Devilman Crybaby: Para o Inferno, Mortais!

Alucinógeno, diabólico e genial


Entendo a crítica cinematográfica (e de outras artes) como um exercício reflexivo, no qual tentamos, de alguma maneira, dar sentido ao que assistimos, inspirado pelas nossas próprias experiências de vida ou com aquela arte em particular. Cada adjetivo empregado na descrição de um filme, série ou livro, nasce do entendimento daquele que escreve dentro do contexto.

Ao descrever um filme gore como perfeito, por exemplo, entende-se que ele é especialmente bem sucedido no uso do gore. Dessa forma, a perfeição atribuída a A Bruxa, por sua atmosfera ímpar, não é a mesma que descreve as mutilações exorbitantes de Fome Animal.

Essa pequena reflexão, um tanto quanto óbvia e simplória quando se pensa a respeito, me veio a cabeça ao pensar Devilman: Crybaby como uma obra genial. Perguntei-me quais seriam os meus próprios parâmetros para fazer tal declaração (compartilhada por alguns, por outros nem tanto).

Para os leitores que desconhecem o tema da vez, trata-se de um projeto “original” Netflix, um revival de um mangá e anime japonês dos mais icônicos, de nome Devilman. O conceito por trás dessa série cujo nome já diz muita coisa, envolve um universo em que demônios são seres metamorfos e disformes, capazes de absorverem uns aos outros, modificando seus corpos em figuras horripilantes.

Esses seres foram supostamente extintos em uma época que precede a Era do Gelo. Porém, a grande aptidão adaptativa dessas aberrações garantiu que sobrevivessem até os dias de hoje, onde aprenderam a possuir seres humanos, em um esforço para retomarem a superfície que um dia dominaram.

Em resposta a essa ressurgência diabólica, Ryo, o filho de um arqueólogo que morreu após chegar perto demais da verdade secreta sobre esses seres, se junta a seu amigo de infância Akira. Conhecendo o coração puro do companheiro, Ryo propõe a ele que se una à um demônio, na tentativa de criar um ser poderoso o suficiente para combater os outros. Akira topa a parada e, literalmente em um festival de violência, se funde a Amon, um dos mais poderosos do inferno. Surge assim o Devilman, meio homem, meio demônio.

A obra de Go Nagai nasceu em um paradigma de animação oriental completamente distinto do existente nos dia de hoje. A violência escabrosa que borbulha dentro de Devilman e outros títulos da mesma época, tornou-se limitada a alguns dos animes e mangás de horror menos populares. Por mais inesperado que isso possa parecer, uma das principais inspirações que culminaram nessa criação foram as deslumbrantes ilustrações de Gustave Doré, retratando a Divina Comédia de Dante. Por sua vez, Nagai influenciou títulos de excepcional qualidade, como Berserk, Evangelion e Zetman.

Nem demônio, nem humano

Crybaby é, basicamente, um remake, adotando uma temporalidade bem contemporânea, em prol da pegada setentista e oitentista que marcou o mangá e as animações mais famosas. O mesmo plot já havia sido recontado nos anos 80 e 90 em dois OVA – Original Video Animation – The Birth and Demon Bird, que se equiparam aos cinco primeiros episódios da versão atual.

O principal diferencial desta nova série reside na animação dos traços completamente particulares de Masaaki Yuasa. Em comparação com outras animações, especialmente as mais novas e de alto calibre, vide Ataque dos Titãs, o desenho de Yuasa parece feio, pobre em detalhes e desinteressante. A realidade não poderia ser mais diferente. O que temos aqui é uma quebra total do paradigma estético vigente na produção japonesa, a que estamos tão acostumados.

Os personagens possuem formas esguias, muito mais simplórias que os próprios cenários em que estão inseridos. No entanto, isso permite uma movimentação fluida e estranhamente incomum. Fluidez e mobilidade são palavras-chave para descrever as cenas de ação em que as formas geométricas, ângulos bem definidos e articulações realistas são substituídos por um fluxo contínuo e repetitivo, que provoca todo tipo de sensação.

Exemplo marcante disso, ainda abrangendo as formas humanas, são as cenas de corrida envolvendo Miki e Akira. O deslocamento deles se distancia de qualquer outra forma de retratação do esporte em qualquer mídia e ainda mais da realidade. É uma distância tão imensa que, a priori, pode aparentar ridícula ou cômica. A verdade é que o traço acompanha a própria dinâmica desse universo metamorfo, em que o corpo não é imaginado como um objeto concreto, imanente.  

Nos momentos em que representa os demônios e suas transformações, esse desenho tão particular se mostra pra lá de efetivo, permitindo alterações monstruosas e extremamente impactantes. Nesse ponto, o OVA “Birth“ de 1987 já se destacava incrivelmente, tanto no detalhe das formas, quantos nas cores diversas, presentes nessas criaturas. Mas na versão de 2018, esse frenesi de cores e contornos se espalhou por todos os âmbitos. Acompanha aí uma trilha sonora turbulenta de synth music que intensifica o ritmo vertiginoso e quase convulsivo com que tudo acontece.

Durante a primeira metade da temporada, em especial, há um foco grande nos personagens humanos que compõem o cotidiano e ambiente de vida de Akira, antes e depois de sua transformação em Devilman. Há um especial carinho do escritor por um grupo de jovens rappers, cujas canções abrem mais de um episódio, com letras que discutem o modo de vida dos mesmos, numa espécie de última apresentação da humanidade antes de seu fim iminente.

Por mais que os combates demoníacos tenham seu lugar garantido, o anime também se distingue por enfoques diferenciados, com a utilização constante de planos repetitivos, contínuos ou até estáticos, como o professor de educação física que olha fixamente para o céu, com apenas sua cabeça enquadrada abaixo de um grande espaço vazio, ou as intermináveis corridas de Miki, com os seios a balançar, desconcertantemente.

Detalhe para o teor extremamente sexualizado imbuído nos episódios. Apesar de excessivamente pornográfico, é uma característica que sempre funciona sob um propósito. O tempo inteiro, os criadores ressaltam esse sentimento de estranhamento no público, que irremediavelmente vai se sentir forçado para fora do lugar comum frente imagens tão singulares.

Para os fãs do body horror, gênero tão pouco explorado no cinema nos dias de hoje, a constante destruição, reformulação e reimaginação da carne e dos traços humanos, perpetradas pelos akuma, são um prato cheio. Devilman: Crybaby ainda reserva um caráter apocalíptico portentoso e impremeditável.

Depois dessas reflexões, ainda pensando na experiência de assistir a curta temporada imerso na loucura plástica proposta por seus criadores, me sinto confortável em dizer que Devilman: Crybaby, é um anime genial!

Tá bom, mais demônio que humano…


Daniel Rodriguez
Daniel Rodriguez
Fã de horror em suas diferentes formas, principalmente cinematográfica. Incapaz de adentrar igrejas, pelo risco de combustão espontânea, dedica sua vida pagã a ensinar inglês, escrever sobre o gênero e, mais recentemente, fazer seus próprios filmes.

2 Comentários

  1. Alberto Carlos disse:

    Parabéns.

  2. Roberto Vasconcelos Eluan disse:

    Interessante. O último anime que tinha me chamado atenção foi One Punch Man. Animes de terror aqui no Huezil são raridade. Darei uma olhada.

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