HQRROR #54 – Dylan Dog – Mater Dolorosa

O aniversário era de Dylan Dog, mas quem ganhou presente foram os fãs


Embora seja um dos personagens mais populares e queridos dos fumetti, os quadrinhos italianos, Dylan Dog nunca foi exatamente um sucesso no Brasil. Não dá pra explicar exatamente as razões do Detetive do Pesadelo ter sido relegado ao status de cult – o que não é pouca coisa, mas merece mais – por aqui. Com personagens carismáticos, humanos e sensíveis, suas tramas mirabolantes, sinistras e brilhantes, muitas vezes figuram entre as melhores nas listas de muita gente. Como deste que vos fala.

Talvez o histórico de publicação no país, que começou lá em 1991 pela Record, com apenas 11 edições, depois Conrad, com 6 edições, e retomado em meados da década passada pela Mythos, que publicou mais 40 edições, até passar pela Lorentz, com três edições em 2017, até voltar para a Mythos este ano, seja um pouco confuso para o leitor ocasional.

Mas não se engane, embora algumas histórias possuam pequenas referências a situações e acontecimentos do passado, suas aventuras podem ser lidas de maneira isolada sem qualquer problema. Talvez por isso, agora novamente com os direitos do personagem, a Mythos tenha decidido apresenta-lo a um novo público com toda a pompa e circunstância que Dylan Dog merece.

Mater Dolorosa foi publicada na Itália como uma edição especial de aniversário do personagem, na ocasião em que completou 30 aninhos em 2016, e explora um pouco mais do misterioso passado de Dylan Dog. Ainda criança, morando com seus pais em um navio, Dylan está terrivelmente doente. Enquanto seu pai tenta descobrir uma cura para a doença, sua mãe trava uma batalha mais profunda contra a “mãe de todas as doenças”, uma entidade que quer levar Dylan Dog para seu reino de sofrimento para que fiquem juntos para sempre.

Mater Dolorosa é escrita por Roberto Recchioni e está mais próxima das aventuras mais surreais de Dylan Dog do que aquelas mais detetivescas. Sua narrativa avança e retrocede no tempo, apresentando a infância do herói ao mesmo tempo em que vemos o desenrolar dos acontecimentos do passado em sua vida adulta durante uma estranha epidemia de mortos-vivos.

A aventura ainda apresenta algumas metáforas interessantes sobre vida e morte, seus limites e tudo aquilo que acontece entre uma e outra. Uma vez que sabemos nosso destino na morte e dor, vale a pena lutar pela vida? Uma vez que vislumbramos os domínios tentadores da Mãe de Todas as Dores, devemos aceitar seu abraço? Não é uma narrativa excessivamente elaborada, mas definitivamente permite algumas especulações interessantes sobre seu subtexto.

Mas é na arte de Gigi Cavenago que reside o melhor de Mater Dolorosa. Com apenas 36 anos, o artista é, sem dúvidas, um dos melhores a trabalhar com Dylan Dog. A maneira como ele trabalha sua belíssima paleta de cores, alternando entre tons mais quentes para o passado acolhedor ao lado dos pais, e as cores mais frias no futuro solitário do personagem, e os traços mais violentos e soltos nos domínios da dor em contraste com os traços mais contidos e simples que reforçam o vazio da vida adulta Dylan Dog é algo primoroso. Realmente ímpar. A capa da HQ é uma das mais bonitas publicadas este ano e representa muito bem seu conteúdo.

Como uma edição especial de aniversário, Mater Dolorosa traz uma série de referências ao passado do personagem, amarrando algumas pontas soltas, ao longo de trinta anos de aventuras, e prepara o terreno para uma nova fase, apresentando novos elementos que permitem que sua mitologia continue se expandindo por mais algumas décadas. Mas embora estes pequenos detalhes espalhados ao longo da história enriqueça a leitura para os fãs de longa data, o novo leitor não ficará perdido, pois a Mythos recheou a edição de extras que esmiúçam os easter eggs escondidos no roteiro. A HQ ainda conta com biografias dos autores e um acabamento caprichadíssimo em capa dura e um formato bem maior do que o convencional das revistas do personagem.

Ainda que Mater Dolorosa possa não ser considerada a melhor porta de entrada para o universo de Dylan Dog por alguns leitores mais desconfiados, seja pelo preço de capa ou por se tratar de uma história comemorativa de trinta anos, a HQ de Recchioni e Cavenago figura entre as melhores do personagem já publicada no Brasil e um dos melhores quadrinhos de horror de 2018. Um verdadeiro presente de aniversário para o Detetive do Pesadelo e seus fãs.

Ficha Técnica
Título: Dylan Dog – Mater Dolorosa
Roteiros:Roberto Recchioni
Arte: Gigi Cavenago
Editora: Mythos
Páginas: 108 páginas
Formato: 29,2 x 21,2 x 1,4 cm
ISBN-13: 978-8578673178
Preço: R$ 69,90

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Rodrigo Ramos
Rodrigo Ramos
Designer, roteirista da HQ Carniça, coautor dos livros Medo de Palhaço e Narrativas do Medo. Fã e pesquisador de quadrinhos e cinema de horror. Tem mais gibis em casa do que espaço pra guardar e tempo pra ler, mas quem nunca?

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