Uma parceria de horror e amizade

George A. Romero e Stephen King eram unha e carne… e sangue!


“É triste ouvir que meu colaborador favorito – e bom e velho amigo – George Romero morreu. George, nunca mais haverá um outro como você.”

Doloroso ver Stephen King, meu escritor favorito, lamentando a morte de alguém em suas redes sociais, mas o pior é saber o quanto essa perda também está doendo em mim e em centenas de milhares de fãs ao redor do mundo. Afinal, perdemos o pai dos zumbis, George A. Romero, um dos diretores mais influentes no gênero.

Falar da influência do diretor, no entanto, é chover no molhado: o cara foi responsável por mostrar uma faceta dos mortos-vivos desconhecida até então pelo público, e foi exatamente essa imagem que os alavancou diretamente para um lugar cativo na cultura pop num geral. Se hoje vemos os zumbis como criaturas voltadas do além-túmulo sedentas por cérebro, e não como pessoas enfeitiçadas por algum tipo de magia, é graças a Romero, que mandou um “vudu é pra jacu” e criou toda uma nova mitologia para esses seres, que inspirou um sem número de obras, filmes, diretores, séries, jogos e HQs ao longo dos anos.

Mas Romero também tinha lá suas bagagens, e foi exatamente uma dessas suas referências pessoais que o levou a firmar amizade com o Stephen King: o amor pelos quadrinhos. Ambos se conheceram na década de 70, quando Romero estava sendo sondado para dirigir a adaptação cinematográfica de A Hora do Vampiro, segundo livro de King, publicado em 75. A distribuidora Warner Bros, no entanto, decidiu então lançar o filme direto para TV  e Romero pulou fora, pois achava que não conseguiria fazê-lo da maneira que gostaria, devido às restrições da rede de televisão e do orçamento, e Tobe Hooper assumiu o que se tornou Os Vampiros de Salem.

Se juntos já causaram, imagina juntos?

O amor pelo horror, no entanto, uniu os dois, que começaram a criar juntos um projeto em que levaria o fascínio de ambos pelos quadrinhos da EC Comics para as telonas. Então, alguns anos depois, quando as agendas bateram, finalmente nasceu Creepshow – Show de Horrores, em 1982. Com roteiros escritos por King, que chega até mesmo a atuar em um dos segmentos, “A Morte Solitária de Jordy Verrill”, e Romero na direção, a antologia fez um enorme sucesso e é, até hoje um dos queridinhos dos fãs de horror, por ser uma baita homenagem da dupla ao gênero. Cinco anos depois, o projeto ganhou uma continuação, Creepshow 2, dessa vez  com Romero responsável pelos roteiros, baseando-se em contos do próprio King, sendo dirigida por Michael Gornick (que havia sido diretor de fotografia do primeiro filme e em outras obras dirigidas pelo mestre).

A segunda parte dessa dobradinha só rolou onze anos após o primeiro filme juntos, dessa vez com a adaptação A Metade Negra. King escreveu esse livro, o último daquela sua famigerada fase pudim de cachaça, justamente para exteriorizar seus próprios problemas, já que ele conta a história de um escritor alcoólatra que utiliza um pseudônimo e, depois de ser desmascarado por um fã, decide matá-lo (o seu alter ego, não o fã) de maneira figurada. Basicamente, o livro mostra algumas das emoções de King ao ter sua outra identidade literária, Richard Bachman, descoberta pelo seu público. Apesar de mediana, no meu ponto de vista, a história consegue ser muito bem conduzida por Romero, que tirou leite de pedra e conseguiu entregar um ótimo trabalho, tendo em vista que são poucas as adaptações que são realmente consideradas dignas de um Troféu Golden.

Desde então, ambos sempre tentaram trabalhar juntos novamente, sem sucesso, infelizmente. O diretor sempre mostrou desejo em se juntar a King, e esse por sua vez, durante anos alimentou os planos de ver Romero dirigindo A Dança da Morte, seu livro mais extenso, que acabou virando uma mini série em 1994. Buick 8 e The Girl Who Loved Tom Gordon, por exemplo, são livros que Romero cogitou adaptar, mas nada foi concretizado.

“Acho que nos demos bem automaticamente porque ambos somos caras que vivem ali pelo meio, evitando Nova York e LA”, disse Romero,  certa vez em uma entrevista. “Nós dois podemos sentar e dar risada das visões mais horripilantes, provavelmente porque nenhum de nós pode disfarçar seu prazer – e sua surpresa – com o fato de não ser uma vítima. Acho que ambos jogamos ao público nossos pesadelos para que este os consuma.”

Infelizmente, para nós, a parceria encerrou-se no último domingo. Essa que, mesmo curta, tecnicamente falando, rendeu um dos frutos mais raros, num mercado tão voraz quando o cinematográfico. Rendeu uma amizade, sincera e verdadeira, que perdurou por anos, ligada e construída por um condutor em comum: o amor pelo horror e a paixão pelo que faziam.

BFFs ♥


Niia Silveira
Niia Silveira
Mentalidade de Jack Torrance num corpinho de Annie Wilkes. Foi criada em locadoras e bibliotecas e se apegou ao universo do horror ainda pequena. Não cresceu muito em estatura de lá pra cá, mas sua paixão por sangue e desgraça aumenta a cada dia.

2 Comentários

  1. Neto Ribeiro disse:

    Texto maravilhoso, Niia. Embora eu não seja um dos maiores fãs do Romero, sua importância pro gênero e pro cinema num modo geral é imprescindível.

    • Niia Silveira disse:

      Que bom que você curtiu, Neto. Realmente, Romero é um desses diretores que farão uma falta absurda para a sétima arte num geral.

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