O camp de Manual para se Defender de Aliens, Ninjas e Zumbis

Primeira série nacional da Warner mira em uma cacetada de referências da cultura pop estrangeira e linguagem geek e gamer para um público adolescente, mas acerta na vergonha alheia


camp

[kamp]

  1. Adjetivo que significa algo de mau gosto, muito artificial, exagerado, ou, no português claro, “cafona” ou “brega”.

Essa breve definição semi-aureliana sobre umas das mais famosas estéticas da arte e cultura popular desses dois últimos séculos para dizer que Manual Para se Defender de Aliens, Ninjas e Zumbis (que daqui pra frente irei me referir como MPSDANZ, porque, pelo amor ficar escrevendo este título quilométrico todas as vezes), primeira série nacional produzida pela Warner Channel, com a impressionante bagatela de 3,7 milhões de reais e que estreou neste domingo, utiliza do tal camp para provocar uma boa dose de vergonha alheia no audiovisual tupiniquim.

Tá, eu vou partir do pressuposto que eu definitivamente não sou o target que MPSDANZ quer atingir, obviamente voltado para um público beeeeem adolescente ou talvez até um ou outro daqueles young adults da vida. E também é de tirar o chapéu uma produção nacional trash até a medula (apesar de tecnicamente impecável) que não tem o menor descaramento de abraçar o ridículo e se assumir besteirol com orgulho. E mais, é uma metralhadora giratória de referências de cultura pop – se bem que quase todas as séries ultimamente andam se valendo desse artifício para angariar o ávido público nerd – que vão de citações de Despertar dos Mortos de George A. Romero, pôster de Zumbi Branco de Bela Lugosi, jogos de videogame e bandas de Doors a Slipknot na parede do quarto de um dos personagens, aparição de Nikola Tesla em pessoa e uma cacetada de menções à DC Comics, principalmente Batman e Superman, licenciamento facilitado por se tratar de uma produção da Warner.

Criado por André Moraes (diretor de Entrando Numa Roubada e nome conhecido na área de trilha sonora) a comédia adole de sci-fi começa com uma descoberta de Tesla, que é encontrada por um professor maluco, digno de saído de Castelo Ra-Tim-Bum, chamado Bartolomeu Boaventura, que leva a uma conspiração alienígena, liderada de forma ridícula pelo Titã, Branco Mello, instaurada nos mais altos cargos corporativos e governamentais, que pretende roubar todo o CO2 produzido em nosso planeta, e para isso, eles se usam dos zumbis (!!!???) – que chega a gritar Ed Wood e seu Plano 9 do Espaço Sideral – mas que são meio, hã, acéfalos, e por isso, também se aliaram aos ninjas mercenários (???!!!).

Turminha do barulho aprontando altas confusões

Turminha do barulho aprontando altas confusões

Três adolescentes, Wes (Thalle Cabral) o líder do grupo que acredita em toda essa baboseira e tem o perfil do jovem herói, Sput (Michel Joelsas), o CDF clássico e Tina (Daphne Bozaski), a revoltadinha mais caricata impossível, descolam o livro que tem uma chave dimensional criada por Tesla e seguindo coordenadas deixadas por Boaventura, se deparam com a existência de uma resistência humana à essa invasão chamada Nazca, por meio de uma fita VHS guardada a muito tempo pelo açougueiro (???!!!!) Juarez (André Abujamra). Nessa fita, o tal manual do título.

MPSDANZ é uma Malhação às avessas, pois ao contrário da série global, é voltada para o adolescente nerd (uma fatia do mercado grande e importante nesses dias) e tem todos os elementos pinçados com precisão para abocanhar esse público, que vai se identificar com todo sua pegada de culto ao pop bombardeado a todo momento, incluindo aí uma trilha sonora oitentista analógica a la Stranger Things. Porém, talvez o mais triste de tudo é o quanto ele é todo focado só em referências estrangeiras – colonizado que somos – e nada da gloriosa cultura popular brasileira é citado ou colocado no meio daqueles easter eggs. Ou pelo menos que eu tenha percebido. Por exemplo, não vi um pôster de banda nacional no quarto de Wesley, nem unzinho da Legião Urbana, e referência a séries, filmes ou personagens brazucas. Pedir para citar Mojica ao invés de Romero é exagerar, né?

A parte positiva é que MPSDANZ é bem redondo quanto sua técnica e direção e tem uma linguagem jovem, geek e gamer bem atraente, design de produção bem feitinho, e que se esforça em ser levado a sério nesses quesitos, mesmo abraçando um roteiro nonsense e infatilóide. A negativa é que padece do mesmo problema que para mim atinge todas as produções nacionais, desde o cinema mainstream brasileiro até séries consagradas, como 3%: atuação e dramaturgia. Tudo bem que aqui estamos falando de um produto propositalmente brega e trash (eu acho…) mas está lá o carimbo de atuação do “padrão Globo de qualidade saído da Escola Wolf Maia de atores”, e isso vale para todo o elenco. Ou talvez seja ranhetice minha, mas isso me broxa cada vez mais em ver produção brasileira por isso.

Resultado: se você tem mais de 19 anos, provavelmente não irá gostar nada de MPSDANZ e achará assistir a esse piloto uma situação embaraçosa, porque referência de cultura pop gringa óbvia por referência de cultura pop gringa óbvia, os ianques já fazem isso a rodo em uma centena de séries e filmes de comédia e ficção científica, e com muita mais propriedade intelectual. Mas apesar dos apesares, é bom louvar os esforços de conteúdo audiovisual nacional, que a gente sabe que não é nada fácil de se fazer, e que mais iniciativas nesse sentido – talvez algumas mais adultas, por obséquio – possam surgir por aí na programação da televisão à cabo.

Karnak em sua nova formação

Karnak em sua nova formação

 


Marcos Brolia
Marcos Brolia
Jornalista, editor e idealizador do 101HM, é fanático por filmes de terror (ah, vá!) desde que se conhece por gente, dos classudos aos mais bagaceiras. Adoraria ter um papo de boteco com H.P. Lovecraft e virar um shot toda vez que ele falasse a palavra “indizível”.

1 Comentário

  1. André Luciano Maria disse:

    Teria sido melhor ver o filme do Pelé

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *