O horror nos tempos de censura

O gênero maldito é sempre o primeiro a sofrer em mãos conservadoras

Tido pelos “intelectuais” (assim, entre aspas mesmo) como menor até mesmo na literatura, o horror se tornou um dos gêneros mais populares hoje em dia, com o número de produções cinematográficas que crescem em quantidade e lucratividade, ano após ano. Para termos uma ideia, segundo o IMDB, na década passada foram produzidos 4.522 filmes de horror. Porém, se ajustarmos o sistema de busca para rastrear toda a produção cinematográfica do gênero entre 2011 e 2018, já foram produzidos 9.779 filmes. Mais do que o dobro da década passada em apenas oito anos.

A popularidade do gênero pode ser atribuída a diversos fatores. Alguns atribuem este fascínio à capacidade de nos expor ao perigo de forma controlada e segura, fazendo com que nos sintamos vivos, como quando buscamos aquela sensação de medo em brinquedos como uma montanha-russa, por exemplo. Outros preferem o gênero por sua capacidade de nos colocar próximo do sobrenatural e do fantástico, criando uma realidade mais interessante do que aquela em que vivemos.

Mas o horror possui uma característica muito mais interessante para aqueles que se dedicam ao estudo do gênero e que o coloca muito próximo da ficção-científica, por exemplo. É a capacidade do horror em eviscerar e expor nossa própria realidade através da tela do cinema, indo ao cerne da nossa condição social, política e humana. Tal característica pode ser muito bem entendida ao examinarmos os filmes de monstros gigantes da era nuclear, dos alienígenas durante a paranóia comunista do auge da guerra-fria e do torture porn e os zumbis pós 11 de setembro.

Fuja dos comunistas invasores de corpos.

Observando sob este prisma, o horror é necessário e fundamental para entendermos a nós mesmos e o mundo que nos cerca. Talvez por isso, descontando-se o preconceito por sua violência e sua fantasia daqueles que estão longe de compreender seu fascínio e sua importância, seja o mais perseguido pela polícia da moral e dos bons-costumes e, por consequência, censurado e proibido por conservadores ao redor do mundo.

No auge da introdução dos vídeo cassetes domésticos no final dos anos 70, pós todo movimento grindhouse nos cinemas americanos, e da explosão da produção de filmes de baixo orçamento direto para o mercado de home-video, um grupo de cidadãos ingleses preocupados com a moral e a integridade da sociedade britânica censurou e baniu diversas obras, alegando que poderiam “depravar e corromper” a audiência, rotulando-os como os infames video nasties, rotulados pelo BBFC, o órgão de classificação dos filmes britânicos. A Dama de Ferro estava no poder e a ordem do dia era a austeridade. O número de batidas policiais a lojas de vídeo cresceram tanto que lojistas temendo prejuízo e sanções chegaram a solicitar ao governo um guia pontuando o que poderia ou não ser comercializado.

Centenas de filmes de horror figuraram entre a lista de proibições, sendo banidos, mutilados e censurados ao longo de mais de duas décadas. Filmes como O Exorcista eram retirados das prateleiras caso não conseguissem o certificado da British Board of Film Classification. Mas quem eram essas pessoas para julgar o que pode ou não ser consumido como arte e entretenimento? Quais eram os guidelines adotados? Muito provavelmente o preconceito com o gênero e a total falta de compreensão do horror como cinema e arte.

Conservadores contra o terror.

Do outro lado do oceano, mais precisamente nos EUA, o horror já havia sido vitimado pela patrulha da moralidade algumas décadas antes, mais precisamente em 1954 quando após a publicação do livro Seduction of the Innocent, onde o psiquiatra Fredric Wertham apontava, através de estudos enviesados, que o consumo indiscriminado de histórias em quadrinhos tornava os jovens americanos em delinquentes. Na busca por um culpado pelo crescimento do número de crianças contraventoras, Wertham não percebeu que toda criança naquela época consumia gibis. Segundo sua lógica enviesada, não era a crise de um país pós-guerra, mas sim os gibis que estavam corrompendo as crianças americanas.

Naquela época um gênio editorial chamado Bill Gaines havia transformado a EC Comics, uma pequena editora de títulos educativos em uma mina de ouro. Seus gibis de horror como as lendárias Tales From The Crypt e Vault of Horror lideravam as vendas no mercado americano até que Wertham e seu livro desencadearam uma verdadeira caça às bruxas com direito a audiência no senado com Gaines e enormes fogueiras de revistas em quadrinhos em prol da comunidade americana, que se recusava a enxergar a raiz de seus problemas e só procuravam um bode expiatório.

Todo o circo midiático em torno do debate iniciado por Wertham levou as grandes editoras, que perdiam uma enorme fatia do mercado para a EC de Gaines, a criar um selo que atestava para os pais preocupados que seus filhinhos não iriam se deparar com qualquer material subversivo nas páginas dos gibis que levassem este selo na capa. Surgiu então o oportunista Comic Code Authority e seu pequeno manual de regras, milimetricamente cunhado para minar o domínio da EC nas vendas de gibis da época. Dentre os mais absurdos itens do manual, ficaram proibidos títulos com palavras como horror, terror e crime. Uma verdadeira facada nas costas de Gaines e seus sucessos de vendas.

Senador Kefauver, um homem de “bom gosto”.

Quer exemplo mais próximo? No Brasil, o terror sofreu pesadamente a pressão da censura, principalmente durante o período da Ditadura Militar, entre 1964 e 1985, oriundo do golpe. Durante este período, o filme devia ser submetido ao departamento de Censura da Polícia Federal onde seria avaliado para a obtenção do certificado de exibição. O censor avaliava o produto audiovisual, apontava cortes aleatórios onde quer que considerasse material subversivo e comunista e devolvia para os responsáveis que podiam, ou acatar as pontuações da Censura, ou engavetar seus filmes.

Dentre os principais representantes da batalha entre o horror e a Censura está o lendário cineasta José Mojica Marins, o Zé do Caixão, cuja luta o levou à beira da falência e ostracismo quando em 1969, seu filme, Ritual dos Sádicos/O Despertar da Besta foi retido pelo departamento de censura e ficou perdido por quase quinze anos. Mojica, que havia captado recursos de diversas fontes diferentes, perdeu tudo graças à visão limitada de um censor que considerou um dos filmes mais geniais do diretor, de mau gosto.

Mojica já havia enfrentado a censura mais vezes, sendo a mais emblemática aquela onde em 1967, teve de alterar o final de Esta Noite Encarnarei Em Teu Cadáver, obrigando o diretor a dar um desfecho “edificante” à película, com Zé do Caixão se arrependendo de seus pecados e pedindo perdão a Deus no momento de sua morte. O final original do filme foi reencenado em 2008 quando Encarnação do Demônio deu continuidade às desventuras do coveiro maldito.

À Meia-Noite Cortarei Teu Filme.

Com um pouco de autoridade, um carimbo e uma caneta na mão, um conservador funcionário do governo militar, alheio às reais qualidades do cinema de Mojica, prejudicou para sempre a carreira do diretor, que nunca se recuperou cem por cento do golpe levado em 1969. Isso sem falar nas pessoas que investiram no filme e toda a equipe envolvida na produção. Todos prejudicados por conceitos subjetivos de visão limítrofe como aqueles usados pelos censores no auge do período da ditadura, do cinema à música.

Portanto, em tempos onde A Origem do Mundo, uma pintura de Gustave Courbet de mais de cem anos de idade, causa comoção na Internet com pessoas indignadas com o nu representado em uma das pinturas mais controversas e belas da história da arte, e a população flerta com o fascismo religioso e armado, o horror volta a correr riscos nas mãos de uma população que insiste em tentar definir e delimitar o que é arte e o que é aceitável segundo seus próprios parâmetros.

Neste cenário, estamos todos sob a mira da censura, do totalitarismo, da repressão de ideias e pensamento. Quem produz e quem consome! Se você se diz fã do gênero, e aproveita sua liberdade de assistir filmes de terror no cinema ou no seu serviço streaming, preferido, pense bem, enquanto textos assim ainda podem ser publicados, dependendo de quem governar o país nos próximos quatro anos.


Rodrigo Ramos
Rodrigo Ramos
Designer, roteirista da HQ Carniça, coautor dos livros Medo de Palhaço e Narrativas do Medo. Fã e pesquisador de quadrinhos e cinema de horror. Tem mais gibis em casa do que espaço pra guardar e tempo pra ler, mas quem nunca?

