Review 2015: #06 – A Forca

Junte seus amigos e vá brincar do jogo de mesmo nome, que com certeza será muito mais divertido e bem aproveitado


Caso existisse um Guinness Book específico sobre os filmes de terror, A Forca, que estreia essa quinta-feira nos cinemas do Brasil, estaria presente na categoria: “maior número de jump scare” da história. Só para me fazer entender: jump scare é a técnica utilizada para assustar o espectador surpreendendo com um súbito ou inesperado evento ou barulho. E a dupla de cineastas Travis Cluff e Chris Lofing, diretores e autores, colocaram na cabeça que barulhos no último volume são o suficiente para excitar e entreter o fã do horror. Eles não poderiam estar mais enganados…

Além de ser um artifício que denuncia certa lacuna criativa (e até subestima a inteligência do público), utilizado com tamanho exagero como aqui (juro que chega até a doer os tímpanos se você estiver em uma sala de cinema com um sistema de surround poderoso) prova de forma cabal a completa falta de capacidade de todos os envolvidos em assustar com imagens impactantes, com o horror psicológico e com a interpretação de seus atores.

Pois bem, já fui assistir A Forca com a expectativa lá embaixo, esperando que daquele mato não saísse nenhum cachorro, mas olhe, é muito pior do que eu esperava, ainda mais quando a única boa cena do filme é exatamente aquela da garota sentada chorando em um local escuro com forte luz vermelha e vem do além uma corda laçando seu pescoço e a arrastando para longe, e o trailer já fez o favor de nos mostrar por inteiro. Como disse o colega, Marvel Studios fazendo escola.

Além disso, A Forca é mais um found footage, subgênero que já foi espremido até o bagaço da laranja, e você já pode esperar em dado momento cenas alucinadas em visão noturna, fora de foco, correria desvairada, gritos histéricos e closes de pés em fuga. E claro, uma mensagem no começo do filme dizendo que aquelas eram evidências coletadas pela investigação da polícia de Nebraska como prova e tudo mais. Nada de novo.

Com a corda no pescoço

Com a corda no pescoço

A trama é sobre uma lenda urbana em um colégio onde um garoto é morto enforcado acidentalmente enquanto contracenava em uma peça no começo dos anos 90. Esse garoto é o tal Charlie, aquele que viralizou na Internet como um desafio para evocar o espírito do dito cujo, ao melhor estilo Candyman ou a brincadeira do copo/ compasso.  Foi parar até no programa da Sonia Abraão! Bom, dizem por aí os entendidos que quando o marketing é muito, o santo (ou o encosto) desconfia…

Vinte anos depois, a turma de teatro do colégio resolve ensaiar novamente a peça, com Reese Houser interpretando o papel originalmente vivido pelo enforcado Charlie, e Pfeifer Ross, sua amada e o motivo do julgamento que condenou seu personagem à forca. Perceberemos no desenrolar da história que a garota tem um interesse especial em recriar a encenação, foi quem mais se esforçou para que a diretoria aprovasse o “remake” e insistiu para que Reese, quem decidira abandonar o futebol americano pelos palcos (muito naquela famosa rebeldia adolescente contra os pais), fosse o protagonista.

O moço obviamente está na peça pelo rabo de saia, só que ele tem o amigo mais pentelho que já conseguiram conceber na história da sétima arte, Ryan Shoos que junto de sua namoradinha cheerleader, Cassidy Spilker, resolvem demovê-lo da ideia de atuar, alegando que ele passaria a vergonha do século, e ao descobrir que a porta de acesso ao palco está quebrada e vive sempre aberta, tem a brilhante ideia de invadir a escola na noite da véspera da estreia para destruir o set e assim sabotar a peça.

Teatro do SESI

Teatro do SESI

Mas como Charlie morreu enforcado naquele lugar, ele é mal assombrado, e os adolescentes, juntos de Pfeifer, que fora até lá xeretar o carro de Ryan estacionado, se veem presos naquele ambiente sendo caçados impiedosamente pelo espírito do moleque morto, munido de sua terrível forca e vestido de carrasco, pois esse seria seu papel original na peça, mas no dia da estreia, o rapaz que interpretaria o enforcado acabou dando o cano e o pobre Charlie morrera acidentalmente em seu lugar. Informação importantíssima para o plot twist dos mais salafrários que veremos no desenrolar da trama e final do terceiro ato, que faz o sujeito que está sentado na sala de cinema pensar que o longa poderia ter acabado sem aquela.

Como disse lá em cima, pior que todos os clichês, furos imperdoáveis do roteiro, a interpretação qualquer nota dos jovens (são como atores ruins interpretando atores ruins de uma peça amadora escolar ruim, quase um exercício metalinguístico), e os recursos pobres usados para assustar o público, como colocar os personagens em ambientes escuros, com enquadramentos fechados de imagens feitas por celulares de baterias extremamente longevas, é o método de aumentar de forma ensurdecedora o volume (pode ser somente uma porta batendo, mas o estrondo parece anunciar o apocalipse) para garantir o susto nos mais incautos.

E nem quero parecer repetitivo dizendo que A Forca é mais um daqueles casos que acaba ganhando espaço nos cinemas do país, até por, mesmo sendo uma produção independente de Jason Blum e sua Blumhouse Pictures, talvez o nome mais ativo do cinema de terror indie da atualidade, foi distribuído pela New Line Cinema e, por conseguinte, pela Warner Bros, em detrimento de outras produções muito superiores que são ignoradas no circuito exibidor. Mas acontece que um triste exemplo se escancara nesse caso, uma vez que A Forca chega aos multiplex com toda sua campanha de marketing, força e verba de uma major, enquanto um dos melhores filmes de terror dos últimos tempos, Corrente do Mal, que deveria estrear na mesma data, teve seu lançamento adiado para agosto (espera-se) para não ter que competir com a máquina da indústria.

Ao invés de perder uma hora e vinte de sua vida assistindo A Forca, junte seus amigos e vá brincar do jogo de mesmo nome, que com certeza será muito mais divertido e bem aproveitado. E por via das dúvidas, evite usar a palavra “Charlie”.

 

1,5 peças escolares para A Forca

Espírito da luz vermelha

Espírito da luz vermelha


Marcos Brolia
Marcos Brolia
Jornalista, editor e idealizador do 101HM, é fanático por filmes de terror (ah, vá!) desde que se conhece por gente, dos classudos aos mais bagaceiras. Adoraria ter um papo de boteco com H.P. Lovecraft e virar um shot toda vez que ele falasse a palavra “indizível”.

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