HQRROR #53 – Blood: Uma História de Sangue

A vida e morte e vida e morte de um vampiro chamado Blood


A primeira coisa que o leitor desavisado deve saber é que ao adentrar ao reino de Blood: Uma História de Sangue, HQ de J.M. DeMatteis e Kent Williams, é que este não é um quadrinho comum. O texto de DeMatteis, escrito durante fluxos de consciência como um desafio para ele mesmo, e as belíssimas imagens pintadas por Williams, criaram uma das mais intrigantes e desafiadoras histórias de vampiros já publicadas em quadrinhos.

A HQ abre com um bebê encontrado em um rio de sangue por uma jovem. Criado até a vida adulta, o homem é levado a um monastério onde irá aprender os ensinamentos de Deus. Algo que logo se revela uma mentira, levando-a cometer seu primeiro assassinato e vagar por um estranho mundo em uma jornada de autoconhecimento até ser transformado em um vampiro chamado Blood.

DeMatteis subverte a convencional jornada do herói e coloca Blood cada vez mais perdido a cada nova descoberta. O mundo que se revela aos seus olhos se torna mais misterioso e cheio de perigos e perguntas. Tais perguntas também acompanham o leitor que tenta interpretar as metáforas e simbolismos que carregam as páginas de Blood. Estes enigmas aproximam o gibi mais de uma poesia, ou um filme de Jodorowsky, do que uma HQ convencional de horror.

O conceito de eterno retorno permeia toda a narrativa. Não à toa, a primeira e a última parte são chamadas “ouroboros”, aquele símbolo da serpente devorando a própria cauda, usado para representar o ciclo permanente de vida e morte. Na trama, Blood nasce, morre, renasce como vampiro e segue em seu eterno circulo de (re)descoberta. DeMatteis ilustra isso com perfeição repetindo elementos narrativos, ainda que levemente diferentes, e Williams usa sua arte para reforçar essa ideia de continuidade de maneira magistral. Perceba como seu traço e sua paleta muda aos poucos e, lá para o final, volta ao estilo mais primitivo e solto que abre o livro.

Aliás, ainda que você não se encante com a história de Blood e seus mistérios, a arte pintada de Kent Williams é um deleite. Enquanto DeMatteis escreveu sua história sem amarras narrativas, Williams seguiu os mesmos preceitos para compor suas páginas. Sua arte varia da encantadora para a assustadora, passando pelo erotismo e surrealismo com uma naturalidade impressionante.

A edição do Pipoca & Nanquim, que fez um ótimo trabalho resgatando este título esquecido publicado no Brasil há mais de vinte anos atrás, é uma das mais bonitas da editora. Além das quatro partes da minissérie original, publicada nos EUA originalmente pela Marvel Epic e depois pela Vertigo, traz um prefácio exclusivo e todas as capas originais da HQ em um acabamento gráfico que ressalta a arte de Williams.

Talvez a história de Blood fale, muito provavelmente, mais sobre DeMatteis e sobre o período em que a escreveu, do que sobre o próprio personagem. Mas apesar da leitura desafiadora, que nunca se torna tediosa embora às vezes se aproxime do pretensioso, caso você não seja adepto de textos metafóricos e complexos, Blood: Uma História de Sangue ainda pode ser lido como uma bela história de fantasia com vampiros, passada em um mundo distante, com paisagens surreais e momentos realmente assustadores.

Ficha Técnica
Título: Blood: Uma História de Sangue
Roteiros: J.M. DeMatteis
Arte: Kent Williams
Editora: Pipoca e Nanquim
Páginas: 196 páginas
Formato: 26,2 x 17,2 x 1,8 cm
ISBN-13: 978-8593695124
Preço: R$ 59,90

 

 


Rodrigo Ramos
Rodrigo Ramos
Designer, roteirista da HQ Carniça, coautor dos livros Medo de Palhaço e Narrativas do Medo. Fã e pesquisador de quadrinhos e cinema de horror. Tem mais gibis em casa do que espaço pra guardar e tempo pra ler, mas quem nunca?

1 Comentário

  1. Luiz Carlos Marcolino disse:

    Sempre sonhei com Blood virando um filme, pelas mãos do Lynch ou do Jodo. Um belo sonho.

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