O Enigma de Outro Mundo: O abismo niilista de John Carpenter

O que é ser humano? É a pergunta feita pelo diretor há 35 anos, quando o “máximo em terror alienígena” chegava aos cinemas


Há exatos 35 anos, em 25 de junho de 1982, uma ferida foi aberta dentro do peito do ser humano. John Carpenter, ao observar as supostas obviedades daquilo que deveria ser o homem, encabeça um projeto que culminou naquilo que seria um dos maiores clássicos do cinema de horror: O Enigma de Outro Mundo trouxe um fascínio único ao seu público. Não só pela agressiva exposição visual, mas por ir contra tudo aquilo que o circundava.

Obviamente, um filme como esse, que além de não possuir um final fechado ainda foi lançado juntamente com o blockbuster E.T. – O Extraterrestre, estaria fadado ao fracasso comercial. E foi o que aconteceu naqueles idos, com uma recepção assustada de um público diante daquela visão alienígena pessimista, ainda mais se colocado ao lado do longa-família de Spielberg. Entretanto, a chaga que essa película abre é tão profunda que ela permanece até hoje, sendo analisada em detalhes pelo autor Heather Addison em seu artigo Cinema’s Darkest Vision: Looking into the Void in John Carpenter’s The Thing (1982).
No texto que aqui exponho, buscarei trazer os principais pontos do artigo, mostrar como Carpenter se posiciona contra absolutamente todos os elementos de seu tempo e demonstrar como o terror dessa obra vai MUITO além do mero choque visual.

Contra a história

O Enigma de Outro Mundo estava totalmente fora de sincronia com o seu período histórico. Nos EUA os resquícios do pós Vietnã havia sido largamente explorados em Hollywood. Teorias conspiracionistas estavam em alta juntamente com uma atmosfera pessimista que assombrava a mente dos cidadãos norte-americanos. A notória rejeição do liberalismo que ocorreu nos anos 60 juntamente com a aura cinzenta que assolava a suposta maior nação do mundo no início dos anos 70 foi o que propiciou a entrada de Ronald Reagan na Casa Branca.

Reagan prometeu trazer de volta o orgulho de ser americano aos seus eleitores. A administração do presidente-ator era inteiramente masculina dentro dos moldes clássicos, como seus papéis de caubói nos cinemas. Ele mesmo se posicionava como um líder repleto de valores familiares. Esse posicionamento perante uma nação obviamente teria influências no mundo cinematográfico. Os famosos “brucutus” começam a pipocar nas telas: Stallone, Van Damme e Schwarzenegger, com seus físicos avantajados e definidos, tornam-se ícones de beleza e de postura quando o militarismo americano salvava o dia contra os comunistas, em sua grande parte.

Diante disso, podemos ver um movimento oposto do filme de Carpenter. A “Revolução Reagan” e seus valores de otimismo norte-americano simbolizados por heróis musculosos não contaminam a obra.. MacReady, interpretado por Kurt Russell, é um piloto de helicóptero solitário. Ele não busca se sobrepor ao conflito que surge na trama através de seu corpo, diferentemente dos outros filmes da época. Obviamente, esse olhar só é possível mediante o distanciamento da época em que o filme foi produzido.

Não obstante, trata-se da refilmagem de um clássico sci-fi dos anos 50, O Monstro do Ártico, de Howard Hawks, período em que a ficção científica norte-americana funcionava como uma alegoria ao medo do comunismo, sistema político que, segundo os yankees, suprimiam as individualidades, em um período marcado pela paranoia do macarthismo, onde o cidadão americano de bem deveria desconfiar de tudo e todos. Paralelo muito próximo aos últimos anos da Guerra Fria quando Reagan resolveu mais uma vez, declarar os soviéticos como o inimigo mundial, e as tensões entre os países e seus serviços de contrainteligência, personalizados pela CIA e a KGB, estiveram no auge. Isso acrescenta ainda mais o seu gigantesco niilismo . Ele suga e expõe a fragilidade de nossos corpos, de nossas identidades, de nossas relações e de nossos sistemas de significado.

