Review 2015: #14 – Last Shift

Charles Manson encontra Assalto ao 13º DP


Uma reclamação recorrente dos fãs do cinema de terror é quanto o gênero anda pasteurizado nesses dias e é difícil encontrar novos filmes que surpreendam positivamente, assustem e valham o entretenimento, para que você não tenha a ingrata impressão de duas horas perdidas da sua preciosa vida. E isso acontece aos montes, acredite.

Last Shift é uma dessas gratas surpresas, que mesmo com seus clichês e defeitos, consegue se mostrar um longa eficiente, atmosférico e verdadeiramente assustador, prendendo a atenção do espectador, além de contar com um daqueles finais pessimistas que aumentam ainda mais o seu conceito.

O longa é dirigido por Anthony DiBlasi, um nome por trás das câmeras que vem chamando a atenção no gênero, responsável pelos interessantes e independentes Lentes do Mal, baseado na obra de Clive Barker, e Casadaga. Em Last Shift, DiBlasi entrega uma espécie de Assalto ao 13ºDP, de John Carpenter, com uma pegada sobrenatural, com direito a assassinatos, cultos satânicos e suicídios, à la Charles Manson.

Jessica Loren (Juliana Harkavy, das séries The Walking Dead e Constantine) é uma policial novata que deseja seguir os passos do pai, morto em cumprimento do dever, e acaba designada em seu primeiro trabalho na polícia como responsável pelo último turno de uma delegacia abandonada, preste a fechar, e deve esperar até que a equipe de materiais perigosos venha recolher todas as provas e evidências biomédicas, em um horário entre meia-noite e quatro da manhã. Sua ordem é para não deixar o local sob nenhuma circunstância.

Pare em nome da Lei

Pare em nome da Lei

Sozinha durante toda a madrugada, não demora para ela começar a ouvir barulhos, portas de armários batendo, passos e todos os expedientes propícios para o susto em um ambiente como aquele, além de ter de lidar com um mendigo que insiste em invadir a delegacia abandonada em busca de abrigo e de receber telefonemas de uma adolescente desesperada pedindo por socorro, quando todas as ligações deveriam ser transferidas já para o novo precinto, que pode estar sendo perseguida pelos seguidores da desbaratada seita comandada pelo satanista John Michael Paymon.

Paymon (Joshua Mikel) era líder de um culto de adoração ao demônio que assassinava jovens mulheres em uma fazenda, auxiliado por um grupo de devotas seguidoras. Viu o porquê da parte à la Charles Mason que escrevi lá em cima? Durante uma batida policial em seu covil, que resultou na morte de dois oficiais, inclusive o pai de Jessica, Paymon e suas acólitas foram mortos em uma troca de tiros. Porém essa é a versão que chegou a imprensa. Na verdade, eles foram levados para a delegacia, e depois de entoarem um cântico, os três se enforcaram na mesma noite, há exato um ano.

Só que ao tudo indica, Paymon não é apenas mais um charlatão e falso seguidor de satã, como vamos perceber no decorrer da fita. Aliás, seu nome é inspirado no demônio Paimon, que, de acordo com o grimório A Chave Menor de Salomão, é um dos Reis do Inferno, mais obediente a Lúcifer do que qualquer outro rei, e que possui mais de cem legiões de demônios sobre seu comando.

Todo o clima até essa descoberta vem sendo construído bem lentamente na primeira metade do filme, aguçando a expectativa do público e cozinhando o roteiro em banho-maria, enquanto o medo da personagem vai aflorando, tudo num processo típico de slow burning, até descobrimos o verdadeiro motivo da tal delegacia ser assombrada (e também o real motivo da mudança de endereço).

Extreme makeover

Extreme makeover

A partir daí o filme se transforma em um verdadeiro trem descarrilado até seu final. Seremos brindados com o degradar psicológico da personagem, tendo que lidar com os próprios traumas familiares, atormentada por visões das mais sinistras tanto de Paymon quanto de suas devotas, além de diversas aparições fantasmagóricas, todas frutos de uma boa dose de efeitos especiais e de maquiagem.

Com clima assustador auxiliado pelo efeito claustrofóbico da delegacia abandonada e suas quedas de luz, e trilha e efeitos sonoros na medida, um destaque vai para a tétrica cena das garotas em círculo usando máscaras e cantando aquela sinistra canção característica. O trunfo é exatamente não se limitar somente ao jump scare como muito dos filmes do gênero se propõe, preocupando-se com o fator “horror psicológico”, e tudo isso com direito a uma conclusão repleta de adrenalina e fatalidade, que não foi feita para os fãs de finais felizes.

Claro, nem tudo é perfeito e significa que o filme é a prova de falhas, clichês e exageros, e a atuação da protagonista, como da grande maioria do elenco, dificilmente passa de mediana, mas o contraponto é que também não compromete, pois à forma que sua atmosfera e desenrolar são construídos, todos os elementos utilizados conduzem para a experiência final satisfatória.

Last Shift vale cada segundo em frente à tela, para você assistir compenetrado à noite, no quarto ou em uma sala escura, e voltar a se sentir envolto e, porque não, até assustado com um bom filme de terror, algo tão raro atualmente.

 

4 delegacias abandonadas para Last Shift

Ciranda cirandinha...

Ciranda cirandinha…

 


Marcos Brolia
Marcos Brolia
Jornalista, editor e idealizador do 101HM, é fanático por filmes de terror (ah, vá!) desde que se conhece por gente, dos classudos aos mais bagaceiras. Adoraria ter um papo de boteco com H.P. Lovecraft e virar um shot toda vez que ele falasse a palavra “indizível”.

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