Review 2015: #24 – Garota Sombria Caminha Pela Noite

O despertar da vampira indie


Outro dia desses vi um meme gringo que mostrava a estreia de Star Wars – O Despertar da Força coincidindo com o lançamento de Alvin e os Esquilos: Na Estrada, acompanhado da frase: “Você pode ser confiante, mas nunca será tão confiante quanto os produtores de Alvin e os Esquilos”.

Aqui no Brasil, poderíamos usar quase do mesmo argumento para a Imovision, distribuidora que coloca esta semana nos cinemas o filme de vampiro indie da iraniana Ana Lily Amirpour, Garota Sombria Caminha Pela Noite, com estreia limitada a algumas salas.

Talvez essa até seja a estratégia dos marketeiros: funcionar como o que eles chamam de “contra-programação”, indo contra a overdose de Star Wars, mesmo que neste momento seja a história da cultura pop sendo feita. Pode até ser. Mas a gente fica pensando se talvez este fosse o produto certo pra estratégia, em especial por se tratar de uma produção lançada em abril deste ano nos EUA e que rodou desde 2014 por tudo quanto é festival. Por que agora?

Uma coisa, no entanto, a gente pode dizer: deixe o preconceito de lado. Afinal, não se trata de “só mais um simples filme de vampiro”. Me atrevo a dizer (e sei que vai ter gente reclamando por conta de Amantes Eternos, aposto um braço nisso) que Garota Sombria Caminha Pela Noite é o MELHOR filme do subgênero que eu vi desde o sueco Deixe Ela Entrar, lançado no longínquo ano de 2008.

O filme é daqueles artsy até dizer chega, com uma pegada de cinema noir e faroeste, um ritmo diferente da acelerada loucura hollywoodiana, uma fotografia P&B lindíssima com seu jogo de luz e sombra, direção precisa, roteiro poderoso, ótimas atuações e trilha sonora afiada (incluindo alguns nomes da música pop iraniana que fazem crítica ao Estado, ao melhor estilo Quentin Tarantino).

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Caminhando sombriamente pela noite

 

Não bastasse isso tudo, apesar de se esconder embaixo do sombrio véu do vampirismo como metáfora, Garota Sombria Caminha Pela Noite fala sobre o empoderamento feminino e a opressão da mulher em uma sociedade patriarcal e machista em um país fundamentalista como o Irã.

O filme é ambientado em uma cidade fictícia chamada Bad City, uma Basin City perdida no Oriente Médio com aquela coisa toda de crime, tráfico de drogas, prostituição e violência, numa linha de tempo que não consegue ser identificada (fitas cassetes, discos de vinil, celulares, música eletrônica coexistem com roupas, carros e arquitetura dos anos 50 e 60 – mescla da modernidade pulsante de uma Teerã freada pela Revolução dos Aiatolás com aspectos retrô).

Nas noites de Bad City, uma garota sombria (Sheila Vand) caminha pela noite (ah, vá!), pelas escuras vielas, a pé ou de skate, vestida com uma camiseta listrada – daquelas que as minas indie usam – por baixo de seu chador, só observando, e pronta para fazer sua próxima vítima. Mas ela não é uma vampira comum com sede de sangue que sai aleatoriamente atrás de uma jugular. Ela é uma anti-heroína, uma vingadora que persegue molestadores, pedófilos, agressores de mulheres.

Seu universo irá colidir com o de Arash (Arash Marandi), um jovem com todo seu estilão de James Dean iraniano (t-shirt branca enfiada nas calças pretas de brim enquanto fuma um cigarro inclinado sobre uma cerca como se estivesse em um subúrbio da Califórnia) que passa seus dias sustentando o vício de seu pai em heroína – há todo um drama familiar aí que será explorado até a ótima conclusão do filme.

