Review 2016: #02 – A Vizinhança Assombrada

A picaretagem da Asylum vai longe ao misturar Chapeuzinho Vermelho e lobisomens em uma mitologia bizarra


O ano não começa de verdade até que apareça um filme da produtora mais infame do mundo, The Asylum. Esses mestres da picaretagem cinematográfica responsáveis por clássicos da estirpe de Titanic 2 e a franquia Sharknado, são famosos nos Estados Unidos pelas produções que tentam arrancar dinheiro do público incauto, facilmente enganado por seus títulos similares aos de filmes de sucesso. Para cada Pacific Rim por aí, The Asylum lança seu Atlantic Rim, por exemplo.

O filme da vez é Little Dead Rotting Hood, ou na nossa língua, algo como ‘Chapeuzinho Morta e Apodrecendo’. A produção de quinta categoria já chega levantando algumas questões de relevância filosófica só pelo pôster: O que diabos estão tentando copiar dessa vez? Chapeuzinho Vermelho é um zumbi? Considerando o lobisomem no pôster, seria este um filme de zumbis contra lobisomens? E essa espada, saiu de onde? Ter atuado no filme Ouija: O Jogo dos Espíritos é o ponto alto dessa atriz?

Tentarei aqui descrever um pouco do enredo fantástico de Chapeuzinho Morta e Apodrecendo, buscando esclarecer algumas dessas questões. O filme tem início com a jovem Samantha, interpretada pela tal Bianca Santos de Ouija, correndo em uma floresta sombria tentando escapar sem sucesso de um lobo (mau) em seu encalço. O ataque do animal é feroz, sangrento e pasmem, bem feito e sem efeitos digitais bizarros. Nesse momento, no melhor estilo Obi Wan Kenobi, uma figura misteriosa de capuz vermelho aparece para espantar a criatura. Eis que tal figura se revela como a Vovozinha, aqui interpretada pela veterana da série Star Trek e de filmes B Marina Sirtis, em um cameo no mínimo deplorável.

A jovem atacada pelo lobo era a própria Chapeuzinho Vermelho, como revelado em uma breve conversa entre as duas, na qual a Vovozinha conta uma história ridiculamente duvidosa e vaga sobre como a netinha deveria cumprir seu destino e proteger as pessoas. As cenas seguintes são ainda mais bizarras: Chapeuzinho morre e é arrastada pela Vovozinha até uma cova no meio da floresta. Lá, ela é enterrada juntamente com um capuz vermelho e uma espada medieval que brilha igual sabre de luz. Em seguida, a Vovozinha, que até então parecia 100% disposição, profere algumas palavras ritualísticas sem sentido e se mata, permitindo que a netinha volte a vida. Apesar de voltar do túmulo, Chapeuzinho não é um zumbi e muito menos está apodrecendo, como sugere o título. Ela revive como uma espécie de lobisomem, bem mais humana do que lobo.

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Que olhos grandes você tem…

Estabelecida essa mitologia furada e absurda, o filme então mude de foco, acompanhando o Xerife Adam, interpretado por Eric Balfour (Skyline – A Invasão e o remake de O Massacre da Serra Elétrica), em suas vãs tentativas de proteger a cidade do crescente ataque de lobos. Prova máxima de quão ridícula é a premissa do filme, o Xerife é o personagem principal, enquanto a Chapeuzinho-Vermelho-Morta-Lobisomem só volta a aparecer com quarenta minutos de filme e só se torna um personagem constante nos últimos vinte.

As atuações são péssimas, tanto pela falta de qualidade do elenco quanto pela pobreza dos diálogos. Eric Balfour é quem mais se esforça para atuar, mas entrega um personagem de uma canastrice hilária. Produções desse tipo costumam se safar pelo apelo humorístico causado pelo absurdo e pela falta de qualidade geral. Chega a ser incrível o tanto que ‘Chapeuzinho Morta e Apodrecida’ se leva a sério, sendo este o único ponto positivo do filme. O tom é tão grave e o conteúdo bizarro do filme é entregue com tanta confiança que só existem dois caminhos possíveis: dar risada ou sentir vergonha alheia. Para agradar aos fãs dessas tralhas, o filme fornece pequenas doses de nudismo e uma quantidade insatisfatória de gore.

A trama por trás dos ataques de lobos e a verdadeira identidade da Vovozinha é uma confusão só, que piora ao longo do filme com a inclusão de um clã de licantropos e um “super lobo”, que é basicamente um lobisomem criado digitalmente com efeitos dignos de 1999, sem exagero algum. É ver para crer.

1 lobisomem digital para Little Dead Rotting Hood

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Filme ou jogo do PS1?


Daniel Rodriguez
Daniel Rodriguez
Formado em psicologia, professor, futuro roteirista e fã incondicional do terror, tanto no cinema, quanto na TV, literatura e quadrinhos. Mais que estudar o gênero, quer ser um historiador do horror para sua geração e futuras. E ao contrário do estereótipo do mineiro quieto, adora alimentar uma treta.

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