O bom, o mau e o feio: a trajetória de Ash Williams

Como o anti-herói mais famoso do horror foi de um bom moço ao mais incorreto ser humano que amamos


*AVISO* Este texto tem por meta filosofar sobre a trajetória de Ashley J. Williams do começo ao final. Recomenda-se ter assistido a trilogia de A Morte do Demônio e visto Ash vs Evil Dead  para que possa entender melhor a reflexão. Esteja avisado de que a narração abaixo está cheia de spoilers. Siga por conta e risco.

Carregar o fardo de ser responsável pelas vidas alheias é algo com o qual nenhum super-heroi sabe lidar. Vejamos os exemplos do Superman, Batman ou Homem-Aranha, que sempre leva consigo o sábio ensinamento de seu tio Ben: “Com grandes poderes vem grandes responsabilidades.” Saber que a humanidade depende de você nem sempre pode te fazer uma pessoa melhor. Acho que esta é a melhor definição para o herói às avessas Ashley Joanna Williams, ou Ashy Retalhador para os íntimos de sua cidade natal.

O já cinquentão personagem eternizado por Bruce Campbell hoje em dia é um cara sem nenhum escrúpulo: fuma maconha vencida, toma cerveja a qualquer hora do dia, só come salgadinhos ou comidas prontas, é machista, racista, xenófobo, faz piadinhas do Tio do Pavê, e por aí vai…

Mas saiba que nos primórdios, Ash era um doce de pessoa.

Em A Morte do Demônio, o nosso incrível cupincha era alguém com o qual poderíamos nos espelhar. Exemplo de amigo e namorado, Ash era uma pessoa com princípios. Seu senso de fraternidade, carinho e cumplicidade era algo que não vimos em nenhuma outra pessoa dentro daquela maldita cabana. Ele queria que tudo desse certo e que todos saíssem de lá bem, com vida…

Ele foi posto à tantas torturas físicas e emocionais que qualquer um em seu lugar sucumbiria à um possível colapso nervoso, tal qual sua irmã Cheryl e seus amigos Scott, Shelly e Linda, sua namorada, que teve um triste final, ainda mais drástico por ter sido morta por seu amado e da forma mais violenta possível. Mesmo assim, Ash se manteve forte e o mais racional possível para que o Mal kandariano não tomasse conta de seu ser, ainda que tenha sido o único sobrevivente. Mesmo com todos os seus esforços, ele não conseguiu.

Morto ao amanhecer

Há várias teorias do porquê Sam Raimi deu um novo começo à vida dos deadites, ou uma continuação, mesmo que improvável do primeiro filme. Parto do pressuposto de que, ao final do primeiro longa, quando o mal encontra Ash saindo da cabana, o mesmo entra num limbo ou portal o qual é condenado a reviver os acontecimentos anteriores, mas de uma forma um pouco diferente. Uma pequena brincadeira dos Senhores das Trevas, não?

Assim, Ash poderia tentar salvar a sua Linda e viver feliz para sempre. Mas como a vida é cruel e ainda mais com o nosso herói, o final de sua companheira é ainda pior, e as consequências inimagináveis. Partindo de minha ideia de que Ash tenha entrado numa brincadeira demoníaca para reviver traumatizantes passagens outrora superados, passar por tudo novamente faz com que qualquer um fique no mínimo louco, não é? Acho que este seria o ponto de ignição para que sua sanidade seja jogada água abaixo…

Dizem que não há prisões dentro da mente humana e quem a mantém sã, independente de tudo, consegue conquistar objetivos para outros inalcançáveis. Se por algum motivo há um colapso em seu sistema nervoso que quebre esta barreira e possibilite que interferências externas façam de sua mente uma bagunça, o convite à loucura está feito. Os deadites em determinado momento conseguiram passar pela mente de Ash.

Em Uma Noite Alucinante a loucura é comum entre os devaneios de Ash e seus momentos de lucidez. Faz com que até o lado mau aflore e tome conta de seu corpo ao cair da noite. Ou a sua verdadeira face, de acordo com o entendimento de cada um. Sarcasmos, brincadeiras fora de hora e frases de efeito começam a mudar e a formar um novo Ash Williams, totalmente diferente do que havíamos presenciado em filme anterior.

O famoso “groovy” é proferido aqui após querer se tornar um justiceiro armado até os dentes para acabar de vez com o mal. Quando no primeiro filme tentava de todas as maneiras sobreviver e ajudar seus amigos, aqui sente a necessidade de fazer justiça com as próprias mãos a fim de se tornar o paladino do bem. Claro que ele é um pamonhão de primeira e tudo o que tenta fazer, proteger ou lutar dá errado mesmo quando dá certo, mas a sua persistência e perseverança em fazer algo é maior do que seu discernimento entre o bom ou ruim.

Suas caras e bocas fazem daquele cenário uma comédia de erros que nos proporciona risos às custas de suas constantes falhas. Mas isso nem é o principal comparado à aversão de valores que o Ash começa a ter, à começar pela morte fácil e rápida de sua Linda – novamente – e a aceitação de sua condição ao que talvez sempre tenha sido: um pacato rapaz pronto para explodir a qualquer momento. Ele só precisava de um empurrão.

Lembra do que disse que acredito numa conexão entre A Morte do Demônio e Uma Noite Alucinante? Pois bem: ao final do primeiro filme, fica a dúvida se o intrépido Senhor Williams conseguiu se safar do mal que lutou contra a noite toda ou se foi acometido pelo mesmo. Os Senhores das Trevas brincaram com ele revivendo toda a história anterior, trazendo-o novamente à derradeira cabana e mesmo em seu subconsciente, sendo forçado a lutar contra todo aquele mal que o deixou atordoado. Este mal ataca prioritariamente a mente.

