Mr. Mercedes: o livro três que virou a temporada dois

A chamada “retomada de interesse” da produção audiovisual nos textos de Stephen King – tal qual acontecera lá nos anos 80 – continua a todo vapor. A grande diferença, em comparativo com a década que nunca acaba, é que nos tempos atuais, estamos sendo agraciados por inúmeros exemplos de alta qualidade, os quais, a segunda temporada de Mr. Mercedes se encaixa com louvor, mantendo o alto padrão da temporada anterior.

Com o veterano David E. Kelley no comando da série, capitaneada por Jack Bender, o televisivo no ano passado, inspirado no primeiro livro homônimo da hardboiled trilogia Bill Hodges de King, trouxe um novo olhar para as séries policiais, subvertendo a mecânica de detetive-procura-assassino dos procedurais e dividindo a tela igualmente entre os excelentes papéis do mocinho, Hodges, vivido por Brendan Gleeson, e do bandido, Brady Hartsfield, interpretado pelo cada vez mais excelente, Harry Treadaway.

Aqui, nessa nova temporada, temos que louvar a acertada decisão em pular o segundo livro da trilogia, Achados e Perdidos, e partir exatamente para o terceiro, O Último Turno, uma vez que para a narrativa da televisão, não seria nada esperto deixar o vilão em coma – ainda mais depois do show particular de Treadaway como o psicopata – uma vez que Holly, a nova parceira de Hodges na empresa de investigação particular, Achados e Perdidos, arrebentou a cabeça dele enquanto o facínora tentava explodir uma exposição de artes.

O livro do meio se passa durante o hiato em que Hartsfield é um vegetal, enquanto Hodges e Holly investigam um caso paralelo. Obviamente o espectador médio de TV, ainda mais do inexpressivo Audience Channel, sem contato com o material do ganhador do Troféu Golden, estranharia pencas e ficaria se indagando onde está o “Assassino da Mercedes” após o fim da primeira temporada, podendo até abandonar o barco. Sabe como é esse público volátil das séries, ainda mais com centenas de opções ao seu alcance e uma disputa frenética por audiência.

Aproveitando o peso que Gleeson e Treadaway deram aos respectivos papéis e o impacto de sua dinâmica de jogo de gato e rato, a segunda temporada parte exatamente da recuperação de Hodges após o ataque cardíaco que quase o matara, e como aos poucos, começa a colocar sua vida nos eixos, melhorando (um pouco só, vai) seu humor ácido de velho irlandês rabugento e o estado comatoso de Hartsfield, enquanto por baixo dos panos, o Dr. Felix Babineau (Jack Huston e seu visual de clone do Johnny Depp) e sua manipuladora e inescrupulosa esposa, Cora (Tessa Ferrer), passam a usar o assassino como cobaia secreta de testes de uma nova droga cerebral desenvolvida por uma nefasta companhia farmacêutica chinesa, não regulamentada pelo FDA, que poderia ajudá-lo a se recuperar sair do coma.

Enquanto você dormia…

O grande problema é que essa droga, além de despertar Hartsfield, lhe confere uma capacidade cerebral única, em que é capaz de “possuir” e controlar mentalmente as pessoas por meio de uma interferência elétrica externa – que pode ser o TDA de uma enfermeira epiléptica olhando para os monitores de EEG ou um auxiliar de serviços gerais do hospital com atraso mental jogando um jogo de peixinhos em seu tablet – colocando aqui aquele toque tech-sobrenatural bem à lá Stephen King, subindo o degrau do fantástico em relação a detetivesca primeira temporada. Há quem vai curtir, há quem vai achar paia.

Veremos Hartsfield confinado em uma parte de seu cérebro representado pelo seu antigo porão, enquanto está inerte na maca, revivendo momentos com seu irmão, mãe e chefe mortos, remoendo o ódio por Hodges, sendo explorado pela equipe médica como um rato de laboratório, e tentando sair daquela situação em busca de vingança, sempre se valendo de toda sua vilania e brilhantismo em suas ações – agora com esse update de controle mental – mesmo que limitado a uma cama de hospital. Novamente, Treadaway está irreparável e se mostra um dos melhores atores de sua geração.

Em paralelo, nosso detetive boa praça continua se estressando e praguejando com casos de busca e apreensão da Achados e Perdidos, enquanto Jerome passa por graves problemas financeiros familiares por conta de sua ida a Harvard (onde ainda tem de se deparar com o racismo sistêmico velado dos outros estudantes) e com a pulga atrás da orelha após novas mortes envolvendo indiretamente o comatoso serial killer. Ele sabe que alguma coisa está errada e mais uma vez, ninguém lhe dá ouvidos. Ainda assim, terá que arcar com uma série de decisões de seus atos que em certo momento, lhe recaem sobre os ombros.

Todos os personagens então se concatenam, envolvidos numa espiral de acontecimentos que vão mantendo o espectador ligadíssimo, que irá desembocar não só na narrativa do jogo de gato e rato inicia, mas também em discussões sobre a ética médica, os interesses canibais das poderosas indústrias farmacêuticas, o uso de pesquisas de ponta em seres humanos como cobaias (principalmente prisioneiros, assassinos e pessoas em coma) e até questões litigiosas sobre brechas na justiça americana e divisão da opinião pública.

Com um suposto fechamento de arco no season finale, mas já renovada para uma terceira temporada, Mr. Mercedes deixa em aberto o que pode acontecer no próximo ano, provavelmente explorando a atuação de Hodges e Holly na Achados e Perdidos, uma vez que aparentemente, a trama com Hartsfield teve seu desfecho, já que Daniel York, senior presidente executivo da AT&T Originals, em entrevista ao Deadline, cravou que a série “honrou o trabalho original de King e ele não perde por esperar o que será feito com o show no pós-universo de Mr. Mercedes”.

Parece que a série irá se emancipar neste novo momento e caminhar com suas próprias pernas, ou até mesmo recuperar e adaptar o conteúdo do segundo livro do escritor do Maine. Ou, pode ser que a conclusão envolvendo Hartsfield e sua vítima sobrevivente e ex-colega de trabalho, Lou Linklater, que certamente deixou todo mundo boquiaberto, e aquele sinistro sorrisinho na cena seguinte, deixem uma pista de que podemos ter uma reviravolta vindo aí e que talvez não vamos nos livrar por completo daquele que dá nome à série.

O Fantástico Mundo de Brady


Marcos Brolia
Marcos Brolia
Jornalista, editor e idealizador do 101HM, é fanático por filmes de terror (ah, vá!) desde que se conhece por gente, dos classudos aos mais bagaceiras. Adoraria ter um papo de boteco com H.P. Lovecraft e virar um shot toda vez que ele falasse a palavra “indizível”.

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