O universo em animação de Resident Evil

Testemunhe a verdadeira face cinematográfica das adaptações do game


Ao longo de 14 anos, o cineasta Paul W.S. Anderson comandou a bel-prazer os seis filmes que compõem a hexalogia Resident Evil em live-action, estrelando Milla Jovovich no papel de Alice e um set de atores coadjuvantes recorrentes representando diversos personagens icônicos do videogame. Essa franquia, apesar de inspirada nestes jogos, tomou rumos bem distintos e tem como característica primordial ser um lixo completo e desconexo.

Em paralelo, lá em 2008, surgiu uma outra franquia de longa-metragens, concebida pelos próprios japoneses da Capcom, como uma extensão do universo dos jogos. A grande diferença é que estes últimos são feitos inteiramente em computação gráfica, enquanto na versão americana a atriz principal era de verdade. Eu acho… Essa outra série contém apenas três filmes, sendo que o último, Resident Evil: A Vingança foi lançado este ano. Aqui, farei uma análise situando-os no universo dos games e em relação aos filmes americanos.

Biohazard e o Abecedário de Vírus

Aqui vai uma breve recapitulação: Resident Evil é um (O) jogo de Survival Horror, lançado em 1996 pela CAPCOM e que, resumidamente, é um dos maiores marcos na história dos videogames e no horror em sua faceta jogável. A série é imediatamente associada com os zumbis, inspiração que buscaram no recém-falecido mestre dos mortos-vivos, George A. Romero. No entanto, enquanto obra de horror, o jogo se ramifica em vários outros subgêneros, e é aí que reside sua genialidade (a bem da verdade, existem outros aspectos relacionados ao jogo em si que também são geniais). RE foi inspirado também no terror de casa-assombrada japonês Sweet Home, de Kiyoshi Kurosawa, de forma que toda a estética da casa cheia de mistérios nasce aí. Além disso, as monstruosidades oriundas dos vírus criados pela Umbrella transformam os corpos humanos de maneira bem característica do body horror. Existem ainda outros elementos de horror psicológico e, claro, do gore, que renderiam um outro artigo exclusivo.

Com 21 anos de existência, RE se desdobrou em um total de sete jogos e incontáveis spin-offs. A trama, que inicialmente era uma conspiração envolvendo experimentação com um vírus descoberto em uma flor africana, transformou-se em uma potente crítica a indústria farmacêutica na forma de horror e ação, conforme seus protagonistas, muitos oriundos de Raccoon City, se espalharam pelo mundo para combater o uso de armas biológicas e suas consequências. Na luta contra os B.O.Ws (Bio Organic Weapons), Leon, Chris, Jill e outros tantos se entregaram de corpo e alma contra corporações e cultos, sempre em prol da humanidade.

Existe então uma diferença gritante entre a franquia original e a cinematográfica. Enquanto a primeira é focada em um mundo que foi permanentemente marcado pelo uso de armas bio-orgânicas e dinâmicas de corrupção e poder, a última apresenta uma visão cínica de um mundo pós-apocalíptico que existe meramente por questão de estilo. Os humanos, na série de Anderson, são tão relevantes para a trama quanto os carros e as armas, que nem ele mesmo deve saber qual é.

Degeneração

Lá no longínquo e remoto ano de 2008, três anos depois do muito bem sucedido RE4 e um ano após Resident Evil 3: A Extinção chegar às telonas, nasceu o primeiro filme animado, Resident Evil: Degeneração, ou no original Baiohazâdo: Dijenerêshon. Como personagens centrais, temos um repeteco da dupla dinâmica Leon S. Kennedy e Claire Redfield, que já havia vivido altas aventuras lá em RE2, enquanto tentavam sobreviver aos mortos-vivos de Raccoon City.

Imagine só, na época pré-The Walking Dead, em que produções sobre o tema não davam em árvores, a satisfação de alguém que era fissurado tanto em zumbis quanto em RE4. Obviamente, este se tornou um dos meus filmes favoritos na época, tanto pela história, quanto pelos zumbis, e principalmente por Leon Motherfucking S. Kennedy.

Na trama, o planeta inteiro está vivendo sob tensão, com a ameaça dos B.O.Ws que estão aparecendo em vários lugares, da Índia aos Estados Unidos. Uma grande conspiração envolvendo terroristas, conchavos políticas e empresariais e até vingança pessoal, colocam o mundo em risco. Quando o T-Vírus é liberado em um aeroporto e dentro de um avião, uma empresa misteriosa surge com a solução mais conveniente: vacinas. Enquanto a aplicação das mesmas não se faz possível, um grupo de pessoas tenta sobreviver no terminal de aeroporto infestado de mortos. Dentre esses sobreviventes, está Claire Redfield, em seu segundo encontro com o vírus. Sob ordem direta do presidente dos Estados Unidos, Leon adentra o terminal pelo telhado e procede a fazer o que faz de melhor: chutar bundas a torto a direito.

