Mr. Mercedes: repensando as séries policiais segundo Stephen King

Não é tarde demais…


O mundo dos seriados é um sangrento campo de batalha por audiência. Diversos canais e serviços de streaming travam uma verdadeira guerra santa pela atenção de um novo público que consome em quantidades nunca antes vistas. O binge-watching, termo adaptado para o português como “maratonar”, tornou-se uma realidade sempre presente.

Em meio a este mundo selvagem, há um consenso pra lá de interessante: Stephen King permanece uma das maiores fontes de histórias fantásticas por aí.

Entre 2016 e o vindouro ano de 2018, o número de adaptações do trabalho do Rei, entre filmes e séries, disparou vertiginosamente, ultrapassando dez produções. No reino televisivo, o canal norte-americano Audience TV contribuiu para o cenário de maneira louvável, adaptando o livro Mr. Mercedes.

Para quem não está familiarizado com o título, – assim como eu mesmo – trata-se da primeira parte de uma série literária policial-investigativa, ou  hardboiled, como seria descrita pelo próprio autor, estrelando o ex-detetive Bill Hodges. Apesar de não exercer a profissão que lhe rendeu renome, Hodges segue no ramo o suficiente para que sua história se prolongue em três livros distintos, Mr. Mercedes, Achados e Perdidos e Último Turno, constituindo assim a chamada Trilogia Bill Hodges.

Desenvolvido pelo veterano das telinhas David E. Kelley (Big Little Lies; também roteirista de Pânico no Lago), a trama do seriado aparenta ser fiel à obra original. Ainda não tive o prazer de ler os livros da série (todos disponibilizados no Brasil pela editora Suma das Letras), de forma que não farei paralelos entre as duas versões.

Em uma madrugada até então pacata, um grupo de desempregados aguarda em fila para o início de uma feira de trabalho, em plena recente crise econômica americana do final da década passada. Saído de lugar nenhum, um homem com máscara de palhaço surge pilotando uma Mercedes. Após provocar o grupo momentaneamente, o sujeito acelera e passa com o carro por cima daqueles infelizes, matando um bom número deles, inclusive uma mãe e seu filho bebê, e ferindo outros tantos.

O criminoso, que não dispõe de motivação aparente, permanece oculto por muitos anos, o que provoca um grave desconforto em Bill Hodges, policial aposentado interpretado por um brilhante Brendan Gleeson, responsável pelo caso na época. O assunto volta a tona quando, no aniversário de seu ato mais vil, o assassino começa a infernizar a vida do rival, que falhou em capturá-lo, anos atrás.

Uma relação maternal que vai fazer inveja em muito Norman Bates por aí

Apesar do início acelerado, com o perdão do trocadilho, a série não trata de um serial killer propriamente dito, mas sim de um assassino em massa. Fora o brinde de sangue e desmembramentos produzidos pela Mercedes roubada, logo no primeiro episódio, Brady Hartsfield raramente volta a sujar as mãos, salvo alguns poucos casos, de forma que, ao longo dos episódios, um embate puramente psicológico é travado entre os dois homens, que dividem uma posição de destaque quase que 50/50 em relação a construção da narrativa e tempo de tela.

Já no primeiro episódio, os dois lados da moeda são expostos, com a apresentação de um Bill Hodges velhaco, gordo e alcoólatra, atormentado por um caso inacabado, e seu antagonista máximo, Brady Hartsfield, também conhecido como “O Assassino da Mercedes”, papel que cai como uma luva em Harry Treadaway (O doutor Frankenstein de Penny Dreadful).

No lugar de uma abordagem mais tradicional, que colocaria o criminoso como uma figura desconhecida, cuja identidade precisa ser revelada, a série traz Hartsfield para o holofote, criando um insight na sua vida cotidiana extremamente perturbada. Em paralelo, desenvolve a investigação de Hodges, desacreditado por tudo e todos, mas com a certeza inquestionável de estar sendo provocado pelo verdadeiro “Assassino da Mercedes”.

Uma realidade na televisão é a mediocridade retumbante de boa parte dos atores disponíveis., muitos deles estigmatizados como personagens secundários ao longo dos anos. Não é incomum encontrarmos seriados de grande potencial, entregues nas mãos de atores e atrizes incapazes de conferir a devida dramaticidade aos papéis. É o caso, por exemplo, de O Nevoeiro, seriado atualmente no catálogo Netflix, e também inspirado na obra do ganhador do troféu Golden.