9 Comentários

  1. eduardo lima disse:

    Existem também outros filmes de horror no Brasil atual, como milhares de pessoas abandonadas morrendo pelas mais variadas formas enquanto muitos acreditam que um criminoso condenado e sua quadrilha responsaveis pelo maior roubo da história do pais são a solução dos problemas. Tenebroso…

    • Rodrigo Ramos Rodrigo Ramos disse:

      Eduardo, então pra você, vale a pena sacrificar a liberdade para se resolver esses problemas? E qual a relação entre as duas coisas? Aliás, se houvesse mesmo esta relação, acredito que seria mais interessante para o “causador” destes problemas cercear a liberdade, não? Mas principalmente, o que tem uma coisa a ver com a outra!? Aqui o foco é a censura da arte e meios de expressão. Tão importante quanto emprego, educação e saúde. Só com liberdade você pode decidir mudar o partido que não te agrada.

    • Lucas disse:

      Amigo, as propostas de governo do Coiso não asseguram que esses problemas vão ser solucionados. Muito pelo contrário, só vão agravar eles mais ainda. E outra, levando em conta o flerte que o Coiso tem com o fascismo, é muito provável que, além da situação do nosso país piorar drasticamente, a gente não vá poder reclamar de nada. Pensa bem, cara. Ou tu escolhe a liberdade (mesmo que tu não concorde com as propostas do candidato que representa ela) ou a mordaça.

      • Rodrigo Ramos Rodrigo Ramos disse:

        É isso ae! Entre dois candidatos duvidosos, vamos pagar pra ver o que aquele que já declarou que “Ideologias são perigosas para o país”? Que já disse que em seu primeiro dia de governo iria fechar o Congresso? Já estivemos lá e sabemos no que deu. A liberdade deve prevalecer sempre!

  2. George disse:

    Filmes de ação dos anos 80 nunca correram risco de serem censurados? a cena da morte do Alex Murphy chocou
    pessoas em Robocop (1987) e considero Inferno Vermelho (1988) o mais violento do Arnold Schwarzenegger.

    • Rodrigo Ramos Rodrigo Ramos disse:

      Sim! Muito provavelmente acabariam entrando na lista. Principalmente aqueles mais violentos e escrachados. Vai passar só os filmes “edificantes” ou que passem as mensagens alinhadas com o Poder vigente. Sempre foi assim. Sempre será! A questão é, quem vai pagar pra ver?

  3. Marcus Vinícius disse:

    Agradeço à coragem do site de dar sua opinião sobre o futuro desse país. Estou preocupado com muitas coisas que virão à partir do novo governo (que já está praticamente definido), mas pouco me passou pela cabeça a possibilidade de nossos cineastas serem vítimas da represália dos intolerantes. Obviamente não tenho simpatia pelo adversário do futuro governo, que também considero um grupo insincero e corrupto, mas que tem poucas chances de chegar à presidência. Aquele que provavelmente chegará tem um histórico de não tolerar críticas, discussões e de instigar as massas em seus mais retrógrados valores, mesmo que não admita sua responsabilidade em tais ataques. Que os cineastas do horror estejam prontos com suas câmeras e seus olhares pertinentes para trazer à luz (através das sombras) a situação de um povo tão alheio à realidade como o nosso.

    • Rodrigo Ramos Rodrigo Ramos disse:

      Sim! As duas opções me parecem inócuas no que se refere à solução da nossa crise econômica e política, mas pelo menos uma delas eu posso trocar daqui a quatro anos. Já a outra, não temos tanta certeza… A crise social é política ao redor do mundo já tem apresentado uma safra de cinema de horror que há tempos não se via. O horror já está se voltando para dentro pra entender de onde vem toda essa violência e desprezo pelo outro. E isso tem rendido filmes incríveis! Abraços e vamos resistir!

  4. Calebe Lopes disse:

    Texto necessário. Como realizador e consumidor de filmes de gênero, só consigo imaginar e esperar o pior. Caberá aos cinemas de horror e ficção-científica brasileiros um papel fundamental de resistência, caso os dias maus que podem vir por aí se confirmem. Continuem com o excelente trabalho no site, e com essa consciência política tão necessária não apenas por conta dos dias atuais, mas por causa de um público tão reacionário como, infelizmente, o nicho do terror possui. A Luta Continua!

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