Reivew: 2018 #05 – The Cloverfield Paradox

Solução do mistério ou mais peças do quebra-cabeça?


Há uma década, a Rede Mundial de Computadores foi infectada por um vírus peculiar e poderoso, chamado Cloverfield: Monstro. Fruto das mentes de J.J. Abrams e Matt Reeves, esse vírus manifestou-se primeiramente como um filme misterioso em found footage sobre um monstro gigante (leia-se Kaiju) destruindo Nova Iorque e, depois, por meio de vários sites e informações espalhadas na web, revelando uma grande conspiração eco-industrial por trás dessa aberração, então batizada de Clover.

Apesar de minha memória ter liquidado parte das informações, lembro-me com clareza de adentrar a fundo nesse universo, lendo cada pedaço do quebra-cabeça deixado online e ajudando outros internautas a criarem teorias. Uma das mais divertidas (e possivelmente BEM REAL), que me recordo com clareza, dizia que o kaiju era apenas um filhote e que haveria um ser ainda mais colossal espreitando nas profundezas.

Na época, referências como o logotipo das corporações Dharma e a bebida Slusho! pareciam até conectar o filme aos seriados Lost e Heroes, respectivamente. Muitos de nós acreditaram que a solução desse mistério aparecia em Rua Cloverfield 10, de 2016. Eis que o tal filme se mostrou um completo engodo, sendo apenas um suspense sci-fi que recebeu o título Cloverfield, posteriormente, para lucrar em cima do nome. Na época de seu lançamento, os criadores anunciaram uma série de longas de ficção científica, possivelmente ambientados no mesmo mundo ou universo, com um toque de Além da Imaginação, e já anunciaram um terceiro longa.

Surge então O Paradoxo Cloverfield. Não bastasse todo o mistério por trás de seu antecessor, o novo longa, dirigido por Julius Onah, foi ainda mais longe. A campanha de lançamento do filme reteve toda e qualquer informação até a fatídica noite de 04 de fevereiro, durante a final do Super Bowl, onde não apenas revelaram o trailer, mas também a data de lançamento: imediatamente após o fim do evento mais esperado pelo público americano, NA NETFLIX!

A Missão

A trama do Cloverfield original era bem simples. O jovem adulto Rob está prestes a se mudar para o Japão, onde começará a trabalhar em uma companhia de mineração e perfuração de petróleo chamada Tagruato. Durante a festa de despedida do mesmo, um monstro colossal surge na cidade, destruindo tudo e todos.

Todas as teorias indicavam um mundo relativamente semelhante ao nosso, com o acréscimo de bestas colossais residindo no fundo do mar, longe da humanidade. A aparição do kaiju teria sido em decorrência de dois possíveis fatores: um objeto que caiu do céu (um satélite ou fragmento de estação espacial) ou perfurações em regiões abissais.

Os primeiros minutos de The Cloverfield Paradox já bagunçam essa ideia. Ao invés de um planeta Terra semelhante com adição de monstros, essa versão apresenta uma ordem social bem diferente e tecnologias futurísticas. Com os recursos naturais à beira da extinção, as nações se mobilizam para uma guerra por restos, enquanto uma empreitada espacial busca sanar de vez o problema.

Na estação especial Cloverfield, uma máquina de hádrons pode ser a solução para a crise energética mundial. No entanto, diversas pessoas temem a utilização da máquina, dita poder gerar energia ilimitada. Um pesquisador em específico cita algo chamado “Paradoxo Cloverfield”, que descreve a possibilidade de uma alteração da realidade em escala multidimensional.

A quase totalidade do filme se passa dentro da estação espacial, o que é uma benção para os amantes da ficção-científica, mas já deixa os fãs do monstro gigante (tipo eu), com o pé-atrás. Logo nos primeiros momentos dentro da estação, fica aparente uma certa pobreza criativa. Os astronautas são distribuídos e escritos da forma mais clichê possível, podendo facilmente serem substituídos pelas equipes da nave de Alien: Covenant ou da Estação Espacial Internacional de Vida, só pra mencionar filmes de 2017.  

Esteticamente, o visual não faz feio, mas também não impressiona, encaixando-se claramente no padrão Netflix atual. O mesmo pode ser dito sobre a direção e fotografia que não dispõem de nenhuma grandiosidade, aparentando serem pensados para exibição doméstica ao invés de cinemas.

O Paradoxo

Como esperado, o paradoxo se prova real e tudo vira de cabeça para baixo assim que a máquina é utilizada. Situações extremamente bizarras e inexplicáveis começam a pipocar, deixando os astronautas com as calças nas mãos. Até esse ponto, não havia nada de minimamente notável sobre o filme.

