O Paradoxo Bandersnatch

O controle da ilusão e a ilusão do controle no mais recente segmento de Black Mirror


Há algo sobre Black Mirror: Bandersnatch que me faz querer comentá-lo imensamente. Originalmente, escrevi esse texto direto em meu perfil do Facebook, mas decidi adaptá-lo e compartilhar minhas ideias com mais gente, principalmente com o fã do horror. Já adianto que, ao contrário do filme, o presente texto não lhes permite escolhas, salvo a de interromper a leitura aqui mesmo ou seguir até o fim. Contentem-se em não serem iludidos e comentar ao final!

Entendo que o interesse maior do roteirista e criador de Black Mirror, Charlie Brooker, é provocar no espectador o efeito mind blown – explodir a mente. Talvez não no começo, mas hoje em dia, com toda certeza. Para tal, propõe dilemas humanos envoltos em aparatos tecnológicos fora de controle ou controladores que, ou se assemelham a algo existente, ou são facilmente vislumbrados num futuro próximo.

Dentro das temporadas pré-Netflix era possível encontrar proposições realmente interessantes e bem construídas dentro do tempo que dispõem as séries dramáticas, sempre fazendo uso desses elementos supracitados para gerar o efeito desejado.

Pois as duas últimas temporadas me mostraram que Brooker está completamente inebriado de si mesmo e do poderio que uma produção da Netflix traz quanto a ampla audiência. Tão constante quanto os motes centrais – tecnologia e humanidade – estão os acenos para a própria obra e o público, cada vez mais interessado nos easter eggs e em um universo conectado hype do audiovisual  no momento – que numa obra coesa e boa.

Sinto que a experiência televisiva, quiçá a cinematográfica, tem se tornado cada vez mais pautada pelo sentimento de pertencimento. Numa época em que “fãs” realizam petições online demandando revisões no destino dos personagens de seus programas prediletos, ou clamam filmes para si, como no caso do novo Rei Leão, não me parece improvável que sentimentos como “eu encontrei isso naquele episódio” ou “eu entendi essa referência ao episódio tal” tornem-se também relevantes na própria concepção desses programas.

No caso de Black Mirror, cada gesto metalinguístico resulta no abandono de um elemento primordial da narrativa, produzindo episódios inconsistentes, mas igualmente abraçados pela comunidade em sua eterna avidez por encontrar pêlo em casca de ovo.

Aceitar ou aceitar ou aceitar ou aceitar ou aceitar ou aceitar ou aceitar ou aceitar ou aceitar ou aceitar

Bandersnatch oferta ao público o tão almejado controle sobre a obra. Cada escolha supostamente resulta em um universo de possibilidades – ou cinco finais diferentes. Sem dúvidas algo difícil de ser feito nesse formato, mais por questões práticas do que criativas, pois o conceito, inédito no cinema, é velho na literatura e nos jogos eletrônicos.

A fórmula está aí para quem quiser ver. Se bem me lembro, perdido nos confins continuamente expansivos do YouTube existem vídeos interativos que datam de alguns anos.

Meu contato inicial com o filme foi completamente só, pensando na melhor experiência. Na primeira escolha relevante – produzir o jogo na empresa ou em casa -, optei pela empresa. Aparentemente, escolha errada. Vi-me em uma espécie de “Dia da Marmota”, como no filme Feitiço do Tempo, voltando ao mesmo ponto para escolher novamente. Supus que, dotado de novo conhecimento, optar por trabalhar na empresa pudesse gerar um novo caminho. Ledo engano. Não há escolha. Ou você trabalha em casa, ou o filme não segue adiante.

Mesmo que incomodado, continuei e adotei uma postura bem própria do meu amor por filmes de terror em relação às decisões seguintes. Resolvi jogar o jogo pensando “O que Paimon faria?”. Busquei sempre as escolhas mais cruéis capazes de provocar sofrimento no protagonista e assombrar sua vida até os limites. Violência se tornou obrigatória: bastante sangue, gore e um ‘cadinho de insanidade, com direito a múltiplas aparições do demônio PAX. Mesmo que minhas opções o tenha direcionado para o horror, o resultado final foi… esquecível.

Passados alguns dias, revi o filme em companhia da minha namorada, mas de maneira passiva, apenas observando as escolhas dela, sem nada dizer.

Foi então que entendi que Bandersnatch é um completo engodo! A grosso modo, quase todos terão a mesma experiência, com pequenas variações na forma de uma ou outra cena. Certos caminhos, após enveredados, eliminam possibilidades e forçam-nos para este ou aquele final. As outras variantes de conclusão igualmente nada recompensadoras, de proposições rasas e acontecimentos banais.  

Trata-se de um caso claro de ilusão de escolhas. Como o livre arbítrio em si, talvez. Até me passou pela cabeça que tal ilusão pudesse ser o real produto vendido aqui. Mas, novamente, Brooker está em êxtase consigo mesmo. As referências, os detalhes e até os diálogos extremamente auto-indulgentes entregam-no por completo. Bandersnatch é o equivalente cinematográfico de Narciso admirando a si mesmo, porém na câmera frontal de seu smartphone.

Olha cara, fiz um jogo que tem o nome de um episódio de Black Mirror mas com umas letras trocada – Woooooooooooow

Um dos momentos em que isso é mais explícito é a cena em que o garoto lança um desafio aos seus controladores, exigindo que nos identifiquemos para ele. São concedidas duas opções de resposta: Netflix ou PAX. Os que escolhem Netflix devem explicar ao garoto a “genialidade” que é um serviço de streaming. Em última instância, chegaram a um dos finais mais debochados, porém mais subaproveitados dessa experiência.

A própria Netflix, partindo do seu algorítimo de “indicações”, tem nos tirado o poder de escolha, ao passo que empurra certos conteúdos em nossa direção, manipulando nosso consumo. Irônico, não é mesmo?

Se nos episódios do seriado essas questões cobram um preço, aqui esse preço é infinitamente maior. Falta ao filme atenção a forma cinematográfica e aos princípios da narrativa. As imagens não dizem nada e os personagens (de performances risíveis) são unidimensionais e incapazes de evoluir em quaisquer das supostas múltiplas dimensões.

Bandersnatch é capaz de, no máximo, entreter por algumas horas e surpreender aqui e ali. Nada que sobreviva ao enredo frágil e quebradiço, logo perdendo a força e a vontade de ficar naquela masturbação de tentar encontrar todos os finais e reviravoltas da trama (que não há). Em última instância, produz tanto impacto quanto ser atingido em cheio por uma bolota de algodão!

Mas claro que os mais fanáticos irão se debulhar nas milhões de micro-referências ao seriado, usá-lo como referência própria em sua vida e diálogos e falar que “nossa, Bandersnatch é tããããããããão Black Mirror!”.

Bora escolher uma trilha sonora que não conhecemos só pelo nome?


Daniel Rodriguez
Daniel Rodriguez
Formado em psicologia, professor, futuro roteirista e fã incondicional do terror, tanto no cinema, quanto na TV, literatura e quadrinhos. Mais que estudar o gênero, quer ser um historiador do horror para sua geração e futuras. E ao contrário do estereótipo do mineiro quieto, adora alimentar uma treta.

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