Review 2016: #05 – JeruZalem

Diretamente de Israel, JeruZalem é um filme cheio de conceitos interessantes, mas pouco explorados


 

JeruZalem é um filme de terror israelense sobre um grupo de amigos de férias na cidade histórica que dá nome ao longa e que para o azar deles, é onde fica localizado um dos portões do inferno. Dirigido pelos irmãos Doron e Yoav Paz, tem no elenco Danielle Jedelyn, Yon Tumarkin e Yael Grobglas, esta última talvez conhecida para aqueles que assistiram ao também israelense Rabies (2010).

O filme tem início com uma suposta gravação real, na qual os líderes de três grandes religiões se reúnem em uma pequena casa em Jerusalém, onde uma mulher voltou a vida após três dias enterrada, mas trazendo algo maligno dentro de si. O vídeo já carrega um tom anunciador do apocalipse que cairá sobre o mundo, apresentando uma dinâmica bem interessante entre catolicismo, judaísmo e islamismo. É uma das raríssimas combinações de elementos religiosos e demônios que não envolvem exorcismo, algo que lembra filmes como Stigmata ou Fim dos Dias.

Mais de quarenta anos se passam e a personagem Sarah (Danielle Jedelyn) é introduzida através das lentes de um smartglass, óculos de grau futurísticos com conexão à internet, redes sociais, câmera filmadora e fotográfica, tudo controlado por voz. O filme se passa inteiramente do ponto de vista dessa personagem, sendo assim uma variação de um dos subgêneros mais produzidos na atualidade, o found footage.

maxresdefault (1).jpg

Mordidinha no lábio

O diferencial do ponto de vista, são as interações online que acontecem ao longo do filme. Sarah se perde e imediatamente abre um navegador a lá Google Maps. Ela se encontra com a amiga Rachel (Yael Grobglas) e um software de reconhecimento facial automaticamente já abre o Facebook da mesma. A técnica é muito interessante e dá um ar bem contemporâneo ao filme.

A introdução de personagens, por exemplo, é ultradinâmica e dispensa qualquer tipo de exposição durante o filme. Um dos dilemas do found footage é justificar o uso da câmera, principalmente na reta final onde as coisas costumam ir por água abaixo, porém, ao apresentar a história do POV do smartglass, esse dilema é de certa forma resolvido.

Infelizmente, existe um outro problema associado ao subgênero que JeruZalem não conseguiu resolver. O enredo do filme acompanha o grupo de amigos Sarah, Rachel e Kevin (Yon Tumarkin) em uma viagem por uma das cidades históricas mais famosas do mundo, que é também um polo religioso para diferentes crenças. A mitologia do filme, se baseia em elementos em comum de diferentes religiões, em relação a manifestações demoníacas.

Existem conceitos visuais e ideias muito interessantes e diferenciadas, que acabam sendo deixadas de lado ou mal utilizadas, exatamente por que a narrativa está presa à uma personagem. Acompanhar um grupo de pessoas em uma cidade abandonada enquanto fogem de monstros é legal de assistir, mas já existem filmes como Cloverfield – Monstro por aí, que fizeram um trabalho muito melhor. A reta final, por exemplo, ficou muito presa à certas alegorias do terror atual, que sinceramente já não devem impressionar mais ninguém. JeruZalem tinha muito mais a oferecer, mas ao unir um universo amplo com uma narrativa limitada, ficou aquém de seu potencial.

Screen-Shot-2015-05-06-at-5.04.51-PM.png

Homem-mariposa?

É importante ressaltar aqui a própria cidade de Jerusalém, raramente explorada no cinema em geral e que ganha contornos fenomenais neste filme. A cidade é apresentada como um lugar multicultural e um interessantíssimo ponto turístico. A ambientação é sem dúvidas um dos maiores méritos da produção, especialmente considerando a constante repetição de cenários à qual os filmes de terror andam submetidos hoje em dia. O elenco, composto por atores pouco conhecidos, não deixa nada a desejar, prova de que existe um potencial cinematográfico interessante em Israel.

Resta agora uma expectativa de que os diretores deste filme, ou até mesmo outros que se sintam inspirados pelas ideias apresentadas em JeruZalem, façam uma escolha melhor entre narrativa e temática. Assistir a um found footage de menor escala, seja com zumbis ou um slasher por exemplo, utilizando os óculos em primeira pessoa, com certeza pode resultar em algo bem interessante. Ao mesmo, quem se interessar em expandir a mitologia apocalíptica, que o faça em uma narrativa tradicional, que permita uma maior exploração tanto da cidade, quanto das criaturas e dos aspectos religiosos e culturais.

JeruZalem pode não ser um filme extraordinário, mas possui qualidades o suficiente para se destacar entre os incontáveis filmes de casas mal-assombradas e bonecos do inferno por aí. Ah, e sanando uma dúvida bem comum, o filme não é sobre zumbis, ou pelo menos não totalmente. As criaturas do filme são demônios humanoides alados que “possuem” as vítimas. Alguns são almas que voltaram do além, outros são pessoas que foram feridas pelos demônios, daí a semelhança com os zumbis, apesar de nunca ir além disso. O destaque ao “Z” do título, que se parece por demais com Guerra Mundial Z, não tem muito propósito.

3 demônios alados bíblicos para JeruZalem

jeruzalem.jpg

Gato mia


Daniel Rodriguez
Daniel Rodriguez
Formado em psicologia, professor, futuro roteirista e fã incondicional do terror, tanto no cinema, quanto na TV, literatura e quadrinhos. Mais que estudar o gênero, quer ser um historiador do horror para sua geração e futuras. E ao contrário do estereótipo do mineiro quieto, adora alimentar uma treta.

1 Comentário

  1. Review incrível. Exatamente o que achei de JeruZalem: um found footage de menor escala, mas com pontos relevantes. = ^- ^=

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

%d blogueiros gostam disto: