Review 2016: #03 – Martyrs

Martyrs é a mais nova vítima da incessante leva de remakes de filmes estrangeiros recentes. Como esperado, é um fracasso completo


 

Antes de destrinchar o filme da vez, farei um pequeno esclarecimento sobre minha posição com relação aos remakes para que esta análise não soe como “anti-refilmagens”. Em termos gerais, acredito que existam duas situações na qual um remake é uma ideia interessante: quando há espaço para melhora no filme original ou quando há um potencial criativo e profissionais competentes por trás do novo filme. Se existe um roteirista empenhado ou um diretor muito motivado a trazer um filme antigo ou estrangeiro para um novo contexto, o resultado muito provavelmente será positivo, o que é um fato observável. Alguns dos grandes e mais icônicos filmes de terror dos últimos quinze anos são remakes!

Em contrapartida, existe nos Estados Unidos um hábito de “americanizar” filmes estrangeiros por causa da pouca aceitação do grande público aos filmes legendados. Ao tratar um filme como um produto a ser refeito para seu próprio mercado, a indústria hollywoodiana deixa de lado o potencial criativo ou a capacidade de melhora em prol de um cinema enlatado e medíocre. Martyrs é uma prova tão cabal disso que a própria produtora parece ter vergonha do filme. Às vésperas do lançamento oficial, não há sequer uma campanha de marketing ou artigo sobre o filme nem em seu próprio site. Este foi feito em tanto segredo, que os jornalistas só obtiveram informações precisas sobre ele quando já estava pronto. Martyrs não é apenas um filme ou uma refilmagem ruim, é o epítome de tudo que há de errado com Hollywood e o terror mainstream norte-americano.

Dirigido pelos desconhecidos irmãos Goetz, é um remake do filme francês homônimo lançado em 2008 e dirigido por Pascal Laugier, um dos expoentes do chamado new french extremity. Em ambos os filmes a garota Lucie consegue escapar de um cativeiro após ter sido torturada. Ela então é resgatada das ruas e levada para um orfanato, onde tenta se readaptar ao mundo enquanto luta com os próprios demônios. Em decorrência do sofrimento que passou, a jovem é atormentada por uma figura feminina macabra, fruto de seu próprio inconsciente. No orfanato, ela se torna amiga inseparável da bondosa e atenciosa Anna, que faz de tudo para tentar aliviar o sofrimento da amiga.

Passados dez anos (no remake, 15 no original), Lucie se depara com uma foto na qual reconhece dois de seus torturadores. Tomada por um desejo de vingança, ela descobre o endereço e massacra a família. Anna, a amiga inseparável, resolve tentar ajudar a ocultar o crime, mas elas acabam descobrindo um segredo terrível escondido na casa.

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Não comente nada sobre o filme…

O filme original tem duração de 99 minutos, enquanto a refilmagem dura apenas 81. Os primeiros 45 minutos no “novo” Martyrs são simplesmente uma regravação, praticamente quadro a quadro, do original. Os números mostram que mais da metade do filme novo é apenas uma repetição quase exata das mesmas coisas, com apenas uma mínima variação entre certas cenas. Apesar do conteúdo quase idêntico, a diferença de qualidade é assustadora.

Ambos têm início com a fuga da jovem Lucie. No original, um plano sequência mostra uma garota imunda, seminua, de cabeça raspada, rosto ensanguentado e uma expressão de terror, tão debilitada que mal consegue correr. Uma introdução que já determina o tom perverso e cruel do filme. Aqui, uma Lucie com um vestido surrado, cara suja, cabelo longo bagunçado e uma expressão de perplexidade no rosto foge correndo. No lugar do plano sequência, uma série de cortes rápidos e ângulos diferentes, que parecem tentar esconder a garota. Da mesma forma que a cena original determinou o tom do filme, a introdução deste novo Martyrs faz o mesmo, mas já anunciando a timidez da direção e a higienização, beirando a censura, aplicada no longa.

As partes equivalentes entre os dois filmes repetem essa mesma dinâmica. Enquanto o original rompe convenções e ousa ir além do limite, mostrando uma violência grotesca sempre totalmente em cena, com efeitos especiais ultrarrealistas de fazer o espectador virar a cara e uma fotografia igualmente eficiente, o remake esconde a violência, disfarça a brutalidade de seus personagens com mortes off screen ou cortes frenéticos nas tomadas. A protagonista pega uma faca e a câmera mostra braços se debatendo, caras de sofrimento, sangue pingando no chão, mas em momento algum mostra claramente a faca penetrando a pele. A falta de segurança da direção e um aparente medo de mostrar violência tornaram um dos filmes mais impiedosos e de difícil digestão em uma peça leve, sem impacto ou valor de choque.