Pela segunda noite o Ash consegue passar, mas com certeza não pela terceira. Seria pedir demais que o improvável herói conseguisse se safar de tamanhos perigos de forma ilesa. E eis que a Idade das Trevas chega não somente em cena, mas também em sentimento do mais puro descontentamento e impaciência possível.

Uma Noite Alucinante 3 começa de onde o segundo filme termina, mas como em todos os exemplares do sitcom da vida de Ash, aqui não poderia ser diferente e um novo rumo é traçado, não apenas no que se diz respeito à seu destino e sua sina, mas também à sua personalidade.

Claramente, no mais puro sentido da expressão, Ashley J. Williams está de saco cheio de tudo e todos tornando-se o cara mais carrancudo, chato, ranzinza, intolerante e sarcástico da Idade Média. Ele acabara de se tornar o badass do mundo dos vivos e dos mortos, e aqui os famosos bordões que identificam qualquer herói a um ícone o colocam no panteão selecionado do horror. Frases como “Give me some sugar, baby”, “Hail to the king” e outras mais são nitidamente demonstrações de que o seu bem-estar e ego vem antes de qualquer coisa. Também ficamos familiarizados com a famosa boomstick e a busca pelo seu objetivo, sem importar-se com mais nada.

Dando de ombros aos conselhos de outras pessoas, fazendo o que bem entender, tratando os semelhantes como uns qualqueres e menosprezando aquela que deseja seu bem, Ash começa a trilhar um caminho sem volta. Assim como a cavalgada rumo ao seu tempo, sem olhar pra trás, seu psicológico já não é mais abalado por nada e provavelmente seu coração tenha se tornado mais duro do que pedra.

Muitos pensam que sua ajuda para com aqueles camponeses e pobres coitados sem conhecimento desprovidos de inteligência, incluindo aí uma figura ignóbil do próprio Rei Arthur, tenha sido uma obra de bondade e caridade, mas creio que tenha sido por outro motivo totalmente avesso. Por objetivos totalmente pessoais, ele apenas queria voltar para o seu tempo e sua casa. O herói improvável anda rumo à maldição que carregaria por mais de 20 anos e suas responsabilidades nunca seriam tão grandes e pesadas que ficariam na obscuridade até o fim dos tempos.

Levando em consideração de quem estamos falando, é claro que o segredo não permaneceria no anonimato e eis que o Mal chega ao século XXI.

O escárnio total e derradeiro

O retrato de Ash não poderia ser mais degradante: sem nenhuma percepção de futuro, ainda trabalha na S-Mart e vive num trailer com seu lagarto Eli ficando bêbado praticamente o tempo todo, fumando maconha, tendo relações com mulheres aleatórias e fazendo piadas infames e xenofóbicas com seu amigo latino Pablo. O medíocre american way of life dfoi atingido com sucesso.

Pior do que ser um cara turrão e olhar para o seu próprio umbigo, é ser inescrupuloso sem nenhuma noção do ridículo ou senso moral. Não há mais nenhum limite para o Ash e seus meios para viver de modo não convencional. Os valores familiares, tradições, morais e afins não são respeitados nem em sua parcialidade. Para os mais puritanos, ver no que Ash se transformou é algo com o qual nunca imaginaríamos.

Não poderia dizer mais além de que o escárnio total foi libertado e, literalmente, tudo é possível e passível de aceitação por Ashley J. Williams. Os raros momentos de bondade são trocados por álcool, drogas e sexo. Ash vs The Evil Dead é a infâmia,. Nenhum traço ou característica nos remete ao jovem da cabana em 1981 e suas boas maneiras. Absolutamente nada.

Também posso dizer que, por mais inescrupuloso que o Ash tenha sido em determinado momento de sua heróica trajetória, havia ao menos um motivo pelo qual valia a pena lutar. Seja pela namorada, pelos amigos, pela própria vida, pela honra a zelar, pelo ego. Quando se aposentou da vida de caçador de monstros e demônios, pelo que valeria a pena lutar?

Não demonstrar nenhum tipo de sentimento para com quem poderia ter um mínimo de atenção é algo que o nosso herói faz com maestria. Seja com amigos, conhecidos, mulheres que possa lhe interessar, pai e até filha. Nada faz mudar seu jeito de ser.

Aliás, quando conhece Brandy, sua filha, a fanfarronice dá lugar a uma preocupação nunca antes vista. Talvez, aos 45 do segundo tempo da vida,pela representação de que trazer um filho ao mundo pode ser o que de melhor tenha sido gerado de você. Ele precisava ter esse sentimento afetivo e zeloso para que descobrisse, no fim, uma forma de conhecer o seu destino e aceita-lo como deveria ser desde o início. Encontra, finalmente, o valor de um homem e concretiza a profecia de herói.

Ash é rude, imoral, nojento, racista, sexista e com um senso de humor um tanto duvidoso, mas que provou a cada dia que, mesmo alguém simples consegue grandes feitos. A sua luta não terminou ao encontrar o seu final. Ao contrário, começou motivando milhares a seguirem o seu caminho errático da forma mais correta possível.

Hey Ash, você fará falta em nossas vidas. All hail to the king!


Guilherme Lopes
Guilherme Lopes
Mineiro de nascimento e paulista de criação, vê nos filmes de terror e afins a diversão e bode expiatório para não cometer atrocidades na vida real. Não se engane com sua carinha de anjinho: ele não rebobinava as fitas antes de devolver à locadora.

1 Comentário

  1. MATHEUS LEITE CARVALHO disse:

    Ash vai fazer falta no mundo do Horror. Desejo boa sorte para Bruce Campbell em sua nova empreitada.

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