Então, em um arroubo de inspiração, The Cloverfield Paradox incorpora seu melhor O Enigma do Horizonte com um pouquinho assim de Alien: O Oitavo Passageiro (e até Uma Noite Alucinante!) e tudo sobre o filme melhora de uma hora pra outra. Um mistério envolvente toma conta da narrativa e uma dose boa de horror é inserida na mistura.

Enquanto isso, lá no nosso amado planetinha azul, o marido de uma das astronautas se depara com uma destruição em larga escala em Nova Iorque, causada por sabe-se lá o quê. Há uma constante mudança de pontos de vista, passando da nave para a terra. Essa alteração funciona e é uma de suas partes mais provocantes, especialmente para os fãs do original, ainda mais quando o cientista que cita o paradoxo, em uma das cenas mais didáticas, menciona que o cruzamento interdimensional poderia trazer ou despertar monstros, demônios e criaturas das profundezas, dando um gostinho ainda maior do que está por vir.

Com a mesma facilidade que se transformou em um filme mais empolgante, logo retorna para o clichê com força total, abusando de todos os tropos existentes sobre desastres em viagens espaciais, com eventos ocorrendo de maneira idêntica ao que vemos em todos os filmes do tipo nos últimos anos, de Prometheus a Interestelar, passando pelos filmes já mencionados anteriormente e chegando até aquela onda sci-fi do final dos anos 90 e começo do ano 2000, tipo Planeta Vermelho, Super Nova e etc.

Apesar do conceito do paradoxo oferecer possibilidades incalculáveis, o roteiro é incapaz de explorar o que tem em mãos, de forma que a maioria das alterações causadas são mega esquemáticas, somente atendendo as necessidades do roteirista para continuar a trama da forma desejada.

Mistérios e mais mistérios

A originalidade passa longe, mas existe um certo charme nesse enredo espacial que ainda faz com que o filme seja divertido. Para os mais atentos, referências de todos os tamanhos apontam para o longa de 2008, como a presença de um bonequinho da Slusho! e um painel da Tagruato dentro da nave.

Já no campo das teorias, não há uma resposta exata para a origem do monstro, muito pelo contrário. As interações dimensionais abrem ainda mais o leque de possibilidades, assim como a presença da Tagruato dentro da nave indica que a empresa japonesa tem um papel muito mais complexo nesse mundo que apenas perfuração e produção de bebidas populares. Sua extensão continua indecifrável, já que sequer temos um japonês entre a tripulação internacional, mas é possível conjecturar.  

O mais interessante dessas novas teorias é a possibilidade do Colisor de Hádrons Shepard ter desencadeado mudanças não apenas no espaço, mas também no tempo, como esperado. Dessa forma, é possível pensarmos que, durante o filme de 2008, um filhote Clover apareceu na superfície por causa de uma alteração temporal causada pelo experimento do futuro. Nessa linha de pensamento, é ainda possível imaginarmos que a empresa Tagruato já sabia sobre o monstro e o explorava de alguma forma ao longo dos anos.

Mesmo com tantas possibilidades, não há qualquer ligação direta com Rua Cloverfield 10, tornando-o ainda mais embuste. A única possibilidade viável de conexão é que aquele seja um mundo em que invasores alienígenas apareceram no planeta por conta da interferência no multiverso.

As revelações e teoria são grande parte do que tornam o filme assistível, por tanto me abstive por completo de spoilers. Quer saber se o Clover aparece? Assista e se surpreenda com a resposta!

E boas notícias para quem está interessado nessa franquia: a parte quatro sai ainda esse ano, e se passará na Segunda Guerra Mundial!

3 Slushos para The Cloverfield Paradox


Daniel Rodriguez
Daniel Rodriguez
Fã de horror em suas diferentes formas, principalmente cinematográfica. Incapaz de adentrar igrejas, pelo risco de combustão espontânea, dedica sua vida pagã a ensinar inglês, escrever sobre o gênero e, mais recentemente, fazer seus próprios filmes.

3 Comentários

  1. Alex Teixeira disse:

    Esse filme é tão ruim que me deu sono. Acho que assisti uns 30 min e tá bom demais.

  2. Renan disse:

    “Mesmo com tantas possibilidades, não há
    qualquer ligação direta com Rua
    Cloverfield 10” …. Então você não reparou naquele bunker que o marido da protagonista usou para se proteger junto com aquela menina? Existe a possibilidade de ser o mesmo bunker do gordão do outro filme. E na boa, Rua Cloverfield 10 é um filmaço! Esse Paradoxo aí é que foi uma vergonha em todos os sentidos possíveis. J.J. Abrams fez muito bem em vender para o Netflix, pois certamente seria um FRACASSO de bilheteria. Resta torcer para que o quarto filme seja tão bom quanto os 2 primeiros, porque esse aí é melhor fingir que não existe.

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