Review 2015: #12 – A Possessão do Mal

E existe alguma possessão do bem?


Sempre quando falo sobre filmes de exorcismo e possessão, um dos principais temas recorrentes é a falta de evolução dos filmes do subgênero no decorrer dos anos, sempre limitados a uma fórmula prosaica e algum tipo de panfletagem religiosa, principalmente católica, que permeia seu maniqueísmo final.

A Possessão do Mal, que chega aos cinemas brasileiros nesta quinta-feira, com atraso de mais de um ano com relação ao seu lançamento nos EUA, pelo menos tenta encarar o tema do ponto de vista de um ateu, que não acredita nem em Deus e nem no Diabo, o que pelo menos faz com que ele fuja das convenções carolas, explorando outros pontos de vistas que envolvem rituais satânicos, bruxaria, demonologia e magia negra, além de obviamente, todo o tipo de farsa que também circunda esses assuntos.

Michael King, interpretado dentro dos limites do ator Shane Johnson, é um documentarista que perde a esposa amada depois de um trágico e súbito acidente, e passa a renegar Deus e vociferar contra nosso criador e qualquer tipo de religião ou superstição. Seu próximo projeto é fazer um filme experimento, em que tentará provar a existência do sobrenatural, entrevistando demonologistas, necromantes, exorcistas e vários praticantes das artes do oculto, colocando-se como cobaia em diversas experiências, para que no caso de falha, prove de uma vez por todas que tudo não passa de conversa fiada.

Mas como esses assuntos, nenhum mero mortal deveria brincar, obviamente King será possuído por uma força demoníaca durante um ritual que dá errado e começará a manifestar todos os sintomas de possessão que manda a cartilha do gênero: mudança em seu comportamento que se torna errático e violento; seus olhos vão ficando vermelho; seu hábitos de higiene, escassos; insetos começam a andar pelo seu corpo; passa a vomitar sangue e entalhar pentagramas no peito (com excelentes e aflitivos efeitos de maquiagem, diga-se de passagem) enquanto passa a aterrorizar sua filha e o cachorro da família.

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 A Possessão do Mal tem uma história bem interessante e um roteiro decente que consegue “dar liga” e manter a atenção do espectador, mas eis que a produção do diretor debutante David Jung consegue dar dois tiros em seu próprio pé, que faz com que ele não passe de mais uma fita mediana que poderia render muito mais. O primeiro é que como disse lá em cima, King decide fazer um vídeo sobre suas experiências sobrenaturais, e o que isso significa? Que estamos falando de um mockumentary.

Só que ele é mock até demais, nunca se assumindo de verdade como um found footage. Suas filmagens, truques de câmera, mudanças de ângulos e edição fazem com que certas vezes até esqueçamos que seja um “filme dentro do filme”, dada sua técnica apurada. Isso faz com que não ganhe absolutamente nada a seu favor imitando os vícios um documentário fabricado, ainda mais por conta da saturação do subgênero.

Outro tiro no pé é o velho, surrado e batido abuso do jump scare, artifício utilizado, principalmente em sua metade final e em sua conclusão, para assustar o espectador incauto, em detrimento de uma trama mais pautada no horror psicológico, que cairia como uma luva se fosse o caminho seguido pelos realizadores. É mais um daqueles casos que você tem que se preocupar mais com o volume dos decibéis que chegam ao seu tímpano, do que ser dominado por uma onda de pavor.

No frigir dos ovos, A Possessão do Mal é um filme regular, com um plot interessante que foge do expediente católico tradicional, porém é subaproveitando ao pecar pela ausência de atmosfera do horror e cair nos mesmos velhos clichês de dois subgêneros que imploram por novidades e ideias originais.

 

2 olhos negros sem pupila para A Possessão do Mal

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Marcos Brolia
Marcos Brolia
Jornalista, editor e idealizador do 101HM, é fanático por filmes de terror (ah, vá!) desde que se conhece por gente, dos classudos aos mais bagaceiras. Adoraria ter um papo de boteco com H.P. Lovecraft e virar um shot toda vez que ele falasse a palavra “indizível”.

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