O último ato leva esses personagens do aeroporto até um super-laboratório secreto, sem o qual não poderíamos caracterizar o filme como Resident Evil. Aqui, de forma similar a estrutura dos games, Leon precisa enfrentar o último chefão, um dos terroristas em posse do G-Vírus, aquele que transforma o amiguinho em uma aberração que parece o íncrivel Hulk versão John Carpenter.

Já nessa época era possível perceber uma tendência migratória dos jogos de para o campo da ação do que do horror, o que acaba por ser uma transição esperada, considerando os rumos do enredo. A ideia do survival horror e de enfrentar um inimigo desconhecido em uma situação inesperada, que vemos nos três primeiros jogos em especial, dá lugar a investidas de agentes secretos/militares experientes no combate contra B.O.Ws. Quando Leon vai até a Espanha para resgatar a filha do presidente em RE4, ou quando Chris Redfield viaja para a África em RE5, já não há aquele medo do desconhecido. O mesmo acontece aqui em Degeneração: no momento em que Leon é colocado em ação por ordem do presidente, ninguém duvidará de que ele é plenamente capaz de lidar com a situação. De certa forma, a fita é um dos principais precursores dessa transição de gêneros.

Resident Evil 2 feelings

Pouco antes de escrever esse artigo, voltei a assisti-lo depois de anos e preciso dizer que o tempo não lhe fez muito bem. A animação gráfica envelheceu mal nesses quase dez anos de vida, deixando-o com cara de jogo velho. Quem não tiver o mínimo de familiaridade com os personagens pode sentir uma certa falta de desenvolvimento dos mesmos, já que foram estabelecidos em outra mídia. Independente disso, é um longa divertido para todos os públicos.

Apesar de integrar o universo canônico, a única grande influência que a fita teve nos consoles é nessa questão de estilo a pequena ponte que faz com o game RE5, lançado em 2009, ao introduzir o conglomerado maligno Tricell.

Pouco depois, foi lançado nos Estados Unidos o filme Quarentena 2, sequência do remake ultra desnecessário do clássico moderno REC. Ao passo que lá na Espanha, REC 2 levou novos personagens para dentro do prédio e acrescentou elementos demoníacos, Quarentena 2 apareceu quase como uma adaptação desse jogo, colocando zumbis em um avião e terminal aéreo. Surpreendentemente, é um filme aceitável que poderia não carregar esse peso no nome.

Condenação

Com um longo intervalo de 4 anos, a sequência chegou em um contexto bem diferente quando houve uma verdadeira epidemia de Resident Evil. Em 2012, além dessa nova animação, foram lançados dois novos jogos, RE6 e RE: Revelations e também o quinto filme de Paul Anderson e Milla Jovovich, Resident Evil: Retribuição.

Ação é a palavra-chave em todas essas mídias. O terror ficou relegado ao tema “monstros e mortos-vivos”, mas a abordagem foi total e completamente redirecionada para a ação. Enquanto no live-action o apocalipse progredia sem nenhum critério que fizesse sentido, os jogos abraçaram completamente essa ideia de combate ao bioterrorismo e guerra biológica e RE: Condenação é um ponto alto dessa nova perspectiva.

Mais uma vez, Leon é o herói da rodada, só que o caso é um pouco mais complicado que zumbis em um aeroporto. O agente especial sob comando do presidente é enviado para um país do leste europeu em guerra. Antigo membro da União Soviética, a República Eslava do Leste vive um conflito bélico sinistro entre governo e rebeldes separatistas. Tema bem característico de sua época, mas com um twist de terror, que é a inclusão dos B.O.Ws na treta. No campo de guerra, zumbis e lickers são figuras marcantes. A missão de Leon, que acaba ficando sem suporte algum do governo, é encontrar a fonte dessas armas bio-orgânicas e destruí-las. Obviamente que a agenda do personagem vai de encontro com os objetivos dos terroristas e dos governantes, resultando em caos.

A animação dá um salto grande, como esperado para a época, o que é um ponto positivo e chegou a ganhar uma premiação no Japão por sua excelência. O traço de Leon é mais elaborado, porém acaba parecendo consideravelmente diferente do que havíamos visto até então. A ação, especialmente no último arco, é bem empolgante e aqueles monstros de visual Hellraiser contribuem para isso. E claro, existe também aquele laboratório secreto, caso contrário…

A trama também é bem mais complexa, mostrando evoluções para com o anterior. Revendo-o pela primeira vez após quase cinco anos, a maioria dos pontos positivos parece ter sobrevivido ao teste do tempo. Apesar de, pessoalmente, não ter me impactado tanto quanto o primeiro em termos de entretenimento e empolgação. Este é um filme melhor e mais maduro, ainda longe dos que o universo RE tem a oferecer, mas muito melhor que a bagunça da dupla Anderson e Jovovich. Nos créditos finais foram incluídas cutscenes do jogo RE6, que foi lançado uma semana depois, de forma que Condenação foi praticamente um prólogo.