 

Contra o Corpo

O maior ataque feito por O Enigma de Outro Mundo é contra o corpo. No body horror, o corpo humano é ferido, infectado, intimidado e deformado. Mesmo antes da entrada da ameaça alienígena, os doze homens que estão na estação científica lutam para se manter vivos devido às condições ambientais agressivas que compõem o Ártico. Equipamentos de proteção são necessários para mantê-los separados e protegidos do tempo. Esse delicado equilíbrio, homem/ambiente, pode ser quebrado a qualquer momento. E, como era de se esperar, ele é quebrado quando a ameaça alienígena invade o acampamento.

Já no início do filme é possível observar a fragilidade do nosso corpo. Quando o cão contaminado invade o acampamento e existe uma troca de tiros entre os cientistas e o piloto do helicóptero norueguês, Bennings (Peter Maloney) é ferido. Ele precisará de uma sutura. No momento em que os pontos serão realizados, temos uma aproximação da câmera na ferida enquanto o procedimento acontece. Na próxima tomada, vemos o rosto de Bennings se contraindo involuntariamente. As imagens desse estresse físico funcionarão como força motriz para o filme à medida que a influência alienígena se espalha pelo acampamento.

Uma vez tendo o seu lugar garantido no acampamento, o alienígena em forma de cão começa a se espalhar de forma lenta e invisível. Quando pensamos nisso dificilmente não associamos esse processo à uma outra doença. Nesse caso específico, a AIDS, identificado cientificamente apenas um ano antes. Uma vez que estamos no início dos anos 80 e que a epidemia dessa enfermidade começa a surgir, acreditar que estamos diante de uma metáfora é quase irresistível. Entretanto, se essa analogia de fato ocorreu, ela não foi intencional. O próprio Carpenter alega ter lido pela primeira vez sobre o vírus quando já estava filmando. Além disso, a doença mostrada na obra de horror é muitas vezes mais letal que a própria síndrome do sistema imunológico, sendo capaz de se espelhar e matar mais rapidamente.

Mais ou menos na metade do filme, Blair (Wilford Brimley) descobre a existência de uma célula alienígena em uma simulação de computador. Ele percebe que se ela se espalhar, em poucas semanas a humanidade estará acabada. Ali, ele compreende que o apocalipse é iminente. Enquanto isso, a manifestação física da ameaça alien começa a acontecer em uma série de terríveis encontros. A primeira delas é quando o cão contaminado é deixado sozinho no canil junto dos demais cachorros. A mutação alienígena dispara. Um apêndice viscoso surge de dentro da face rompida do animal abraçando os outros cachorros. MacReady corre ao ouvir os ganidos e dispara o alarme da estação. Toda a equipe vai em direção ao canil, onde se deparam com a terrível criatura.

Uma das ramificações orgânicas do monstro se estende e tenta agarrar Childs (Keith David), um dos membros da equipe. Os homens rapidamente respondem a ação com uma rajada do lança-chamas na direção do alienígena. Atônitos com a situação, eles pegam alguns pedaços remanescentes da criatura, cientes de que aquilo são restos de uma monstruosidade. Nesse momento, eles percebem que estão lidando com uma situação de vida e morte contra uma criatura que desfigura a carne de modos impensáveis. Eles terão que lutar para sobreviver, sozinhos, isolados em um ambiente inóspito.

O horror causado pela criatura cão é amplificado no momento em que é realizada a autópsia no laboratório. Enquanto Blair abre a carcaça, em um determinado momento ele exclama: “Meu Deus!”. Abre a criatura expondo um amontoado de ossos e tecidos diversos que estavam escondidos. Então, ele fala: “Filho da Puta!”.

