O medo comunista

A origem de um dos movimentos mais marcantes do cinema de horror há setenta anos, ecoando até hoje em um discurso alienado assustadoramente atual

Em tempos de polarização política, uma das principais bandeiras levantadas durante as discussões é a necessidade de se evitar uma “invasão comunista”. Mas ao contrário do que os menos familiarizados com discussões políticas podem imaginar, o anticomunismo é uma bandeira muito mais antiga do que os grupos de WhatsApp e os memes. O historiador Michael J. Heale aponta que o anticomunismo já faz parte do discurso político republicano nos EUA desde o século XIX, ganhando destaque, principalmente após a Revolução Russa.

E não é só aquele seu tio que adora fazer a piada do pavê nas festas de família ou aquele amigo que matava as aulas de história que se preocupam com a invasão vermelha. O anticomunismo fez parte de discursos que vão do Papa Pio XI ao próprio Hitler, mas foi logo após a Segunda Guerra mundial, ao início da Guerra Fria, que os Estados Unidos concentraram os esforços de uma de suas maiores forças na luta contra os comunistas. Foi assim que, durante a década de 1950, o cinema de ficção-científica e terror se tornou o palco de uma intensa propaganda anticomunista que, muito provavelmente, ecoa até os dias de hoje.

O aspecto velado da Guerra Fria intensificava o medo da infiltração dos comunistas dentro da sociedade americana. Eles poderiam estar em qualquer lugar, da igreja às escolas, da televisão ao próprio governo. Uma guerra travada no campo da espionagem, intensificava a paranoia dos americanos em enxergar o inimigo em todos os cantos. Isso fez com que o governo americano criasse em 1938, o Comitê de Atividades Antiamericanas, que deu origem a uma verdadeira caça às bruxas, revirando todos os cantos da sociedade americana na busca por comunistas infiltrados, querendo acabar com o american way of life.

Fujam desses comunixxtas do demônio!

O forte aspecto moral, de “Nós vs. Eles” que esta caçada adquiriu, fez com que surgisse uma necessidade de demonizar ainda mais os comunistas, atribuindo a eles os comportamentos mais devassos e imorais, arrebanhando assim um apoio cada vez maior da sociedade americana. A doutrinação se espalhou e atingiu o cinema, a literatura e os quadrinhos. Toda obra que pudesse ser considerada uma afronta a esse estilo de vida, só poderia ser fruto da mente de um comunista. E assim diversos diretores, atores, escritores e editores tiveram de se  apresentar diante do senado americano para justificar suas obras e seu posicionamento político.

Foi no auge do macarthismo, batizado devido a ferrenha campanha do senador Joseph McCarthy contra a ameaça bolchevique, que milhares de americanos foram considerados espiões da União Soviética, sendo levados às autoridades, muitas vezes por denúncias de seus próprios vizinhos e familiares. Essa política agressiva de investigação levou muitos trabalhadores à ruína devido a acusações infundadas baseadas em evidências inexistentes fruto apenas da paranóia que tomou conta dos EUA durante o período. Como o passar dos anos, muitas destas acusações e sentenças foram anuladas pela fragilidade e parcialidade dos julgamentos.

Durante os anos 50, Hollywood mergulhou de cabeça nas águas lisérgicas da propaganda anticomunista com um vasto ciclo de filmes de horror sci-fi que retratava através do medo da dominação da Terra por criaturas alienígenas os anseios da sociedade americana da época. Os marcianos, homenzinhos verdes desprezíveis, viajavam do seu planeta Vermelho (veja só…) até a Terra, quase sempre os EUA, para nos dominar e transformar tudo em uma colônia de trabalhadores sem identidade e escravos mentais. Uma mistura de embate ideológico com corrida espacial, numa verdadeira tradução ficcional da realidade.

Ei, você teria um tempo para ouvir a palavra de Marx?

