Os zumbis de George Romero somos nós

Cineasta provou que o morto-vivo é muito mais do que só um rostinho em decomposição


George A. Romero nos se foi no último domingo, deixando um legado importantíssimo não só para o cinema de terror, mas também toda a cultura pop ao criar a mitologia do zumbi canibal que conhecemos hoje. Mas por trás daquele andar torpe e fome insaciável por carne humana, há um verdadeiro mensageiro do apocalipse sociocultural que serve como alegoria para temas como racismo, ruptura da autoridade e dos direitos civis e políticos, consumismo, política externa, machismo, egoísmo e intolerância, entre outros.

Difícil acreditar que um tosco corpo putrefato ignóbil possa, mais do que qualquer outra criatura do cinema do horror – quiçá do cinema em geral – representar tão bem as fobias da sociedade de sua época? Pois bem, a partir dos seis filmes do monstro dirigidos por Romero, os zumbis passaram a ter um papel importantíssimo como uma metáfora social nos cinemas.

A Noite dos Mortos-Vivos (1968)

Na novelização de A Noite dos Mortos-Vivos, lançado aqui no Brasil pela Darkside Books, John Russo, o roteirista do clássico seminal, ao tentar contextualizar como surgiu o filme que seria “o responsável pelo nascimento do terror norte-americano da era moderna”, segundo palavras de Jamie Russell, autor de “Zumbi – O Livro dos Mortos”, espécie de bíblia sobre o assunto, explica que: “nos anos de 1950, por causa da vaporização de Hiroshima e Nagasaki durante a Segunda Guerra Mundial, todo mundo tinha medo de bombas nucleares e a energia nuclear – principalmente aquela que dava errado. A psicologia do medo estava pronta para ser explorada, e deu origem ao gênero ‘monstro mutante’ dos filmes de terror (…). Bem, não queríamos que nosso primeiro filme fosse assim. (…) Para fazer isso, tivemos que ser fiéis tanto ao nosso conceito como à nossa realidade”.

Essa fidelidade para com a realidade fez com que A Noite dos Mortos-Vivos, ao criar a figura do zumbi como um monstro canibal, escancarasse com o mais puro niilismo o terror cotidiano da América, em uma mordaz crítica social onde o monstro na verdade era seus vizinhos, amigos e família, que saíam de suas covas para nos devorar. Isso sem contar a forma como coloca à prova a sobrevivência do mais forte, o egoísmo da autopreservação e o fracasso em cooperar, os conflitos morais, religiosos e raciais, ousando apresentar, em pleno final dos anos 60, um protagonista negro.

Tudo isso tendo como pano de fundo a ideia velada do que acontece quando ocorre um ataque repentino contra o establishment, resultando no colapso total da ordem social. O que irá prevalecer é a truculência, como mostra o bando de rednecks e o xerife republicano que estão lá pra resolver a situação à bala e empilhar os corpos. Enquanto isso, Lyndon Johnson mantinha sua ofensiva no Vietnã, sem imaginar que o conflito no sudeste asiático iria enterrar de vez o “sonho americano”. Os momentos finais do filme e a sequência de fotos durante os créditos questionam duramente a autoridade policial e as forças da lei, remetendo não apenas à guerra mas também aos conflitos raciais de Watts, Los Angeles, em agosto de 1965.

A crítica social vem te pegar, Barbra!

Despertar dos Mortos (1978)

Se em A Noite dos Mortos Vivos, Romero começou sua revolução em decomposição que mudaria os rumos da história do cinema de terror, em Despertar dos Mortos ele realiza sua obra-prima, pedra angular do subgênero para todo o sempre, deixando claro pra geral que os zumbis somos nós e nós somos os zumbis, ajustando como foco de seu discurso o consumismo, a alienação em massa e a ruptura social completa.

Logo no começo você vê que os zumbis tomaram o controle e os seres humanos praticamente viraram seu gado, perdendo essa luta. Até que em um dos momentos do filme, um polêmico entrevistado em um programa de TV diz que a situação poderia ter sido contornada muito facilmente se as pessoas tivessem deixado a emoção e a moral religiosa de lado, e simplesmente matassem os zumbis, independente de serem parentes ou amigos.

Praticamente o filme todo se passa dentro de um shopping center, ideia surgida em Romero ao visitar um shopping vazio em Monroeville, Pensilvânia, por conta de uma reunião com um parceiro de negócios que tinha um escritório naquele complexo gigantesco. Os zumbis são apresentados como consumidores dementes numa sátira cartunesca para explorar o egoísmo humano e todo o tédio das relações interpessoais e da explosão do consumismo exacerbado, mostrando por A+B que é impossível salvar a humanidade do capitalismo desenfreado, devido à pura aceitação de algo (o shopping, no caso) que lhe provê tudo o que precisa.