De todas as pessoas presentes nessa cena, Blair é o que tem o maior conhecimento sobre anatomia. Ao ver com o que eles estão lidando, o cientista sente aversão ao que lhe é apresentado. “A Coisa” representa o que não pode ser, o que é contra tudo que deveria ser natural ou divino. Essa reação de Blair, juntamente com o restante da equipe, é um mecanismo de distanciamento, um movimento desesperado em se distanciar desse organismo alienígena e da morte que ele carrega. A contínua reação de nojo dos personagens no decorrer do filme é motivada pelo desejo dos mesmo em se distanciar da abominação alienígena, de não permitir que eles sejam absorvidos ou ingeridos por ela. Para a criatura os seres humanos são apenas tecidos para serem assimilados; não interessa suas identidades ou modos como percebem o mundo. Confrontados com a sua vulnerabilidade física, os homens ficam aterrorizados, especialmente por perceberem todas as implicações daquilo que ameaça suas condições humanas.

 

Contra a humanidade

Se considerarmos a humanidade enquanto qualidade ou condição de ser ser humano, O Enigma de Outro Mundo desestabiliza progressivamente esse conceito. Primeiramente, ele erradica a distinção entre humanos e animais ao inserir nas capacidades da criatura alienígena o poder de destruí-las e equaliza-las em nada mais do que tecido. O alienígena também subjuga a noção de humanidade ao criar uma categoria negativa, ou não-humana, que ameaça tudo o que nossa raça construiu, desde nossas identidades até nossa cultura e principalmente, a religião.

A perda da humanidade começa a surgir a partir do caos e do medo resultantes do conflito causado pela criatura. Ela faz desaparecer os limites que existem entre a ordem e o descontrole, entre o corpo e o exterior, entre o tangível e o intangível. O monstro representa as áreas cinzentas, as contradições internas que podem ameaçar a ordem social. Nesse caso, ela nos obriga a questionar: O que é ser um humano? Existe diferença entre os humanos e suas imitações alienígenas? Em um momento do filme, Childs questiona exatamente isso: “Então, como sei que sou humano? Se ela é uma imitação, uma imitação perfeita, como posso saber se eu sou realmente eu?”. Se a criatura mimetiza perfeitamente o ser que ela se apossa, talvez os próprios organismos não percebam o que está acontecendo com eles. Esse pode ser a forma máxima do horror: não saber se alguém continua sendo humano ou seu real significado.

É verdade que o filme oferece aos personagens alguma segurança, mas a mesma é baseada na percepção biológica de humanidade. Essa percepção prega que os indivíduos possuem tecidos similares. Interessante perceber que, após Blair destruir todos os meios de fuga da estação e os membros da equipe compreenderem que estão em uma situação em que o enfrentamento é inevitável, para identificar quem é humano e quem não é, eles recorrem unicamente aos dispositivos médicos. Nenhuma entrevista ou teste psicológico é cogitado. Doutor Copper diz que seria possível misturar o sangue humano com o sangue alienígena e, a partir do resultado, observar se algum tipo de reação ocorreria. Percebamos que a proposta tem como pressuposto a similitude do nosso fluido vital, independente do indivíduo. Novamente, toda e qualquer característica filosófica ou emocional é descartada como parâmetro para identificar quem é humano, e quem não é.

Após uma das melhores sequências de ação do filme, a cabeça de Norris se destaca do corpo e começa a tentar fugir, buscando sobreviver. Ao ver isso, Mac realiza que cada parte da criatura é um todo completo. Ela não depende da união de seus compostos orgânicos para existir. Então, ele decidi fazer um teste expondo o sangue de todos os remanescentes a uma situação adversa. Durante a cena que segue no desenrolar do teste, vemos que a humanidade não mais tem qualquer relação com o comportamento, pensamento ou espiritualidade. Ela é estritamente biológica.

Nesse ponto, o filme sugere que a humanidade pode ser reduzida por completo a sua condição biológica. Que todos os humanos se aproximam unicamente pelo fato de dividirem tecidos. A distinção entre humanos e alienígenas vai sendo minimizada gradativamente, até o ponto em que tudo o que os separa são suas distintas biologias. Sendo assim, o teste de sangue tem valor duplo: ele nos informa quem é humano, mas também sugere que não temos nada mais em comum entre nós do que todos os animais. E, mesmo com o teste, a criatura prevalece.