A ideia de usar um gênero muito popular na época, que atingia os mais variados públicos, principalmente os jovens que poderiam ter suas frágeis mentes dominadas pelos comunistas, era brilhante. Isso demonstra a força do cinema de horror em retratar não só a sociedade em que vivemos, mas nossos medos e anseios mais profundos. Com o distanciamento histórico, percebemos como tudo era exagerado, ingênuo e histérico, mas para a sociedade americana da época, aquele medo era real e aqueles filmes representavam muito mais do que apenas entretenimento. Eram um alerta!

Isso fica claro quando analisamos a epítome da paranóia comunista no cinema, o filme Vampiros de Almas, de 1956. A película, dirigida por Don Siegel, apresenta uma pequena comunidade na Califórnia onde pessoas começam a suspeitar que seus entes queridos talvez tenham sido substituídos. O comportamento errático e sem emoções dos suspeitos leva o Dr. Miles Bennell e sua namorada Becky a empreender uma investigação que os colocará em curso  com a terrível realidade de que alienígenas estão infiltrados entre nós.

O filme é milimetricamente planejado como uma propaganda anticomunista, do uso do casal perfeito como heróis, onde a ocupação do mocinho como “doutor” reforça a superioridade do “american way” sobre os ideais alienígenas.  O comportamento estranho dos cidadãos substituídos representando a visão que os americanos tinham dos comunistas e sua falta de amor e individualidade que faz com que eles se pareçam com os americanos, mas ainda sejam algo diferente. Ironicamente, o próprio roteirista do filme, Daniel Mainwarning, foi perseguido pelo macarthismo alguns anos antes.

Neste frio, cai bem uma vodka, camaradas.

Outro grande filme do período que representa o medo do comunismo é A Bolha, de 1958. No filme, uma gigantesca massa amorfa e vermelha, sempre vermelha, cai do céu em uma pequena cidade da Pensilvânia e vai consumindo e assimilando tudo o que toca. Apesar de ser uma metáfora bastante óbvia aos ideais igualitários e de unidade do comunismo, o produtor Jack Harris sempre negou tal inspiração, inclusive brincando que talvez tenha sido por isso que o filme nunca passou na Rússia.

Essa prolífica safra do cinema americano também nos deram os alienígenas imperialistas de A Invasão dos Discos Voadores, o alienígena vampiro encontrado no gelo de O Monstro do Ártico, as plantas alienígenas que causam cegueira de O Terror Veio do Espaço e muitos outros. A lista de criaturas que servem como metáforas, algumas óbvias e outras nem tanto, para os perigos da ameaça comunista aos olhos da sociedade americana, é interminável. Só na década de 50, foram produzidos mais de 300 filmes de ficção científica e mais de 140 filmes de terror. Muitos destes usando a máquina hollywoodiana na luta contra os vermelhos devoradores de criancinhas.

As décadas se passaram, a Guerra Fria acabou, o muro de Berlin caiu e a ideologia de Marx aos poucos desapareceu dos gabinetes de governos ao redor do mundo e das republiquetas de bananas da América do sul, inclusive o maior país do continente, onde instituíram um golpe militar a fim de impedir a ascensão comunista, para hoje, em época de pleito eleitoral se tornar alvo de memes raivosos e historicamente incorretos disseminados nas redes sociais. Mas enquanto os anos 50 nos forneceu uma prolífica safra de filmes sobre os medos da Guerra Fria, os anos 2010 tem resgatado este medo político e social para criar filmes cada vez mais interessantes. Enquanto irmãos se digladiam nas ruas e nas redes defendendo suas visões, o cinema volta seu olhar para dentro de nós como indivíduos e sociedade, para entender essa onda de conservadorismo e volta a usar a política e religião como matéria-prima para criar o horror que, ainda que fictício, tem suas raízes em uma realidade ainda mais assustadora.


Rodrigo Ramos
Rodrigo Ramos
Designer, roteirista da HQ Carniça, coautor dos livros Medo de Palhaço e Narrativas do Medo. Fã e pesquisador de quadrinhos e cinema de horror. Tem mais gibis em casa do que espaço pra guardar e tempo pra ler, mas quem nunca?

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

%d blogueiros gostam disto: