Precisamos de mais movie gimmicks

Como essa jogada de marketing de mais de 50 anos pode tornar a ida ao cinema divertida de novo


Recentemente me deparei com uma postagem na minha timeline onde o autor reclamava do péssimo comportamento das pessoas nas salas de cinema e concluía dizendo que não era o valor do ingresso, a Internet ou a falta deste ou daquele filme legendado em cartaz, e sim os próprios telespectadores que insistem em bater papo, usar o celular ou simplesmente mexer em sacos barulhentos de pipoca e salgadinhos!

Apesar do tom mal humorado e da reclamação nada inédita, não pude deixar de concordar em partes com o meu amigo virtual. Afinal, se os filmes em cartaz estão cada vez piores em qualidade ou ineditismo, os cinéfilos de fim de semana estão cada vez mais sem noção e boa parte das pessoas não dá a mínima pros três ou quatro D’s, o que sobra para atrair mais pessoas ao cinema?

Apesar da resposta parecer impossível, se voltarmos alguns anos no tempo, mais precisamente entre a década de 1950 e os anos 1980, diretores e produtores pareciam ter a ideia perfeita para atrair mais público para os cinemas com seus lendários movie gimmicks, pequenas brincadeiras ou acessórios que supostamente incrementam a experiência cinematográfica, como cadeiras que davam choque, mensagens subliminares e até aromas disparados diretamente na sala para remeter à ação que o telespectador assistia na tela. Uma jogada de marketing que funcionou por pouco mais de três décadas, atraindo pessoas para o cinema apenas para experimentar aquela brincadeira específica daquele filme específico.

Essa ideia nem passou pela nossa cabeça,

O primeiro movie gimmick foi o Polyvision, utilizado durante as projeções do filme francês Napoleão (Napoléon vu par Abel Gance) do diretor Abel Gance em 1928. A traquitana consistia na projeção simultânea de três filmes diferentes que, lado a lado, compunham a cena completa, como se faz nas fotos panorâmicas tiradas com um celular comum. Com isso, o diretor conseguiu transformar a tela de 4:1 para o formato widescreen apenas para a épica cena da batalha final, envolvendo inovadoras tomadas de câmera e atraindo o público que queria conhecer a novidade.

Mas foi só em 1958 que os movie gimmicks caíram nas mãos certas, quando o lendário diretor William Castle ofereceu uma apólice de seguros no valor de mil dólares para a família de qualquer telespectador que, comprovadamente, morresse de medo durante a exibição de seu filme Macabre. No ano seguinte, Castle apresentou seu novo gimmick, o Emergo, que consistia em um esqueleto que deslizava sobre a plateia durante a exibição de A Casa dos Maus Espíritos. No mesmo ano, o diretor surgiu com Percepto, que consistia em assentos vibratórios que tremiam durante uma determinada cena de Força Diabólica enquanto Vincent Price, no meio do filme, pedia para a plateia gritar por suas vidas.

A criatividade de Castle parecia não ter limites quando se tratava dos movie gimmicks. O diretor frequentemente aparecia antes de seus filmes apresentando-se aos telespectadores e explicando o que iria acontecer e como a plateia poderia participar da exibição. Em A Máscara do Horror , o telespectador fazia parte do julgamento do personagem e o veredito determinava qual seria o final do filme, que possuía dois rolos finais diferentes. Lembra do “Você Decide”?

Essa ideia não me cheira bem.

Embora Castle seja o diretor mais lembrado por seus gimmicks, muitos diretores e estúdios pegaram carona no sucesso atingido por ele (mas sem a mesma originalidade), colocando hipnotizadores na abertura do filme, sacos de vômito nos assentos para as cenas mais fortes e até pausas para que os “covardes” pudessem sair do cinema antes do final do filme. Até o lendário diretor Alfred Hitchcock se rendeu aos gimmicks ao adotar a política de proibição de entrada após o início das projeções de Psicose em 1960.

Nem todos os movie gimmicks funcionavam como planejado, é claro. Em 1960, o filme Scent of Mistery apresentou o Smell-o-vision, que permitia a plateia “cheirar o que estava acontecendo na tela”. Criada por Hans Laube, a tecnologia consistia em disparar 30 aromas diferentes na sala de cinema por baixo dos assentos através de sprays que eram acionados pela trilha sonora. A ideia não deu muito certo, pois com o tempo os cheiros iam se acumulando e desagradava a plateia. Outra ideia que não deu certo, o Sensurround, usado durante a projeção do filme Terremoto de 1974, chegou a causar danos à estrutura de algumas salas de cinema.

A divertida e única experiência dos movie gimmicks está lindamente retratada no filme Pop Corn – O Pesadelo Está de Volta , do diretor Mark Herrier, de 1991. No filme, uma mistura de Fantasma da Ópera com A Hora do Pesadelo, uma série de crimes começam a ocorrer durante um festival de cinema organizado por um grupo de jovens. O filme reproduz alguns movie gimmicks clássicos como o Percepto e o Smell-o-vision e, mesmo que sejam utilizados de maneira trágica pelo assassino do filme, o espectador pode ter a ideia clara de como poderia ser divertida uma sessão de terror durante os anos 50 e 60.

Melhor do que ficar mexendo no celular.

Agora imagine a surpresa de se deparar com um boneco fantasiado de Superman sobrevoando as poltronas do cinema, ou um ator vestido de monstro surgindo das sombras durante um filme de terror, ou as cadeiras vibrando a cada passo que o Godzilla dá! Até mesmo uma atriz saindo carregada por bombeiros ao final de um filme terror enquanto as pessoas que esperam para entrar na sala para a próxima sessão, ou algo simples como sacos de vômito e almofadas personalizadas de brinde pra se apertar durante as cenas mais assustadoras!

Mesmo que consideremos a existência de algumas salas 4D espalhadas aqui e ali nas grandes capitais, o que falta a estas salas é um planejamento alinhado ao filme. O que acontece geralmente é que estes cinemas estão ali, prontos, e oferecem recursos limitados de cadeiras que vibram, spray de água, ventiladores e aromatizadores que são encaixados em alguns filmes onde isso é possível. O movie gimmick está criado e é aplicado ao filme, sem a beleza dos originais, desenhados e planejados como forma de divulgação específica da película.

Cabe à equipe de marketing decidir qual caminho seguir, mas com toda a certeza já podemos imaginar que seria muito mais divertido e atraente do que milhares de trailers que contam a história inteira surgindo semana a semana antes da estreia do filme e aqueles irritantes filmes 3D que não acrescentam nada além de valor ao ingresso e que, graças aos deuses do cinema, estão com os dias contados.

Só sei que os movie gimmicks reacenderiam minha vontade de ir ao cinema e, talvez, conseguissem prender a atenção de uma plateia que não consegue deixar o celular no bolso por pouco mais de duas horinhas.

William Castle: O homem dos movie gimmicks.


Rodrigo Ramos
Rodrigo Ramos
Designer, roteirista da HQ Carniça, coautor dos livros Medo de Palhaço e Narrativas do Medo. Fã e pesquisador de quadrinhos e cinema de horror. Tem mais gibis em casa do que espaço pra guardar e tempo pra ler, mas quem nunca?

1 Comentário

  1. julha disse:

    pô, que matéria legal!! não conhecia esse tal de gimmicks, devia ser show demais!!

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