A descoberta do segredo escondido na casa é o ponto que marca o rumo diferente dos dois filmes, apesar de ambos ainda girarem em torno do mesmo tema. Os torturadores de Lucie eram parte de um grupo de cunho religioso que acreditava na ideia de que através da dor é possível transcender, alcançar um plano espiritual superior. A palavra martyr, neste contexto, difere um pouco do significado que nos é conhecido. Entendemos um mártir, como aquele que sofre terrivelmente sem abdicar de seus próprios ideais ou pensamentos. Originalmente, no entanto, a palavra significava testemunha. O filme evoca essa ideia da testemunha e a mistura com a ideia do mártir como aquele que é submetido à suplícios, podendo assim testemunhar, observar o que existe depois da morte. É, sem dúvidas, a mais interessante combinação de dor e espiritualidade desde Hellraiser – Renascido do Inferno, lá de 1987. Tendo em vista esses fatores, a violência em Martyrs é não só “aceitável”, como necessária. Ao abdicar dessa violência, o novo filme não consegue transmitir nada do conceito com que trabalha, sendo assim, um filme raso.

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Afaste-se, não assista esse remake

O rumo tomado é típico da americanização tão tradicional das releituras de horror. Há uma tentativa de explicar a motivação dos vilões, que simplesmente não funciona. Os personagens falam muito, mas dizem pouco. Não há sutileza, apenas uma exibição longa de motivos e razões. Os minutos finais chegam a ser cômicos, de tão absurdos. Ouso dizer que o roteirista se inspirou em Kill Bill para criar uma sequência tão inverossímil e fora de contexto com o que foi mostrado anteriormente. Enquanto tentava somente copiar o original, fizeram um trabalho apenas medíocre. Mas no momento em que tentaram tomar um novo rumo, optaram pelo clichê e o resultado foi ainda pior.

As duas mocinhas protagonistas entregaram performances até decentes, dentro dos padrões de baixa qualidade do filme. Troian Bellisario (Pretty Little Liars) e Bailey Noble são atrizes boas e com futuro promissor, mas é perceptível a falta de disposição para se sujar e realmente entregar seus corpos aos papéis. O cinema francês é muito “cinema corporal” e isso é visível na performance visceral das atrizes do original. Dentro do possível, Troian e Bailey até tentaram, mas o filme já estava além da salvação.

Martyrs, se analisado como um filme único e independente, seria mais um caso de cinema enlatado, que pega ideias boas e conceitos criativos e os aplica de forma mecânica, automatizada. Ele tem uma aparência decente, atores conhecidos e até carismáticos, mas não existe personalidade, energia ou alma. É um cinema medíocre, sem qualidade técnica notável, que faz o mínimo necessário para existir e, portanto, estaria fadado ao esquecimento e ao fracasso. Mas este é um filme que não merece piedade alguma, por ser um exemplo claro do que há de mais podre nessa cultura de refilmagens puramente capitalistas.

Considerando que ele é um remake, as coisas ficam ainda pior: Não acrescenta nada ao original, repete praticamente tudo de forma enxugada e ainda aplica clichês de Hollywood dentro de um dos filmes de terror mais ousados e influentes do século XXI. “Remartyrs” é um dos filmes mais irrelevantes já feitos e que simplesmente nunca deveria ter existido.

0.5 cenas censuradas de violência para Martyrs

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Perdoai-vos, eles não sabem o que fazem!


Daniel Rodriguez
Daniel Rodriguez
Formado em psicologia, professor, futuro roteirista e fã incondicional do terror, tanto no cinema, quanto na TV, literatura e quadrinhos. Mais que estudar o gênero, quer ser um historiador do horror para sua geração e futuras. E ao contrário do estereótipo do mineiro quieto, adora alimentar uma treta.

5 Comentários

  1. Papa Emeritus disse:

    Eu nem tava sabendo que tinham feito um remake de Martyrs. E um remake ruim ainda por cima.

  2. Miguel disse:

    Nossa e eu assisti o remeke se eu soube-se tinha assistido o original por isso fiquei com algumas dúvidas
    sobre a mulher que aparece e bate na Lucie do nada neste remake não foi explicado a origem dela.

  3. Macca disse:

    O original francês ao lado de L’interieur, Frontiers e do inglês Mum and Dead, é um dos filmes mais crus e selvagens que eu já assisti. É uma pena essa falta de critério em remakes. Procures pelos filmes europeus de terror, vocês nunca mais perderão tempo com Hollywood.

    • Daniel Rodriguez Dead Dans disse:

      Macca, eu já sou bem familiarizado com esse movimento internacional, mas enquanto crítico faz parte ter que assistir esse tipo de tranqueira absurda.

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