Contra as relações       

A impossibilidade de conter a criatura é justificada pela ausência de unidade da mesma. Se criar relações pode ser considerado parte daquilo que nos faz ser humanidade, esse aspecto do ser humano não se manifesta nos homens da equipe. Apesar do ambiente hostil e do pouco espaço que eles possuem dentro da estação, todos eles se mantêm distantes uns dos outros, até mesmo antes da entrada da criatura na estação. Na cena em que somos apresentados à MacReady ele está manuseando um punhado de cubos de gelo e colocando em sua bebida. Ele está sozinho, jogando xadrez em seu computador. Ao invés de estar com os demais membros da equipe jogando sinuca ou se entretendo com uma conversa qualquer, ele opta em ficar isolado em sua cabana se digladiando contra uma máquina em um mundo digital. MacReady não demonstra possuir nenhuma proximidade com qualquer um. Isso torna mais fácil para ele dispensar um ou outro membro a medida que a calamidade se espalha.

Os outros parecem ser mais propensos a interações que MacReady. Eles estão juntos nas áreas comunitárias, se divertindo, jogando cartas, jogando pingue-pongue, vendo programas de televisão e dividindo cigarros. Mas essas relações não demonstram qualquer real proximidade entre eles. Os homens daquela estação são estranhamente assexuados. Qualquer sinal de que exista relações homoafetivas entre eles é inexistente. O modo como eles se posicionam dentro da estação é narcisista. Eles não são capazes de colocar as necessidades dos outros acima das suas.

Um exemplo disso é a cena que se segue logo após Bennings ser alvejado. Ele está tentando dormir e pede para Nauls (T. K. Carter) abaixar o volume de seu rádio. O cozinheiro prontamente ignora o pedido e segue ouvindo sua música no máximo volume. É óbvio que ele não está tentando afrontar ninguém, mas ele não sente necessidade de atender ao pedido do companheiro, uma vez que isso implicaria no sacrifício de sua vontade. O outro não é um amigo, ele é apenas um companheiro de trabalho. Nenhuma relação de amizade se evidencia na trama, apesar de termos Garry (Donald Moffat) afirmando que Bennings tem sido seu amigo por dez anos. Isso é minimamente estranho, uma vez que não há nenhum diálogo ou cena que evidencie essa proximidade entre os dois. Logo, não há nenhuma demonstração de “amizade” propriamente dita. Quando MacReady fala “Temos que queimar os restos dele” falando sobre o corpo de Bennings, Garry não protesta e simplesmente aceita.

É peculiar que, apesar de todos ali serem interdependentes, não existe qualquer laço de fraternidade na estação. Eles agem como autômatos nervosos movidos pelos próprios interesses. O mais surpreendente é que essa deterioração das relações já é evidente antes mesmo da chegada da criatura. Quando o alienígena surge, ele apenas amplifica o já existente isolamento entre os homens. O Enigma de Outro Mundo parece celebrar o potencial sombrio que existe dentro de um ideal norte-americano de individualismo e a paranóia e desconfiança do outro.

Como em muitos romances, os membros da equipe vivem distantes da civilização tentando sobreviver a condições extremamente adversas. E, também como nos romances, eles sofrem da ausência de relações mais próximas com outras pessoas. Eles preferem viver exclusivamente pela suas forças e suas habilidades. Isso também é demonstrado pelo modo como a criatura os aniquila um a um. Ela não os ataca em grupo. Ela se apossa deles um após o outro quando eles estão isolados. O filme talvez advogue que o individualismo ilimitado pode nos guiar a extinção.

A criatura também é uma dupla representação: ela é, ao mesmo tempo, a expressão máxima do individualismo e a negação humana. Cada parte desse ser espacial se comporta como se fosse um ser completo, fazendo o que for necessário para sobreviver. Sendo assim, ela se torna indestrutível e capaz de destruir os seres humanos, sua individualidade, seus corpos e cada uma das expressões de suas características individuais. Depois de ingeridos, os humanos se tornam apenas uma série de células a serem imitadas.

