Remakes são legais. Você é que não entendeu…

Remakes são ruins mesmo ou você é um hater reclamão?


Na indústria cinematográfica (e televisiva), a palavra remake – ou refazer, no bom português –, se refere ao ato de refilmar uma mesma história. Seja para contar uma nova versão ou simplesmente atualizar os efeitos especiais e trazer a marca ou franquia para novos tempos, este hábito cada vez mais comum nas três últimas décadas, na real é prática recorrente na indústria desde que ela surgiu. Filmes mudos foram refeitos para adicionar som, filmes preto e branco foram refeitos para adicionar cor e a onda dos remakes nunca mais parou.

Para boa parte do público mais versado na sétima arte, os autoproclamados “cinéfilos”, a simples menção da palavra remake já é o suficiente para causar calafrios. Mas, afinal, as refilmagens são tão nocivas assim à indústria? Um remake ruim pode arranhar a reputação do filme original?

Apesar de denotar certo desgaste do método de produção hollywoodiano e um declínio notável da criatividade da indústria, os remakes não são tão ruins quanto se pinta por aí. O principal argumento em defesa das refilmagens reside na atualização dos conceitos apresentados na obra original para novos tempos e um novo público. Mesmo que na maioria das vezes tais atualizações se resumem a efeitos especiais mais modernos e rostos famosos e mais jovens para ampliar a identificação com o público, esta atualização é muito bem vinda quando a história é reinterpretada, deslocando-se apenas o conceito cronologicamente e desenvolvendo-se um novo enredo a partir da ideia central.

Este ponto de vista é comprovado quando tomamos como exemplo aqueles remakes que são considerados por alguns críticos como sendo muito superiores aos originais. Tais como Os Invasores de Corpos (1978), O Enigma de Outro Mundo (1982), A Marca da Pantera (1982), A Pequena Loja dos Horrores (1986) e A Mosca (1986), apenas para ficarmos dentro do gênero horror. Essas refilmagens possuem histórias completamente diferentes das obras originais, mas que atualizam a marca e o conceito sem deixar a criatividade de lado.

As refilmagens, quando usadas desta forma, servem como um documento histórico daquele determinado recorte cronológico. Aqui, podemos citar King Kong e suas quatro versões. A original, de 1933, dirigida por Merian C. Cooper e Ernest B. Schoedsack, que muitos alegam possuir subtextos sobre segregação racial; a segunda, de 1976, dirigida por John Guillermin, e suas críticas às grandes corporações e alertas ecológicos; e a versão megalomaníaca, sensível e high-tech de Peter Jackson em 2005 e… bem… é isso, além da incursão mais recente, Kong: A Ilha da Caveira, entretenimento puro e simples para fomentar um novo multiverso cinematográfico Cada uma quatro três versões do mesmo filme, diferentes entre si, falam muito sobre o período em que foram realizadas de maneira única.

Rei dos remakes!

Este documento histórico também é perceptível ao analisarmos os números obtidos por meio de uma busca rápida no iMDB pela palavra-chave “remake”. Ao separarmos os resultados por décadas, veremos que o número de refilmagens por década praticamente dobrou desde o início dos anos 90. Entre 1971 e 1980, foram 335 produções, entre 1981 e 1990, foram 422 e entre 1991 e 2000, foram 676. Os números de 2011 até este ano já estão em 286 produções. Porém, curiosamente, os números entre 1951 e 1960 apontam 419 refilmagens, colocando a década de 50 como a terceira mais produtiva em termos de remakes.

As razões para este elevado número de refilmagens podem estar diretamente ligadas à mudança de uma cultura cinematográfica. Os avanços tecnológicos como o advento do som e das cores em meados do século passado e a Internet e os videogames no início deste século mudaram os padrões estéticos das gerações que atualmente assumem o posto como as que mais consomem produtos de entretenimento.

Não é à toa que hoje em dia, um filme com dez anos já é considerado “velho” pelos mais jovens. E isso tem mais a ver com o avanço ininterrupto e acelerado das tecnologias e meios de comunicação do que com a “arrogância” e “impaciência” dos millennials. A resistência do público mais jovem à filmes mais antigos vêm da falta de uma base cinematográfica, muito cultivada pela limitação de serviços de streaming e sua falha percepção e associação como única fonte de busca por conteúdo audiovisual, diferente daquela que moldou minha geração, que passava as tardes na frente da TV assistindo a reprises na Sessão da Tarde ou gastando horas escolhendo a fita VHS nas prateleiras da locadora. Hoje, este público está se moldando na Internet e nos games e, quando buscam um filme dão preferência à estética e aos rostos conhecidos em seus meios.

Portanto, todo aquele que “odeia remakes” deve ter em mente que Hollywood é uma indústria, voltada ao entretenimento, mas ainda assim, uma indústria. E como todo e qualquer sistema industrial, não trabalha de graça, para caridade ou para agradar os fãs, mas para fazer dinheiro produzindo filmes. E muito dinheiro, de preferência!

