Muito de Meninas Malvadas, nada de Pânico

Scream Queens, nova série dos criadores de Glee e American Horror Story, é um exagero caricato no nível hard e afugenta os curiosos fãs de horror logo no episódio duplo de estreia.


Os primeiros cinco minutos que assisti de Scream Queen, nova série da FOX de Ryan Murphy, Brad Falchuk e Ian Brennan, me deram vontade de sofrer uma lobotomia, só para esquecer aquilo que tinha acabado de ver. Ou que de fato, mais do que nunca, existisse uma máquina como da Lacuna Inc., de Brilho Eterno de uma Mente sem Lembrança.

Apertei o pause, respirei por alguns segundos, coloquei os nervos no lugar e voltei a assistir, não por um insano sadomasoquismo, mas por ossos do ofício mesmo, para poder escrever essa resenha para meus dois ou três leitores aqui do 101. Na cena seguinte a coisa toda melhorou um pouco pela presença magnânima de Jamie Lee Curtis nas telinhas, a über Scream Queen que viveu Laurie Strode em Halloween – A Noite do Terror,  escolha perfeita para o papel, por razões óbvias.

Okay, vamos partir do pressuposto que por mais que eu adore paródias e sátiras, afinal sou uma cria do cinema besteirol dos anos 80 da turma Jim Abrahams, David e Jerry Zuker (de Top Secret, Apertem os Cintos.. O Piloto Sumiu, Corra que a Polícia Vem Aí e Top Gang) eu definitivamente não sou o público alvo de Scream Queens. Então tentei fazer um exercício de assisti-lo com outros olhos, uma pegada mais crítica mesma.

Para definir Scream Queens de uma forma de fácil entendimento, a série se propõe a fazer com os slasher movies o que Glee, criado pelo mesmo trio, fez pelos musicais. Isso é bom ou ruim? Não sei, eu detestava Glee, e como a “primeira impressão é a que fica”, detestei Scream Queens, mas eu acredito que ele possa ter algum tipo de valor futuro, até para o próprio cinema de terror, se pensado em algum serviço de utilidade pública que possa prestar para uma nova leva de adolescentes. Mais ou menos o que aconteceu com Crepúsculo e fez algumas meninas que assistiram aos filmes baseados no livro da Stephenie Meyer hoje em dia assistirem Amantes Eternos, Deixa Ela Entrar e A Menina Sombria que Anda à Noite. Sim, elas existem!

Garotas malvadas...

Garotas malvadas…

Para mim, que mais uma vez, não sou público alvo, tudo é exageradamente caricato. Claro, essa é a intenção, você irá me dizer, mas a barra é forçada demais, sabe? Nas entrelinhas, está lá para quem quiser captar, que Scream Queen é uma sátira ácida, mordaz, tanto do comportamento dos jovens universitários americanos e as suas famosas fraternidades, quanto da cultura pop, do próprio cinema de terror adolescente dos anos 80, meados de 90 e começo dos anos 2000, e das próprias comédias besteirol com essa temática, sendo tipo uma metalinguística paródia da paródia.

Além disso, há ali aquela boa dose de crítica social implícita, assim como já havia em Glee, falando completamente de forma sem noção sobre racismo, sexismo, futilidade, alienação, consumismo, homofobia, “gordofobia”, preconceitos contra deficientes físicos (tem uma garota surda que é aloprada em NÍVEL HARD, outra que usa um aparelho para coluna cervical) e por aí vai. Só que é tudo MUITO OVER. MUITO CAMP. Não é aquele humor mais refinado, e sim uma metralhadora de piadas de mau gosto e de exageros aos borbotões em praticamente todas as situações (até as que deveriam ser um pouco mais sérias).

Bom, a trama não exigiria muita coisa diferente: Em 1995, durante uma festa na fraternidade Kappa Kappa Tau da Wallace University, uma garota dá a luz a um bebê dentro de uma banheira (segundo ela, nem sabia que estava grávida até então!!!) e precisa de cuidados médicos, mas como aquela situação estragaria o rolê e “Waterfalls” da TLC começa a tocar na festa, as garotas deixam ela sangrando no banheiro e ao voltarem para tentar resolver o problema, ela está morta.

Elipse temporal e 20 anos depois, Chanel Oberlin (Emma Roberts) é a presidente da fraternidade, encarnando todo os tipos de estereótipos possíveis e imagináveis, e governa a KKT com mão de ferro, seguida por suas devotas e igualmente fúteis acólitas, vociferando ordens, humilhando e desprezando funcionários, latinos, negros, homossexuais, deficientes e tudo que a cartilha do politicamente incorreto manda.

Bad to the bone

Bad to the bone

Após um confronto com a reitora da universidade, Cathy Munsch, papel de Curtis, que está simplesmente ótima, que despreza o desserviço que fraternidades como aquela promove a milhares de jovens americanas, é decidido que a KKT precisa começar a aceitar qualquer uma que queira se candidatar para uma vaga, e não apenas seguir aquela regra velada do elitismo branco heteronormativo. As candidatas, que vamos combinar, no mundo real NUNCA iriam querer entrar numa fraternidade daquelas, darão pano para manga para todo tipo de deboche e piada de gosto duvidoso. Mas eu confesso que ria histericamente com a personagem surda de Whitney Meyes, fã de Taylor Swift, principalmente na hilária cena do cortador de grama.

Grace Gardner (Skyler Samuels) tem o sonho de entrar para a KKT, uma vez que a única recordação que tem de sua mãe, que morreu quando tinha 02 anos, é um broche da fraternidade e será uma daquelas que tentará se candidatar, e logo veremos que ela é a mocinha da série, se infiltrando na casa para descobrir todos os podres de lá, destronar Chanel e criar uma fraternidade que abrace e acolha a todos. Para tal, irá contar com a ajuda do repórter do campus, atendente do café da universidade e par romântico, Pete (Diego Boneta).

Nesse ínterim, uma série de misteriosos assassinatos passa a acontecer nos arredores, perpetuados por um sujeito usando uma fantasia de diabo vermelho, que parece aquelas estátuas do encardido que se vende em casas de umbanda. Além do clima de patifaria, a série certamente, pelo menos durante esses quinze episódios iniciais, seguirá uma linha ao melhor estilo whodunit? em tentar elucidar quem é o assassino endiabrado, e claro, revelar quem é aquele bebê que ficou órfão na festa em 1995.

Ser ou não ser? Eis o cramunhão!

Ser ou não ser? Eis o cramunhão!

De terror, terror meeeeesmo, não há, esqueça! Nem nada que chegue próximo a pegada dos slasher 2.0 pós-Kevin Williamson. Há uma certa quantidade de gore, isso não posso negar, com cenas de maquiagem excelente, como a morte da antiga presidente da KKT, quando ácido sulfúrico é colocado no lugar de seu spray bronzeador, ou quando a empregada da casa tem seu rosto enfiado no óleo fervendo.

Algumas das piadas, perdidas no meio de tantas bobagens e situações nonsense, são genuinamente boas e muito engraçadas, como quando o puxa-saco de Chad Powell (Glen Powell), garoto mais popular da universidade, membro do clube de golfe e namorado de Chanel, diz que se um diretor dirigisse um filme de sua vida, seria Michael Bay, o maior de todos os tempos!

Mesmo com a participação de nomes peso-pesado do universo teen, como Nick Jonas e Ariana Grande, Scream Queens teve sua estreia na última terça-feira, 22 de setembro, com audiência muito abaixo da expectativa. Cerca de 4 milhões de pessoas, um começo bem mediano para uma das séries mais aguardadas, faladas e promovidas da temporada, e pelo fato de serem dos atuais pratas da casa da emissora da RAPOSA, responsáveis pelos sucessos Glee e American Horror Story.

Em suma, o maior problema de Scream Queens é a afetação irritante em todos os sentidos. É o exagero desproporcional, que desperdiça piadas e momentos inteligentes, até para colocar o dedo na ferida do comportamento social alienado da geração millennial americana média, como uma cena emblemática nesse sentido quando assassino e uma das vítimas trocam mensagens de texto pelo celular, frente a frente um do outro, e a moçoila prefere pedir socorro pelo Twitter ao ser esfaqueada, do que ligar para a polícia, ou quando Chanel diz que HPV é algo que se pega bebendo água no México.

Muito se vendeu por aí que Scream Queens é uma mistura de Pânico com Garotas Malvadas. Pois ele tem MUITO de Garotas Malvadas, e nada de Pânico. O episódio duplo de estreia certeza que afugentou de vez os fãs do horror que tinham até alguma curiosidade sobre a série, até pela presença de Jamie Lee Curtis. Quanto aos adolescentes, fãs do trio Brennan, Falchuk e Murphy, dessa afetação toda e apreciadores de sátiras, só o tempo irá dizer.

A scream queen!

A scream queen!


Marcos Brolia
Marcos Brolia
Jornalista, editor e idealizador do 101HM, é fanático por filmes de terror (ah, vá!) desde que se conhece por gente, dos classudos aos mais bagaceiras. Adoraria ter um papo de boteco com H.P. Lovecraft e virar um shot toda vez que ele falasse a palavra “indizível”.

0 Comentários

  1. joaoprs disse:

    Ryan se tornou refém de sua própria fórmula. Sempre que encaro situações assim, em que a escrita/direção autoral se torna menos uma assinatura e mais uma fórmula, penso no Tim Burton (o que poderia ter sido?) e em todas as árvores retorcidas, trilha sonora do Danny Elfmann, Johnny Depp…refém de sua própria fórmula.

    Uma pena.

  2. marcielacerejinha disse:

    Esperava bem mais dessa série, depois de assistir alguns teasers imaginava algo bem interessante, mas acabou se provando, pelo menos até o momento um seriado bem maçante.

  3. studiomarvin disse:

    Acho que essa série revela o problema da maioria dos filmes e séries de hoje, que se preocupam demais em socar elementos que agradem ao público em detrimento de um desenvolvimento coeso desses elementos. Foi o que eu senti um pouco em Jurassic World, onde se preocuparam com dinossauros legais, e se esqueceram de desenvolver direito os personagens humanos.

  4. Desculpe o linguajar, mas achei bem bosta essa série. Gosto muito de AHS, porém essa série pecou feio pelo roteiro, porque apesar das situações engraçadas e nonsenses o timing desses momentos são péssimos e aviltantes, e por isso tem aquela sensação de perda de foco pelo desperdício dessas cenas. Com certeza, a Jamie vai se destacar, mas pelo visto, bye-bye Emmy e Golden Globe pra nossa Laurie Strode. Não tenho dúvida de que Scream Queen será cancelada, caso contrário, não irão renová-la.

  5. fernand calegari disse:

    Nem sei como aguentei ir até o final de Screaming Glees.
    Porque foi sofrido, foi triste aos olhos e foi maçante a ponto de até o sono me abandonar.

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