Ironicamente, os personagens, pelo que nos é apresentado, têm pouquíssimas características que os individualizam e lutaram para manter aquilo que os torna únicos. Essa mórbida perspectiva parece apontar que a humanidade já estava se deteriorando muito antes da chegada do alienígena.

 

Contra o gênero

É notória a completa ausência do sexo feminino no filme. Até mesmo nos sets de filmagem, Carpenter alega ter o total de zero mulheres participando. O mais próximo que temos de uma presença feminina na película é a voz do computador contra quem MacReady joga xadrez. Entretanto, essa personalidade feminina rapidamente é eliminada. Um interessante modo de enxergar a obra é percebemos a criatura enquanto um eterno feminino. Dentro desse contexto, a história inteira se torna uma tentativa do homem buscar preservar desesperadamente sua masculinidade diante de uma presença predatória feminina que não se encaixa em uma condição humana.

Uma evidência que validaria essa leitura seria a cena onde Copper tem seus braços arrancados pela criatura ao tentar ressuscitar Norris com o desfibrilador. A imagem que se forma nesse momento seria a clássica vagina dentata, um poderoso símbolo feminino que extirpa a vida de um dos membros da equipe. Pouco depois, a cabeça de Norris se torna uma aranha, sugerindo outro emblema feminino. A aranha é quase sempre apresentada como uma criatura malevolente, predadora e feminina. A masculinidade torna-se vulnerável frente a poderosa face da entidade feminina. A leitura que valida o alienígena como uma fêmea não é unânime, entretanto é manifesto o modo como esse ser subverte a masculinidade ao penetrar nos corpos dos homens da estação e desestabiliza o próprio poder do patriarcado, que depende do homem e da centralização de autoridade.

A questão histórica parece corroborar para essa possibilidade. Os anos 1970 tiveram inúmeras revoluções e entre as mais significativas,o questionamento dos papéis de gêneros feito pelas mulheres. Sob o comando de Reagan, os anos 1980 foram mais conservadores e onde buscou-se centralizar o papel do masculino enquanto autoridade. O Enigma de Outro Mundo parece buscar destruir toda e qualquer distinção entre os papéis de gênero ao destruir a própria esperança para a manutenção da humanidade. Não importa seu sexo: você é apenas tecido. É importante lembrar que os valores conservadores de uma sociedade patriarcal dependem da existência de mulheres. Uma vez que as mesmas não existam, as relações sociais de tal organização social se desintegram.

Os homens no filme são ilhas sem nenhum tipo de conexão uns com os outros. Quando precisam enfrentar a ameaça, eles já estão enfraquecidos pelos poucos laços que possuem. A criatura apenas termina de separá-los. Nesse sentido, sugere um repúdio pela masculinidade, colocando-a como uma força letal e que, quando posta como um aspecto de identidade, apenas acelera a destruição do próprio homem. Assim sendo, outro importante ponto é a possibilidade de a criatura ser também um símbolo de hipermasculinidade. Observemos suas características: extremamente forte, vive por si só e elimina muito facilmente tudo aquilo que ameaça sua sobrevivência. O alienígena é exatamente igual aos homens da película.

Se a criatura for masculina, ela não só representa um modelo destrutivo de heterossexualidade masculina como também a toxicidade das relações homossexuais. A única chance dos personagens terem um contato íntimo de qualquer tipo é quando eles são absorvidos e ingeridos pela criatura. Na cena em que Windows (Thomas Waites) está em uma sala junto de Bennings, ele vê o companheiro de equipe completamente preso pelos tentáculos do monstro. Toda a equipe, então, persegue, mata e queima Bennings em um ato que indica o repúdio pela perversa experiência supostamente sexual que ele vivenciou. Lembremos também que o filme rejeita a homossexualidade ao não permitir nenhum tipo de relação homoafetiva em seu desenrolar, mesmo tendo um significativo número de homens completamente isolados em múltiplos aspectos. Diante da ausência de quaisquer possibilidades de relação, o que resta é apenas um modelo de masculinidade padronizada destrutiva que força-os a agir sozinhos e  morrer.