Depois de ficar pra lá de Bagdá (viu o que eu fiz aqui?) em uma festa à fantasia na qual ironicamente está usando uma capa de Drácula, Arash conhece a garota, que acaba levando-o para seu quarto repleto de pôsteres de Madonna, Michael Jackson e Bee Gees. E lá veremos uma cena de uma beleza ímpar, um quase plano-sequência de cinco minutos entre os dois — tudo ao som da faixa “Death”, da banda White Lies, colocada na vitrola sob a luz de uma bola de discoteca rodando no teto. A garota lentamente se vê na encruzilhada entre seu instinto natural de se alimentar e seu confuso sentimento, com um Arash somente como uma marionete passiva, enquanto o vocalista Harry McVeigh canta que “yes, this fear’s got a hold on me”. Serve para ambos. E os hipsters piram!

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Dressed to kill

A faísca do romance será acesa, só que obviamente entra em cena os conflitos da crise da imortalidade, com a personagem de Vand não permitindo se envolver com Arash. Mas fiquem tranquilos porque a relação entre eles não chega nem próxima da cafonalha daquela série de livros e filmes de vampiros que brilham no sol e quase destruiu a reputação dos mortos-vivos até o começo dessa década.

A vampira de Amirpour pode até emular a solidão dos quartos das adolescentes, o isolamento romântico e exílio emocional, mas não é atormentada pela agonia da vida eterna, não é fragilizada e sabe muito bem o que quer. É independente, não se vitimiza e não fica naqueles solilóquios intermináveis sobre dor, sofrimento e a falta de amor, além de ter um senso de justiça aflorado contra um mundo masculino de repressão e hipocrisia. Se eles são a doença em Bad City, ela é a cura!

Apesar de ser escrito e dirigido por uma iraniana, e falado inteiramente em seu idioma, Garota Sombria Caminha Pela Noite é esteticamente uma produção 100% americana. Amirpour cresceu nos EUA e absorveu toda sua estrutura cultural, colocando-a na tela. Sua distribuição na Terra do Tio Sam foi feita pelas mãos da Vice Films, braço da companhia de mídia de Shane Smith sediada em Williamsburg, a meca dos hipsters. Então todo seu apelo cult, estilização, cheio de referências e escolha musical precisa é um pacote pronto para arrebatar o coração dos jovens modernos e descolados.

Mas se engana pensar que ele se limita somente a isso. Além do poderoso contexto por trás, também agrada aos fãs do subgênero como um ótimo filme de terror soft, mesmo com sua quase completa falta de violência e sangue, primando pela beleza estética, seus longos momentos de silêncio, apelo de cinema de arte e destacando-se como um filme de personagens. Mais recomendado ainda para os apreciadoras de obras mais existências das criaturas da noite, como os já citados Deixa Ela Entrar de Tomas Alfredson ou Amantes Eternos de Jim Jarmusch, ou até mesmo clássicos obscuros como The Addiction de Abel Ferrara.

Se você não conseguiu comprar ingresso de O Despertar da Força para esse final de semana – ou então talvez esteja mesmo querendo fugir do alvoroço em que as salas de cinema se encontrarão, fica a dica: que a garota sombria que caminha pela noite esteja com você!

5 presas salientes para Garota Sombria Caminha Pela Noite

 

Texto originalmente publicado no Judão
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…got a hold on me

 

 


Marcos Brolia
Marcos Brolia
Jornalista, editor e idealizador do 101HM, é fanático por filmes de terror (ah, vá!) desde que se conhece por gente, dos classudos aos mais bagaceiras. Adoraria ter um papo de boteco com H.P. Lovecraft e virar um shot toda vez que ele falasse a palavra “indizível”.

0 Comentários

  1. Erik Avilez disse:

    Fantástico! Gostei muito de Amantes Eternos e você já me convenceu a ver só de citá-lo. Já pus na lista do Filmow; vi Star Wars na pré-estreia, tenho o final de semana pra ir atrás desse e de Macbeth.

    Obrigado pela recomendação!

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