Quadrinhos de terror podem ser assustadores?

Nem só de jumpscare é feito o nosso gênero preferido


Como escritor, crítico e pesquisador de histórias em quadrinhos de terror, uma das perguntas mais frequentes com as quais me deparo quando falo de horror com apreciadores do gênero é: “quadrinhos de terror podem ser assustadores?”. Bem, pensando no susto como um medo oriundo de uma surpresa ou fato súbito, acho que podemos dizer que não. Ou pelo menos, dificilmente, já que o formato e a duração das revistas em quadrinhos, muito menos passivo do que o cinema, e muito menos imersivo que a literatura, dificilmente pode gerar uma surpresa tão repentina capaz de levar o leitor ao susto.

Mas isso não é algo que se aplique a 100% dos casos, pois o susto depende muito mais do quanto o leitor está entregue àquela narrativa, sendo totalmente possível que o artista e o roteirista trabalhem o enredo, cadenciando o ritmo de leitura junto da virada de página para criar cenas surpreendentes, desde que o leitor não seja impaciente e tenha folheado a revista antes de iniciar a leitura.

Os títulos de horror e crime da EC Comics, por exemplo, trabalhavam muito bem a revelação surpreendente no final de suas histórias, fazendo com que os leitores pulassem em suas cadeiras, muito provavelmente gritando alguma coisa em resposta ao que acabavam de ler. Mas ainda assim, este recurso estava mais próximo da surpresa que do susto.

EC Comics e seus plot twists

Outro ponto que devemos deixar claro é o horror como algo muito mais amplo e elaborado do que um simples susto. Os filmes do gênero, por exemplo, podem – e devem – ir muito além do susto gratuito, os manjados jumpscares. O horror está muito mais relacionado ao medo do desconhecido, da morte, do que um reflexo no espelho seguido de um barulho repentino. Não é à toa que os grandes clássicos do cinema de horror são aqueles que mergulham na psique do telespectador e cravam suas garras em suas mentes, fazendo com que o filme os acompanhe por muito tempo depois dos créditos, deixando aquela sensação de estar sendo observado e aquele desejo de dormir com a luz acesa.

Enquanto o susto depende do telespectador passivo, o medo, o pavor, a desesperança advinda de um bom filme de horror, precisa 100% da participação da platéia. O telespectador mistura o filme às suas próprias referências e vivências, criando uma espécie de continuação mental. E é aí que os quadrinhos de terror trabalham. Enquanto a literatura cria uma imersão mais profunda, possibilitando que o susto venha de um celular tocando ou uma porta batendo com o vento, os quadrinhos, por sua leitura mais rápida, depende exclusivamente de seus temas e enredos para envolver o leitor no período após o fechamento do gibi, quando a leitura termina.

Quadrinhos podem ser perturbadores, chocantes e permanecer com o leitor por dias enquanto ele remói as coisas terríveis que encontrou nas páginas impressas de um gibi E, dependendo das referências pessoais do leitor, mais acostumado ou não à narrativa gráfica, e das habilidades do roteirista e do artista em construir o enredo, posicionando bem as viradas de página e os momentos impactantes, os quadrinhos podem sim assustar. É uma tarefa muito mais complicada do que arquitetar um jumpscare, mas a popularidade dos quadrinhos de horror, cada vez maior, está aí pra comprovar que a nona arte possui um algo a mais que nos dá aquela sensação viciante, como andar de montanha-russa.

Junji It é assustador!


Rodrigo Ramos
Rodrigo Ramos
Designer, roteirista da HQ Carniça, coautor dos livros Medo de Palhaço e Narrativas do Medo. Fã e pesquisador de quadrinhos e cinema de horror. Tem mais gibis em casa do que espaço pra guardar e tempo pra ler, mas quem nunca?

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