Contra o público

Ao final do filme, nos deparamos com o isolamento ártico cercando e destruindo todas as possibilidades de sobrevivência dos personagens. MacReady parece ter sido capaz de destruir a criatura, permitindo a prevalência da humanidade. Ao perceber sua vitória, ele senta sozinho e se prepara para um trago de whisky. Childs aparece nesse momento e interrompe a celebração. Ele havia sumido previamente, enquanto Mac lutava contra o monstro. “Onde você estava, Childs?” pergunta Mac. Mesmo com essa questão, ele já sabe que não há resposta satisfatória.

Ninguém poderá garantir que é humano nas condições em que eles se encontram. Nem os personagens nem o público pode identificar o sucesso ou não da empreitada contra a maior ameaça à humanidade. O final de O Enigma de Outro Mundo, assolador, foge das respostas comumente utilizadas nas fórmulas comerciais. Ele nega ao público um encerramento e a possibilidade de uma interpretação fechada, além da inexistência de um final feliz propriamente dito. Essa talvez seja uma das razões que tenha garantido ao filme status de clássico, cultivando o terror através da subversão da certeza, da confiança e das crenças por gerações, mesmo ante seu fracasso comercial ao ser lançado.

Conclusão

Sendo um vórtice niilista poderoso o suficiente para sugar tudo aquilo que constitui a humanidade como tal para dentro de si, O Enigma de Outro Mundo se recusa a perecer e se mantém um clássico. A película força um senso de paranoia, um eco dos anos 1980 incompatível com a época em que foi lançado. Os homens da estação encaram o isolamento absoluto. Eles são separados enquanto um grupo (ao irem para um posto na Antártica), alienados uns dos outros e destacados de suas identidades. O filme trata qualquer papel de gênero como destrutivo. Questiona tudo, subvertendo as fundações do que somos. Ele força o seu público a olhar para o seu abismo existencial. Esse abismo não encontra distinção naquilo que engole: humano, não humano, masculino, feminino. Tudo é digerido e convertido em partes da criatura.

O que talvez fique da experiência de assistir a obra prima de Carpenter, seja a visualização óbvia da sociedade humana completamente isolada e repleta de paranoia sendo rapidamente desintegrada. Claro que nem tudo no filme pode e deve ser visto como terrível, afinal os membros da equipe se sacrificam de modo heroico para tentar conter a ameaça alienígena. Entretanto, as sombras criadas pelos monstruosos tentáculos do ser espacial irão para todo sempre sugar tudo aquilo que nos torna seres humanos e mostrar a fragilidade de nossa condição em frente ao grotesco relegando nossa sociedade e classificações.

O Enigma de Outro Mundo não nos tira apenas o mundo com seu enredo apocalíptico, mas também nos tira de nós mesmos!

 

 


Tauami de Paula
Tauami de Paula
Estudante de Letras e de Filosofia, esse apreciador do absurdo e do inexplicável sempre encontrou mais sentido na arte do que na vida. Sendo raramente visto fora de casa, passa os dias lendo, escrevendo e criando teorias sobre tudo aquilo que não entende.

2 Comentários

  1. Diogo Benoski disse:

    Excelente artigo, para este que é um filme realmente perturbador. Até hoje, considero uma das obras mais viscerais a respeito de alienígenas…

  2. Mario Scanholato Neto disse:

    Ótimo texto… nossa capacidade de modificar a opinião ao (re)ver uma obra-prima como esta sempre me volta a cada vez que o assisto. E por uma ironia é um dos poucos filmes que amo mesmo, apesar das dúvidas com seu final e só agora tive uma clareza por um detalhe no final que dá a certeza de qual dos dois é a criatura, mas é tão imperceptível que só agora consegui ver quem o é. Só acompanhar a fumaça da respiração…

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