Vilão do Hulk versão morto-vivo

Vingança

Se, em 2012, houve uma enxurrada de títulos, RE viveu um de seus maiores hiatos conteudísticos após esse período. Foi apenas em 2016 que a hexalogia retornou às telonas, com aquele fiasco de final que não merece muitos comentários. Já no mundo dos consoles e PCs, o sétimo RE só foi dar as caras em 2017, assim como a nova animação, RE: Vingança. Mas, novamente, há um contexto totalmente renovado e muito, mas muito importante para a franquia.

RE7 foi uma revolução dentro da franquia de games. Houve uma mudança total de perspectiva, troca de personagens, ambientação e até de história, pelo menos à primeira vista. Essa transformação mais que necessária tirou a série de um aparente fosso criativo no qual se encontrava, abrindo novas portas que até então ninguém imaginava. Além disso, foi anunciado o fim definitivo do Resident Evil de Paul Anderson e anunciado um reboot, o tão sonhado recomeço. Fica aqui uma previsão: os novos filmes serão voltados para o tema bioterrorismo e terão Leon como protagonista.

O terceiro e mais novo filme do universo em animação, ao contrário do sétimo jogo, manteve-se preso ao conceito de combate ao bioterrorismo. Pela primeira vez, Leon não era mais o protagonista, sendo parcialmente substituído por Chris Redfield, protagonista de RE e RE5. Leon ainda está muito presente e é um dos principais, mas Chris é o personagem motor, que coloca tudo em andamento. Vingança também conta com Rebecca Chambers, de RE0, ex-médica da S.T.A.R.S e agora uma especialista em virologia, ou mais específico no nosso querido T-Vírus.

O vilão da vez é um homem de negócios biruta e vingativo que quer punir o mundo pelo assassinato de sua esposa, cometido pelo governo americano em um ataque aéreo. O gênio do mal conseguiu bolar uma nova cepa do T-Vírus, misturado com o parasita La  Plaga, criando armas biológicas capazes de serem controladas e até curadas. Este seria o ápice de virologia que o mundo já viu, então Leon e Chris entram em cena.

É difícil não classificar Vingança como longa de ação, sendo que em momentos a maior inspiração estética parece ter sido filmes de super-herói e os clássicos modernos desse gênero, De Volta ao Jogo (aquele filme do John Wick) e Operação: Invasão . Há uma sequência de luta em que Leon e Chris lutam exatamente igual aos protagonistas dos respectivos filmes, só que contra zumbis. É, sem dúvidas, o melhor momento dos três RE em CGI.

Alguns dos meus momentos favoritos dessa franquia aparecem aqui, porém os piores momentos também. Enquanto a animação é maravilhosa, o roteiro é embaraçoso, extremamente clichê. A progressão de ação, a grande maioria dos diálogos, as situações e comportamentos dos personagens são ultra básicos, como se não houvesse esforço criativo algum envolvido. Se a cena acima mencionada é pura energia e empolgação, por vezes Leon foi retratado como um super-herói. Ele realiza feitos mais impressionantes que os Vingadores humanos Gavião Arqueiro e Viúva Negra. A cena em que é perseguido por super cães zumbi enquanto pilota uma motoca, além de ter uma animação bem porca e chupada de outros filmes, parecia ser protagonizada por uma versão motorizada de Legolas.

Exageros à parte, a trama segue o mesmo conceito que já havia sido trabalhado no microcosmo do jogo desde o primeiro filme digital. A mudança de protagonismo de Leon para Chris acompanha o ritmo do último jogo, que também conta com participação especial de Redfield. Uma expansão (que hoje chamam de DLC) protagonizada por ele está a caminho, então faz todo sentido que seja a bola da vez.

Futuro

Depois de 2017, o futuro da marca Resident Evil tornou-se uma incógnita. Nada se sabe sobre a nova franquia que se iniciará em breve, a não ser que ele será produzido por James Wan, que também está atrelado ao novo filme de Mortal Kombat. Com o sucesso de RE7, fica a dúvida de qual rumo o jogo tomará, se persiste nessa nova perspectiva e novos personagens ou voltará para o que era antes. A mesma coisa para os filmes animados, que provavelmente mudará um pouco de foco, seguindo o caminho dos games. Mas esta é apenas uma previsão.

Degeneração, Condenação e Vingança são filmes essenciais para qualquer entusiasta de RE. Para outros, que não conhecem muito desse mundo tenebroso, fica um certo estranhamento e sensação de vazio em relação aos personagens e elementos como a BSAA ou Las Plagas. Mas a curiosidade suscitada pode sempre levar um novo público atrás dos jogos ou da própria lore.

Comandos em Ação vs Zumbis


Daniel Rodriguez
Daniel Rodriguez
Fã de horror em suas diferentes formas, principalmente cinematográfica. Incapaz de adentrar igrejas, pelo risco de combustão espontânea, dedica sua vida pagã a ensinar inglês, escrever sobre o gênero e, mais recentemente, fazer seus próprios filmes.

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