Review 2015: #04 – Jessabelle – O Passado Nunca Morre

Não, Jessabelle não é irmã da Annabelle!


De alguns filmes, você já desconfia da qualidade pelo título. No gênero terror, então, esse pré-julgamento acontece aos montes. Quando então você se depara com um longa chamado Jessabelle: O Passado Nunca Morre, que estreia nos cinemas brasileiros esta semana, seu sentido de aranha para porcarias tilinta de forma fervorosa. Logo inevitáveis possíveis comparações com o Annabelle (que tem a quase a mesma grafia, vá lá) surgem, baseadas naquela famosa picaretagem das produtoras em pegar a rabeira de algum sucesso recente. Abre até margem a piadinhas se a Jessabelle é irmã da boneca do mal ou coisa do tipo.

Aí o pôster nacional, como de praxe na indústria, foca no fato do filme ser do mesmo diretor de Jogos Mortais IV, Kevin Greutert, que acredito ser um erro de grafia, pois ele é diretor do Jogos Mortais 6, que em algarismo romano seria VI, e de Jogos Mortais – O Final – mas este é um argumento de venda que não faz lá muita diferença, já que a franquia é uma bomba do terceiro para frente mesmo… Além disso, o cartaz tenta te fazer engolir ainda que se trata de uma obra do produtor de Atividade Paranormal, Jason Blum, da Blumhouse Productions, uma produtora indie de filmes de baixo orçamento que vem conquistando seu lugar ao sol no mercado, principalmente do cinema de terror, cravando em seu currículo alguns bons e interessantes filmes recentes, como Uma Noite de Crime, Sobrenatural, A Entidade e O Espelho, e outros qualquer nota.

Fato é que Jessabelle não é tããããããão ruim quanto seu título supõe. Não é também uma maravilha cinematográfica essencial para a existência do cinema de horror. Mas vale a pipoca, o rolê com a namorada ou amigos à sala de cinema sem nenhuma pretensão ou aprofundamento em discussões sobre os velhos clichês do gênero, fórmulas repetidas à exaustão, espíritos vingativos, jump scares amplificados pelo volume no máximo ou até uma dúvida quase kardecista de como diabos um fantasma envelhece.

Vou citar dois pontos positivos que valem os 90 minutos gastos em frente à tela grande em detrimento do mundaréu de erros do longa: estamos falando de um filme sobrenatural que aposta no vodu, uma vez que o longa se passa no sul da Louisiana, estado americano com um forte pé na religião africana, difundida por conta dos escravos trazidos da África ao país para trabalhar nas plantações. Isso já é por si só uma novidade interessante.

Passagem bloqueada

Passagem bloqueada

O segundo ponto é o plot twist em seu final, que apesar da didática explicação desnecessária nos mínimos detalhes, julgando a inteligência do público, e não ser a coisa mais embasbacante do mundo, reserva aí uma conclusão pessimista que no mínimo já foge um pouco do habitual.

Jessie Laurent (vivida pela ruivinha Sarah Snook) começa o filme sofrendo um terrível acidente de carro que resulta na morte de seu namorado, na interrupção de sua gravidez e na imobilização de suas pernas. É muita zica! Sua única saída é voltar a morar com seu pai bronco, Leon (David Andrews), com quem já tinha perdido completamente o contato.

De volta à cidade natal de onde saíra há tempos, Jessie descobre algumas fitas VHS escondidas, que sua falecida mãe, Kate (Joelle Carter), gravara para ela. Nessas fitas, a mãe lê seu futuro marcado em cartas de tarô (ôh-ôh), predizendo a existência de um espírito atormentado naquele local, esperando por sua volta, cheio de RANCOR pra dar. Pronto, daqui para frente começamos a testemunhar as aparições do fantasma, daquele jeitão bem manjado mesmo, que emula o visual da Samara de O Chamado numa mistura com a Regan MacNeil de O Exorcista, tentando infligir mal à garota inválida sem nenhum motivo aparente… até então.

Após a morte súbita de seu pai, queimado vivo ao tentar destruir as fitas VHS da ex-esposa, Jessie se reaproxima de um antigo namorado do colégio, Preston Sanders (Mark Webber), que ainda tem uma queda pela moça e, mesmo casado, resolve ajudá-la a tentar resolver o mistério de quem é aquele espírito feminino maligno e quais suas verdadeiras intenções, enquanto deixa a esposa puta da vida passando dias e noites com a mocinha — afinal, precisamos de um par romântico, né, tá lá na receita.

Caixa de fitas

Caixa de fitas

Durante a investigação, Jessie vai descobrir que sua mãe se envolvia pesado com o vodu e com um sacerdote de uma igreja local chamado Moisés (entenda como quiser) e que as mensagens sinistras das fitas gravadas prevendo seu futuro e terríveis mortes podem não ser necessariamente pra ela.

Gente… A Sarah Snook é uma gracinha mas, putz, é péssima! A mina perde o namorado, o feto, a capacidade de andar, depois o pai, é uma tragédia brutal atrás da outra e ela continua com a mesma cara, sem aparentar emoção ou o mínimo pesar. A falta de química dela com o wannabe Ryan Gosling, Mark Webber, e aquela sua expressão de cachorro largado na chuva também joga contra. Há o tal fantasma que envelhece, que é um buraco imperdoável no roteiro do tamanho do Grand Canyon, mas nem vou entrar no mérito por conta dos SPOILERS.

Jessabelle cai como uma luva nesse atual cinema de terror mainstream americano que funciona para o público médio em sua maioria, mas não convence. Pro espectador um pouco (mas só um pouco, tá) mais exigente, serve de consolo a reviravolta final e o destino nada amigável e feliz para nossa protagonista, que de certa maneira me lembrou de A Chave Mestra, que também tem em seu pano de fundo o vodu de Nova Orleans (na real o hodu, que é uma prática de magia negra e não uma religião em si). Aposto dinheiro que deve ter tido alguma influência para o roteirista.

Jessabelle, Anabelle… Tudo farinha do mesmo saco, mas na atual escassez de filmes de terror que estreiam nos cinemas nacionais, até vale a conferida.

 

2,5 cartas de tarô para Jessabelle – O Passado Nunca Morre

Publicado originalmente no Judão
Diário de uma paixão

Diário de uma paixão

 


Marcos Brolia
Marcos Brolia
Jornalista, editor e idealizador do 101HM, é fanático por filmes de terror (ah, vá!) desde que se conhece por gente, dos classudos aos mais bagaceiras. Adoraria ter um papo de boteco com H.P. Lovecraft e virar um shot toda vez que ele falasse a palavra “indizível”.

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