É nesse ponto, onde boa parte das séries fracassa, que Mr. Mercedes se sobressai. Todo o elenco de suporte realiza um trabalho digno, mas a dupla principal Gleeson e Treadaway distingue-se pelas performances viscerais e excepcionais, muito acima da média.

Enquanto o primeiro traz consigo uma bagagem de atuação já bem longa, com uma carreira notável construída no cinema britânico, o último tem se revelado promissor nos últimos quatro anos, com uma predileção por personagens estranhos. A atuação de Gleeson é pesarosa e profunda, transmitindo em cada fala e ação a inquietação do personagem. O assassino doentio de Treadaway é igualmente marcante, dotado de um carisma oriundo de sua extravagância totalmente creepy, que garante um bocado de momentos bizarros.

A relação dos dois atores/personagens, que estão sempre conectados, mas praticamente nunca dividem o mesmo plano ou cena, é o alicerce central em que todo o seriado é construído. Ao longo de dez episódios, a tensão psicológica desse jogo de gato e rato se desenrola de forma imprevisível e profundamente incômoda, tanto pela posição de inépcia e desespero do policial, quanto pela vida degradante e doentia vivida pelo assassino.

Bill Hodges em: “As Mazelas do Trabalhador Aposentado”

Ao longo de várias décadas, investigação criminal se estabeleceu como o gênero mais queridinho da América, em se tratando de televisão. Mr. Mercedes realiza uma quebra total do paradigma desses programas, graças a essa abordagem que coloca criminoso e policial em pé de igualdade, em termos de relevância dentro da narrativa, ao invés de adotar os típicos agentes da lei estereotipados, em aparência e personalidade, e criminosos misteriosos.

Não obstante, ainda reserva algumas composições de cena de cunho absolutamente horripilantes, sem nenhum apreço pelo comodismo/conservadorismo estético que atinge a maior parte da televisão. As cenas envolvendo a mãe de Brady Hartsfield, já nos últimos episódios, figuram entre as mais repulsivas do ano.

Ainda sobre Brady, vale apontar a motivação por trás de seus atos seriamente vis. Além de viver uma vida indigna, do tipo que costuma produzir assassinos em série na vida real, envolvendo abuso sexual e uma família disfuncional, o “Assassino da Mercedes” é dotado de uma noção de moral odiosa e subversiva, que se cruza com seu intelecto brilhante de auto-didata, resultando em uma combinação pra lá de volátil. O ato de atropelar um grupo de desempregados, no momento em que aguardam por uma oportunidade de trabalho, utilizando para isso um carro de luxo roubado de uma pessoa moderadamente rica, é de uma crueldade imensa, intensificada pela declaração político-social embutida.

Em contrapartida, a abertura recorrente do seriado ao som de It’s Not Too Late, de T Bone Burnett, mostra, episódio após episódio, a maneira com que Hodges representa uma instituição falida, alquebrada, ultrapassada e desesperançosa. Fora de forma, alimentando sua tartaruga com repolhos e a si mesmo com uísque, é difícil acreditar que a luta de Hodges tenha algum sentido – assim como tudo o que ele representa.

Em seu discurso puramente subversivo, contra a ordem e o moralismo sociais, O Assassino da Mercedes parece surgir como uma consequência distorcida e perversa da era Trump, que aos poucos vai se manifestando em diferentes mídias.

Mr. Mercedes é uma daquelas adaptações que surgem em um momento pra lá de propício, e o faz apresentando muita qualidade. O ritmo lento com que a trama progride, especialmente na primeira metade da temporada, pode facilmente afastar alguns, mas a obra completa merece ser conferida. Independente de sua recepção positiva entre crítica e público, que já lhe garantiu uma renovação para mais uma temporada, o seriado parece bem pouco conhecido, o que talvez possa ser explicado pelo canal que o produz, Audience, que não figura entre os mais populares dos Estados Unidos. 

Observando a temporada cancelada de O Nevoeiro


Daniel Rodriguez
Daniel Rodriguez
Fã de horror em suas diferentes formas, principalmente cinematográfica. Incapaz de adentrar igrejas, pelo risco de combustão espontânea, dedica sua vida pagã a ensinar inglês, escrever sobre o gênero e, mais recentemente, fazer seus próprios filmes.

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