O capeta em forma de guri

Os 50 anos do nascimento do bebê de Rosemary


Desde os primórdios, o demônio possui várias facetas e definições para o que poderíamos definir como puro mal. A característica da besta toma forma desde que os antigos livros ilustravam sua aparência como uma criatura peluda, com cabeça de bode e seus chifres espirais num corpo de homem e pés cascudos.

A humanidade, crendo no bem, se vê obrigada a acreditar em seu oposto, pois assim as forças sobrenaturais se equilibram. A Bíblia, como o mais antigo livro printado e mais lido do mundo, previu o Apocalipse e que, junto dele, o Anticristo andaria no plano terreno e por suas mãos o caos se espalharia por toda parte. A dúvida que ainda assola a mente da cristandade é: como e quando?

A partir da preparação, estupro e conjuração do demônio em carne, numa Manhattan cheia de sonhos e problemas, Rosemary se torna a escolhida para que carregue em seu ventre a responsabilidade de parir aquele que seria o responsável pela libertação do filho de Satanás. O Bebê de Rosemary começa a tomar forma.

Roman Polanski foi o escolhido para ser o regente de tal responsabilidade. Tinha em suas mãos seu primeiro trabalho americano, vindo de elogiadas obras europeias anteriores. O que seria a segunda parte da chamada “Trilogia do Apartamento” – começando por Repulsa ao Sexo e terminando com O Inquilino -, Polanski contou histórias sobre a vida cotidiana nas metrópoles usando aquele pequeno espaço para mostrar que, às vezes, a cidade grande esconde relatos um tanto quanto maléficos.

Lá nos anos 60, Rosemary (Mia Farrow) e seu marido Guy (John Cassavetes) se mudam para um grande apartamento em Manhattan, perto da Broadway, no hoje famoso Edifício Dakota. Ele é um aspirante a ator que tenta alcançar a fama e ali é o ambiente propício para conseguir contatos e mais trabalhos de destaque. Ela, sua amada esposa que sempre o encoraja e se encarrega dos afazeres domiciliares, numa relação totalmente patriarcal, enquanto o feminismo explodia e as Barricadas de Paris explodiram no mesmo ano de 1968.

Piquenique num apartamento vazio é um banquete pra Satã!

Não demora para que seus enxeridos vizinhos idosos comecem a tentar participar mais ativamente da vida do casal. Se ao mesmo tempo que Guy se aproxima deles e sua vida começa a tomar um rumo, para Rosemary já não é a mesma coisa. A partir de sua tão desejada gestação, as coisas começam a tomar um rumo demoníaco…

Baseado na obra de Ira Levin, Polanski contou com a ajuda de William Castle, que já havia presenciado o sobrenatural com A Casa dos Maus Espíritos e 13 Fantasmas. Antes cotado para que ele mesmo pudesse narrar os fatos de Rosemary, forças maiores acharam melhor que apenas “coordenasse” os movimentos de Roman e pudesse ali presenciar as filmagens do macabro acontecimento mais real e amedrontador visto até então nas telas de cinema.

Polanski sempre foi muito perfeccionista e sistemático, porém em O Bebê de Rosemary parecia que algo o guiava. Num total de gravações de mais de quatro horas, muitas cenas haviam sido gravadas num take só, ou com um mínimo de cortes (dois ou no máximo três). Realmente era o destino que esta história ganhasse o mundo não apenas pela sua veracidade, mas também pela certeza de que ali se documentava o nascimento de uma era.

Sendo totalmente fiel aos relatos de Levin, Polanski retirou peças de diálogo, cores e roupas exatamente bem como descritas por seu autor, assim considerado por muitos como a máxima adaptação de todos os tempos, por sua fidedigna representação do poder que aquela obra representava. Realmente todas as pessoas presentes não sabiam com o que estavam mexendo, e com certeza até hoje ainda temos esta dúvida.

Estranho saber que esta película estava diretamente ligada ao ocultismo e satanismo, ou que ela tenha atraído tais forças para àqueles envolvidos. Bem, pelo menos assim pensavam os seus realizadores. Bem como obras vindouras a exemplo de O Exorcista e A Profecia, onde as mais profundas maldições assolavam quaisquer pessoas com os quais se atreviam a fazer parte da história.

Salve Rosemary! Salve Satã!

William Castle atribuiu ao bebê suas doenças crônicas e uma série de acontecimentos pelos quais aconteciam pouco a pouco. Mia Farrow preferiu o longa  à seu marido na época, Frank Sinatra, e os papéis de divórcio chegaram em sua mesa enquanto se aprontava para gravar; acidentes no set de filmagem se tornavam comuns; Polanski e Cassavetes desentendiam-se cada vez mais… Mas o pior ainda estava por vir.

Helter Skelter.  A Família Manson banhada a sangue, violência e crueldade tiraram a vida de Sharon Tate, grávida de Polanski. A atriz e seus amigos foram brutalmente mortos a facadas e aquela cena fora marcada como um dos crimes mais chocantes de todos os tempos. Como se não bastasse, 11 anos após a gravação dos Beatles, John Lennon, vivendo no Dakota, é morto a tiros por Mark Chapman, um fã alucinado.

Seria coincidência demais ou a maldição que Polanski e sua equipe haviam libertado no edifício era poderosa demais para que meros humanos a compreendessem?

Vista como uma das obras mais assustadoras de todos os tempos, este longa perdura por cinquenta anos como algo indescritível e indecifrável. Não bastasse sua temática pesada, ainda influenciaria outras histórias a serem contadas com o viés demoníaco, como O Estigma de Satanás, A Sentinela dos Malditos A Irmandade de Satanás. Tentaram, sem muita sorte, dar uma continuidade com Veja O Que Aconteceu ao Bebê de Rosemary, tendo como seu guia Sam O’Steen, um velho conhecido do clássico de 68 por editá-lo. E numa outra tentativa de trazer a intangível visão de Polanski à tona, uma nova versão em 2014 também foi feita, mas sem seu brilho – ou melhor dizendo, a escuridão – de que a criança precisaria.

Esqueci de comentar que O Bebê de Rosemary nasceu numa data propícia: 06 de junho de 1966, ou simplificando 06/66. O número da Besta! E mesmo após 50 anos, o sinal do bebê do diabo em carne remanesce até hoje como a definitiva representação das trevas na Terra, e a epítome do cinema de horror.

Não acredito que isso veio de mim!


Guilherme Lopes
Guilherme Lopes
Mineiro de nascimento e paulista de criação, vê nos filmes de terror e afins a diversão e bode expiatório para não cometer atrocidades na vida real. Não se engane com sua carinha de anjinho: ele não rebobinava as fitas antes de devolver à locadora.

1 Comentário

  1. Henrique disse:

    Clássico, um dos meus preferidos. E as histórias e teorias que envolvem esse filme, caramba! Fiquei impressionado quando li o livro depois, porque é realmente uma adaptação extremamente fiel ao livro.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

%d blogueiros gostam disto: