Por que agimos como se o terror socialmente consciente fosse algo novo?

Texto escrito por John Squires para o site Bloody-Disgusting e traduzido por Guilherme Lopes

 

O mundo do horror, assim como a bilheteria, foi completamente dominado no começo do ano por Corra!, de Jordan Peele, um dos filmes de terror mais aclamados pela crítica de todos os tempos. Incontáveis artigos e análises surgiram pela Internet em seu fim de semana de estreia, o que foi ótimo de testemunhar. Mesmo sites e críticos que não oferecem conteúdos do horror não puderam negar Corra!, que é, sem dúvida, um dos mais impressionantes filmes de estreia de um diretor que já vimos.

Por que todo mundo amou o filme? Bom, para começar, é um baita filme! Ele é único, tem uma perspectiva atual, e corajosamente original, misturando elementos do passado com algo totalmente novo, e mais importante, com algo a dizer. Você poderia dizer que é o filme perfeito lançado no timing perfeito, exorcizando efetivamente alguns dos demônios sociais que rondam nossas mentes, agora, talvez mais do que nunca aqui nos EUA. Com seu filme de debute, Jordan Peele determina sua visão sobre o racismo (particularmente do sujeito liberal que veste um sorriso em sua cara de “bem vindo”), usando o horror para pegar pesado com temas como a escravidão e a apropriação da cultura negra.

Alguns críticos pela internet a fora que, admitidamente, são muito mais espertos que eu, foram mais fundo no real sentido de Corra! durante toda a sua semana de estreia, então minha intenção não é escrever mais uma destas análises profundas. Isso já foi feito melhor do que eu poderia ter escrito. Mas como um adendo, eu tomei conhecimento de algo interessante que gostaria de adicionar.

Desde de que Corra! foi lançado, eu venho passando por um bocado de artigos que louvam o filme por ser esperto e ter uma consciência social, duas coisas que ele definitivamente tem. Mas estes elogios vêm às custas, bem, do gênero do horror no geral. Embora elogiando Corra!, muitos críticos (a maioria deles nunca deram  mínima atenção para o gênero ao longo dos anos), têm feito pouco caso do horror, apresentando a ideia de que os filmes de terror nunca possuem nenhum sentido profundo ou significado num mundo pré-Corra!. Muitos destes artigos tem apontado como os filmes de terror tendem a ser bobos, e ponderam que estaria pavimentando um novo caminho para uma nova e boa leva do horror. Uau, mas que novela! BONS filmes de terror?! Isso existe?!

O que é muito frustrante nestes artigos, como um fã do horror de longa data, é que o comentário social e político tem sido inerente ao gênero desde de seus primórdios – o  que, aparentemente, surpreendeu muitos dos fãs do horror, que nesse pós eleição de Donald Trump, vêm insistindo que política e horror devem permanecer separados. A falha nessa forma de pensar é que a política e o horror têm estado entrelaçados desde o começo. Em outras palavras, Corra! não é o primeiro do tipo, ele é meramente o mais recente  de uma longa linha de grandes filmes de terror com alguma coisa importante a se dizer.

E Jordan Peele está bem consciente disso, citando O Bebê de Rosemary como uma enorme influência para seu filme. Sim, o clássico de Roman Polanski é um filme de terror sobre uma mulher dando a luz à cria de Satã, mas, mais importante, é uma examinação da opressão patriarcal das mulheres e, particularmente, de seus corpos. Hm, veja só! . Horror inteligente e político-consciente datado de 1968!

Quando me dizem que o terror não possui contexto social

Quando me dizem que o terror não possui contexto social

Claro, o horror em suas raízes mais profundas está envolto num contexto político, datado bem antes de Rosemary dar a luz a seu bebê. O Drácula da Universal, lançado em 1931, tem em seu núcleo um filme sobre os medos da imigração, com seu personagem título sendo um imigrante europeu. Aí temos A Noite Dos Mortos Vivos, um filme que (embora tenha sido esta a intenção original de George Romero ou não) quebra completamente o paradigma e nos dá um herói negro lutando contra um mar de agressores brancos. No final, nosso herói negro é visto como o vilão por um homem branco e morto com um tiro. Os filmes subsequentes do Romero são muito mais intencionalmente carregados com comentário social; o Despertar dos Mortos não era nada senão uma sátira à cultura de consumo. Assim como foi Eles Vivem, de John Carpenter, talvez a mais efetiva desconstrução do consumismo e manipulação da mídia na história do cinema.

A lista continua, mas o ponto aqui é que a maioria dos nossos filmes de terror favoritos, se nós sacamos logo de cara ou não, têm mais por baixo da superfície do que acima dela. Subtexto, esteja ele debaixo de nossos narizes ou não tão óbvios, é o que sempre fez os grandes filmes de terror grandiosos : você pode escolher explorar ou ignorar isso, essa é a sua prerrogativa, mas escolher negá-la é um grande desserviço para literalmente toda a história do gênero que nós amamos tanto. Nada disso é novidade, e é verdade até para você que só tem assistido filmes de terror dos últimos dez ou vinte anos.

Filmes como Jogos Mortais e O Albergue são rotulados como “torture porn” pelos críticos do gênero, mas as duas franquias têm seu próprio comentário social. O Albergue é um filme sobre o rico literalmente comprar o pobre e fazer o que quiser com ele, e apesar de Jogos Mortais ser uma franquia que tem muito sangue, tripas e desmembramentos criativos, há um pouco mais além do que sempre foi creditado. Jogos Mortais 6, por exemplo, adicionou os problemas com a saúde pública na América.ode ser ineficiente e provavelmente não ressoou para a maioria dos espectadores, mas está presente do mesmo jeito.

E temos ainda a franquia Uma Noite de Crime, que consistentemente mostra como um evento anual favorece o rico sobre o pobre e mais do que qualquer coisa, é uma forma para o rico erradicar o pobre. Esse conceito futurista, lançado quatros longos anos antes de Corra!, usa o gênero do terror para iniciar importantes discussões e fazer observações sobre o mundo real cotidiano. E realmente, ao fim do dia, é disso o que ambos os gêneros,terror e sci-fi, sempre tratam.

Enquanto eu concordo que filmes de terror com algo a dizer estão crescendo no momento, e provavelmente irão continuar a se tornar mais prevalentes em nosso atual momento político (12 Horas Para Sobreviver: Ano de Eleição, lançado ano passado, já foi uma resposta direta  para o que estava por vir), a realidade é que o horror tem estado no front da mudança social e política. Diretores como Jordan Peele entendem que a liberdade fornecida pelo gênero permite que estas questões sejam abordadas – e realmente, qual a melhor maneira de abordar nossos medos coletivos do que com um gênero que floresce com nossos…medos?

Corra! é um dos filmes mais importantes da minha geração, mas o que ele não é, é um  exemplo de horror que finalmente resolveu usar o cérebro, como alguns acreditam que seja. Ao invés disso, é ainda outro grande exemplo daquilo  que sempre fez o horror ser o mais interessante, importante e socialmente relevante de todos os gêneros cinematográficos. Se você procurar pela história, perceberá que os melhores filmes de terror sempre surgem quando o mundo está passando por uma experiência política e/ou social difícil, e eu lhe asseguro que nada disso é coincidência.

É apenas o horror fazendo o que o horror faz de melhor. O que ele SEMPRE fez de melhor.

Pronto para caçar quem critica o horror!

Pronto para caçar quem critica o horror!


Guilherme Lopes
Guilherme Lopes
Mineiro de nascimento e paulista de criação, vê nos filmes de terror e afins a diversão e bode expiatório para não cometer atrocidades na vida real. Não se engane com sua carinha de anjinho: ele não rebobinava as fitas antes de devolver à locadora.

1 Comentário

  1. Clausner disse:

    Depois que assisti “Corra” me veio na mente outro bom filme: “Esposas em Conflito” de 1975. Não o remake! Aff…
    Gostei do texto.

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