Mesmo com o mundo caindo no mais puro caos social, os seres humanos são escravos dos seus mais primitivos desejos de consumo, que fica muito claro quando os protagonistas começam a saquear uma grande loja de departamento e usufruir dos bens para satisfazer suas necessidades mais mesquinhas, como desfilar novas roupas, jantares chiques e tudo que tem direito. Apesar da síndrome do isolamento, enquanto eles tiverem bens materiais para os distraírem, está tudo de boas.

Os próprios mortos, que retornam ao shopping por alguma lembrança consumista embaralhada de seu subconsciente, sem a menor vontade própria, ficam zanzando pelos corredores e escadas rolantes enquanto o alto-falante anuncia alguma liquidação, ou se debatendo em frente de alguma megastore trancada. Não te lembra o comportamento de um grupo ávido em comprar o novo iPhone no dia de seu lançamento ou em uma manhã de Black Friday esperando a abertura das lojas?

Venha correndo Mappin, é a liquidação!

Dia dos Mortos (1985)

A humanidade finalmente perdeu a batalha e o mundo tornou-se um lugar inóspito e tomado em Dia dos Mortos, que fechava aquela que seria até então a sua trilogia.

A crítica social inerente à sobrevivência humana continua ali escancarada, violando códigos de ética (principalmente médica e científica), conduta, raça e credo, mas o tom do longa dessa vez é muito mais depressivo, soturno, destoando completamente do estereótipo do zumbi nos anos 80, alçado ao status de fenômeno da cultura pop graças ao Thriller de Michael Jackson e aos caricatos comedores de cérebro de A Volta dos Mortos-Vivos.

Aqui os heróis muito se misturam com os vilões, isolados em um bunker militar, vivendo às raias da loucura, cercados por uma estafa mental e um descontrole emocional, como se manter o fardo da humanidade fosse uma bomba relógio prestes a explodir. E também há de se reparar que o começo do filme se passa exatamente na Flórida, o ponto mais próximo nos EUA das ilhas caribenhas, uma volta que o ciclo do monstro dá em torno de sua própria origem, mesmo que subentendido.

Mais uma vez, o grande mal à humanidade não são os zumbis e sim os próprios homens. O que coloca tudo a perder e joga a merda no ventilador de vez para a catástrofe final é a mesquinharia, a intolerância e as atitudes impensadas dos seres humanos. Enquanto em A Noite… a inconsequência da explosão da bomba de gasolina misturada ao descontrole emocional decretam o fim do grupo, e em Despertar… a invasão dos motoqueiros ao shopping é seguida pelo ataque dos zumbis, aqui um estágio avançadíssimo de estresse faz com que um personagem, que é justamente o bendito do latino, mande tudo às favas e abra os portões para que os cadáveres invadam o complexo e façam seu banquete.

O que salta aos olhos é como Romero inverte o papel do mocinho e do bandido fazendo com a gente simpatize com os zumbis, principalmente por conta de Bub – objeto de experimento social que tenta ser domesticado – uma vez que seus pares são vivissecados, explorados, humilhados e trucidados em nome de uma suposta pesquisa científica…

Ouça as recomendações do Spotify para você!

Terra dos Mortos (2005)

É o fim do mundo como nós conhecemos. Romero encerra sua agora tetralogia e coloca dessa vez o dedo na ferida da luta de classes, a corrupção, ganância, corporativismo e a política externa americana da Era Bush.

Enquanto a humanidade perdeu a batalha de vez contra os zumbis, que começam a evoluir e se organizar socialmente, um grupo de humanos se apinha em condições de subsistência nas ruas, ao mesmo tempo em que os mais afortunados moram em uma prédio luxuoso com restaurantes chiques, shopping centers e todo um clima bizarro de normalidade dos “velhos tempos”, em uma sociedade governada por um CEO, um GESTOR inescrupuloso, que lucra com a miséria dos sobreviventes em meio aos jogos, vício e prostituição.

Pra manter os desfavorecidos no cabresto, claro, aquela velha política do pão e circo, enquanto usa exército, mercenários e um veículo armado até os dentes pra garantir a segurança e a satisfação de todos — uma cerca elétrica (que poderia bem ser um muro) mantém os zumbis devidamente afastados.

Na mira de Romero está o então sistema político americano de George W. Bush e seu complexo militar. Kaufman, o vilão de Dennis Hopper, é uma mistura de Bush com o ex-Secretário de Defesa Donald Rumsfeld (e hoje lembra tanto ooooooutro Donald). O mais importante, para este emblemático líder, é “não negociar com terroristas”, como ele frisa para o personagem latino, que tem negado o direito de entrar no complexo e conseguir seu apartamento, mesmo após anos de serviços prestados e o dinheiro necessário para tal. Afinal, “você não é o tipo certo de pessoa”.

Somos iguais

Diário dos Mortos (2007)

Em sua nova tentativa de recriar um universo de mortos-vivos, ao fim de sua tetralogia original, Romero acertou de novo na veia. Visto hoje, dez anos depois, Diário dos Mortos não poderia parecer mais atual, em tempos de digital influencers, superexposição na Internet e nas redes sociais, celebridades instantâneas online, YouTubers, busca por audiência, cliques, shares, engajamento e relevância.

A sociedade do espetáculo vista em um dos precursores do found footage moderno, que representa perfeitamente a premissa do “se não foi gravado, não aconteceu”. Antecipa uma década, de forma precisa e voraz, o que acontece hoje nas redes sociais, no Facebook e Instagram, onde se você não tirou a foto, não fez um check in, não postou sua opinião ou textão sobre tal assunto, não fez um Snap ou Stories, simplesmente você não viveu aquilo. Se todos não ficarem sabendo, não importa e não se tornou factível. Eleva à enésima potência os conceitos de simulacros e simulações de Baudrillard.

O contexto do zumbi está ali apenas pela fantasia, pelo lúdico do horror, pela representação de uma situação extrema, sem contar que outro subtexto, adorado pelo mestre, ainda se encontra na sua obra: os humanos, ah os humanos, esses são sempre piores que suas contrapartes putrefatas que se levantam do túmulo. E nos momentos de sobrevivência é que conhecemos nossa verdadeira natureza.

O estudante de cinema, pego no meio da hecatombe com a câmera na mão, é obcecado – mais do que com sua própria segurança e de seus colegas – e sente-se no dever cívico de mostrar a verdade sobre a insurreição dos mortos para todo mundo pela Internet, enquanto informações erradas são transmitidas pela mídia oficial manipuladora. Mas apesar do pretenso altruísmo, sua verdadeira intenção mesmo, como fica claro, é ganhar milhões de views.

Invertendo seu próprio conceito, aqui os mortos-vivos são colocados em segundo plano. Não são alegorias do comentário social do diretor como outrora, e estão lá para o entretenimento e para o gore, mostrando que nessa evolução cinematográfica de mais de 80 anos, já assumimos o protagonismo e nos tornamos os zumbis.

Peraí que vou fazer um vídeo, subir nas minhas redes e colocar mídia!

Ilha dos Mortos (2009)

Pegando o gancho da hecatombe deixada em Diário dos Mortos, Romero esquece de vez os cadáveres ambulantes para focar no conflito humano da luta pela sobrevivência, e principalmente, pela posse territorial.

Uma espécie de versão pós-apocalíptica do conflito Hartfield-McCoy, onde duas famílias sulistas armadas até os dentes disputam à bala o controle de uma ilha, cada um defendendo seu punhado de terra e principalmente, suas ideologias, motivadas desde poder até preceitos religiosos, provando que mesmo com o mundo indo para o vinagre, a posse de bens e o cabresto ainda é o que importa.

Apesar de ser, dos filmes do mestre, o mais fraco e de péssima recepção de público e crítica, Ilha dos Mortos crava ainda mais a questão da política territorialista republicana e a doutrina armamentista yankee, ainda resquícios dos oito anos de Governo Bush. Com as leis, convenções sociais e estado de direito evaporando, é a pólvora quem vai governar o mundo, como num retrocesso ao Oeste Selvagem, onde honra, justiça e vingança são levados às últimas consequências, pouco importando as motivações ou suas razões, independente dos estragos e perdas.

O solilóquio final deixa bem claro essa mensagem, escancarando que depois de um tempo, as pessoas continuam se matando por uma bandeira (leia-se território, religião, petróleo, etc), sem ao menos lembrar quem a fincou ali e o porquê.

Um brinde ao fim do mundo!

 


Marcos Brolia
Marcos Brolia
Jornalista, editor e idealizador do 101HM, é fanático por filmes de terror (ah, vá!) desde que se conhece por gente, dos classudos aos mais bagaceiras. Adoraria ter um papo de boteco com H.P. Lovecraft e virar um shot toda vez que ele falasse a palavra “indizível”.

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