Assim como em toda indústria, de tempos em tempos, algumas marcas são redesenhadas e colocadas de volta nas vitrines para angariar novos consumidores. A ideia é usar uma marca conceituada, no caso um filme ou uma franquia, dando a ela uma nova roupagem e tentar vendê-la a um novo público, mantendo o produto rentável por mais tempo.

Eu quando me falam que TODOS os remakes são RUINS!

Esta atualização traz dinheiro para a indústria e a mantém funcionando. É com este dinheiro garantido por algumas franquias de sucesso que os estúdios podem se dar ao luxo de arriscar em filmes novos. E mesmo que estes filmes novos nem sempre cheguem aos cinemas, eles são rodados aos montes todos os anos. Os cinemas, que podem ser considerados aqui como os PDVs e ponto final da cadeia de consumo destes produtos, expõem apenas aquilo que é venda garantida, reduzindo o espaço dos filmes menores e independentes a cinemas menores e festivais, ou direto para o streaming, como aconteceu com o recente Aniquilação, vendido pela Paramount para distribuição mundial direto para a Netflix.

Ou seja, eles ainda estão lá. Você só tem a impressão de que eles não existem porque o barulho causado pelos haters dos remakes é muito maior.

São estes haters que vão para as redes sociais bradar que não assistiram ao remake de Mad Max (1979) e Os Caça-Fantasmas (1984) por “deturpar” os originais, profunda incoerência, desconhecimento do próprio termo remake, além de um sexismo nada velado. Pois, se a ideia é refilmar, atualizar e criar o novo a partir de uma marca consagrada, é óbvio que o resultado será diferente do original. Óbvio e esperado, pois quando se refilma, seguindo passo-a-passo o que já foi feito, o resultado está muito mais para um Psicose (1998) de Gus Van Sant do que para um A Noite dos Mortos-Vivos (1990) de Tom Savini.

E caso você não seja mesmo adepto dos remakes e não quer mesmo saber como ficaria seu filme favorito atualizado com novos efeitos especiais, novos atores, nacionalizado ou muito mais próximo ao livro, saiba que os originais continuam lá para que você possa saboreá-los exatamente como foram concebidos no passado. Não é como se fosse gravado por cima em uma velha fita e ele deixasse de existir.

E, melhor ainda, os filmes originais podem ser remasterizados e relançados em DVD ou Blu-ray quando seus remakes chegam aos cinemas, gerando uma ótima oportunidade para que este mesmo público que consome as refilmagens possa conhecer os clássicos – a não ser que o novo filme seja realmente tão ruim a ponto de causar asco na plateia, que perderá qualquer interesse na obra original. E, mesmo neste caso, a culpa não é exclusiva do remake, mas sim do filme e da indústria como um todo que se apoia em uma fórmula repetitiva e demograficamente orientada.

Portanto, deixe de ser reclamão: remakes não são tão ruins assim. Foi você quem não entendeu…

Ah você foi aquele que reclamou dos remakes????


Rodrigo Ramos
Rodrigo Ramos
Designer, roteirista da HQ Carniça, coautor dos livros Medo de Palhaço e Narrativas do Medo. Fã e pesquisador de quadrinhos e cinema de horror. Tem mais gibis em casa do que espaço pra guardar e tempo pra ler, mas quem nunca?

7 Comentários

  1. Bons pontos fortes.

  2. Marcus Vinícius disse:

    Uau! Não foi nada do que eu esperava, você conseguiu trazer uma boa defesa, e me fazer ver por que os remakes são de certa forma necessários. Acho que ódio gratuito a um tipo de filme, qualquer que seja, nunca é bom, porque nos faz pensar que todos esses filmes serão sempre ruins. E quando encontramos por acaso algum ruim, já nos achamos no direito de taxar toda a leva de remakes como sendo da mesma qualidade, ignorando exemplos bons como se eles não existissem ou fossem exceções.
    Recomendo o vídeo do Nostalgia Critic sobre quando remakes devem ou não ser feitos, “When Should Remakes Not Be Made?”, uma abordagem honesta e realista do caso, mas desde já tiro meu chapéu para esse texto, muito honesto em suas colocações e que me fez abrir a mente.

    • Rodrigo Ramos Rodrigo Ramos disse:

      Muito obrigado, Marcus! <3

      A ideia era exatamente essa: trazer alguns pontos de vista diferentes sobre o remake e não só aquele velho e desgastado argumento da "falta de originalidade".

      Vou dar uma olhada nesse vídeo que recomendou.

      Volte sempre!

  3. Pedro Ramos disse:

    flopou mas é pq não entenderam o conceito

  4. marcos vargas disse:

    mas tem um ponto bem negativo: quem v o remake SEMPRE depois ao ver o original vai ficar decepcionado prq eles são mto datados. esse é o problema.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

%d blogueiros gostam disto: