HQRROR #58 – Lama

Da lama ao caos


Nada é mais assustador que a realidade. Por mais que o terror possa se valer de diversos artifícios para colocar medo no público, muita das vezes pendendo para o fantástico e a ficção, sempre o que acontece à nossa volta, e principalmente, se o resultado for de natureza humana, acaba causando maior impacto e temor, pela proximidade do acontecimento à nossa realidade.

E um dos desastres ambientais mais assustadores da história brasileira recente foi o rompimento da barragem da Samarco em Mariana. O extenso território todo tomado pelo lamaçal implacável e o sem número de vidas humanas, da fauna e da flora destruídos por conta do famoso descaso e do jeitinho brasileiro, é um verdadeiro absurdo.

Nesse contexto social, misturado com a polarização política e fanatismo religioso crescente, que preponderou durante as últimas eleições e vem se alastrando como um rastilho de pólvora de ódio nos últimos anos, é que o nosso vira-lata preferido, Rodrigo Ramos, responsável pelo roteiro, e Marcel Bartholo, desenhista, situam Lama, o novo gibi da dupla, que terá lançamento nesta edição de 2018 da CCXP.

Mas, para colocar o pézinho no fantástico, contextualizado com o desastre ecológico e a falta de esperança e busca de soluções fáceis em “forças maiores”, Ramos e Bartholo evocam o que há de melhor na literatura de H.P. Lovecraft (vale relembrar que Edgar Allan Poe foi a inspiração para o primeiro trabalho publicado da dupla, Carniça) para trazer à tona, literalmente, a lenda do Ipupiara, uma espécie de monstro marinho que fazia parte da mitologia dos povos tupis que habitavam o litoral do Brasil no século XVI e atacava as pessoas e comia partes de seus corpos.

Criatura aquática aos moldes do Gill Man e do Monstro do Pântano, os quais Ramos é fã declarado, que segundo relatos do Brasil Colônia, teria sido encontrado e morto na capitania de São Vicente, no ano de 1564, e o historiador e cronista português Pero de Magalhães Gandavo teria descrito a criatura como tendo “quinze palmos de comprido e semeado de cabelos pelo corpo, e no focinho tinha umas sedas mui grandes como bigodes. Os índios da terra lhe chamam em sua língua Hipupiara, que quer dizer demônio d’água”.

Inclusive, a narrativa entrecorta entre os recentes acontecimentos de uma cidadezinha à beira do colapso da falta de água potável, degradação e falência econômica devida ao mar de lama que soterrou a esperança de sua população, e a levou a atitudes humanas extremas (ainda não tolero e nem perdoo os autores – amizade à parte – pelo trágico destino do pobre cachorro!) e outros relatos do ataque do terrível “demônio d’água” em diversos momentos de nossa história tupiniquim.

Bartholo entrega mais uma vez seus traços bem característicos em cada quadrinho, desse vez em preto e branco usando apenas lápis e nanquim, sempre remetendo ao modernismo em uma versão atualizada e estilizada, enquanto Ramos, do jeito que adora, mete o dedo na ferida da crítica social, e ambos não aliviam o pobre leitor do esgar da violência gráfica e a maldade da fé humana.

Com prefácio de Rodrigo Aragão – especialista no folgore e no terror ambiental, e capixaba que viveu de perto os horrores do desastre da Samarco – Lama ganha em volume de páginas de seu antecessor do recém criado selo Carniça Quadrinhos e mostra que a dupla começa a desenvolver uma identidade própria no mercado dos quadrinhos de terror nacional, especialistas nas metáforas da dura realidade de terras brazilis, algo que o cinema de horror já faz tão bem.


Marcos Brolia
Marcos Brolia
Jornalista, editor e idealizador do 101HM, é fanático por filmes de terror (ah, vá!) desde que se conhece por gente, dos classudos aos mais bagaceiras. Adoraria ter um papo de boteco com H.P. Lovecraft e virar um shot toda vez que ele falasse a palavra “indizível”.

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