais, não possuem paralelos neste plano, tornando-o o parceiro ideal para Mills nessa jornada ao inferno. É um daqueles raros casos em que é impossível dissociar o artista do roteiro.

A edição da Mythos, segue o padrão do selo Gold Edition da editora, e chega num formato gigante, papel couchê de alta gramatura, e capa dura com detalhes em dourado, trazendo os três primeiros volumes da série original, artes conceituais, capas originais e um pequeno bestiário para situar melhor o leitor no universo fantástico de Ressurreição.

Embora não seja o quadrinho mais politizado de Mills, as críticas ao establishment estão espalhadas aqui e ali sem hastear uma bandeira muito alta que possa afastar o leitor mais interessado em uma diversão escapista, ou aquele que simplesmente discorda da visão de mundo do autor.

 

Ficha técnica:

ISBN: 978-8578673024

Páginas: 168 (cores)

Formato: 31,6 x 24 cm

Autores: Pat Mills, Olivier Ledroit

Preço de capa: R$ 99,90

 


Rodrigo Ramos
Rodrigo Ramos
Designer, roteirista da HQ Carniça, coautor dos livros Medo de Palhaço e Narrativas do Medo. Fã e pesquisador de quadrinhos e cinema de horror. Tem mais gibis em casa do que espaço pra guardar e tempo pra ler, mas quem nunca?

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