Review 2016: #08 – Boneco do Mal

Não deixe se enganar por todo o material promocional e título que o filme recebeu no Brasil, e esqueça comparações com Chucky, Annabelle (Xuxa e o Fofão) e outros bonecos do gênero


A babá Greta Evans, interpretada pela linda da Lauren Cohen, a Maggie de The Walking Dead, deve seguir uma série de estritas regras durante sua estada em uma casa na Inglaterra rural, ao tomar conta de um boneco que, supostamente, simula o filho de um casal morto há 20 anos em um incêndio.

Para você assistir a Boneco do Mal, que estreia nessa quinta-feira nos cinemas do Brasil, apenas uma regra é imprescindível: não deixar se enganar por todo o material promocional, trailers e título que o filme recebeu aqui no país (lembrando que o original é The Boy), e principalmente, esqueça comparações com Chucky, Annabelle e todos os outros brinquedos ou bonecos malditos do cinema de terror. É um aviso para não comprar boneco, por garoto, e vice-versa!

Esqueça até mesmo a boneca da Xuxa e o boneco do Fofão com sua adaga de sacrifício dentro de seu corpinho. Brahms não entrará no hall das macabras criaturas de plástico, madeira ou porcelana, por um simples motivo: o plot twist em seu terceiro ato, que por incrível que pareça – e por mais que possa ser previsível para alguns, e escancara furos no roteiro do tamanho de crateras lunars – dá certo ar de “fuga dos padrões” ao longa do diretor William Brent Bell (o mesmo de A Filha do Mal), escapando de uma fórmula clichê prosaica, uma solução faceira ou que poderia levar a produção a escambar para o ridículo, e está aí Annabelle que não me deixa mentir.

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Real Doll

Greta resolve aceitar o emprego de cuidar de Brahms não só pelo gordo cheque que irá receber, mas também para fugir do passado de um relacionamento de violência doméstica. Ao chegar até o imenso casarão, ela descobre que seu trabalho não será nada usual, uma vez que como bem sabemos, o GAROTO é um BONECO, tratado como criança pelos pais, traumatizados pela terrível perda. Esse argumento é o que cria todo um clima creepy e um sentimento desconfortante por boa parte do miolo do longa.

Quando o casal sai “em férias”, Greta se vê sozinha com aquele ser inanimado sinistro pacas, e não vai tardar para algumas manifestações – sumiço de objetos pessoais, passos pela casa, mudança de Brahms de lugares e aposentos onde fora colocado – façam com que ela desconfie que o boneco possa estar vivo, até possuído, e que de alguma forma, o espírito do menino possa estar tentando se comunicar com ela, principalmente depois dela infringir todas as regras impostas.

Até o terceiro ato, o filme de Bell mantém-se calcado no terror psicológico, numa atmosfera gótica e tétrica que se passa exclusivamente dentro da clausura da americana naquela enorme casa, contando apenas com a ajuda e companhia do entregador Malcom (Rupert Evans) e questionando sua própria sanidade, com alguns verdadeiros momentos de tensão, fruto da natureza bizarra da função de cuidar de um boneco, supostamente assombrado, e com direito a um ou outro jumpscare, para satisfazer os fãs desse recurso narrativo.

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Marta Suplicy, seu marido, e seu filho Alfred E. Neuman

A reviravolta de seu final serve exatamente para quebrar o protocolar, algo já aguardado pelo espectador, dando uma nova luz aos acontecimentos trabalhados até então, que se desencadeia depois que o ex-namorado abusivo de Greta aparece na casa (essa sim necessita de uma baita suspensão de descrença), e passa a ameaça-la.

Esse pulo do gato, mesmo que nada original, principalmente se você assistiu certo filme recente vindo da Oceania, e difícil de engolir se pararmos para analisar friamente, é o que diferencia o filme, recurso interessante e ao mesmo tempo questionável, que pode agradar uns, e desagradar outros tantos, mas que pelo menos eleva Boneco do Mal em seu resultado final, mas nada que o coloque em um patamar um pouco maior do gênero, ainda mais se comparado a outros clássicos.

No final das contas, o boneco nem é tão do mal assim, o filme é uma produção mediana, que trabalha, em momentos distintos, primeiro no seu desenrolar e depois em sua conclusão, com diferentes subgêneros e suas fórmulas, que pode agradar ao público médio fã do terror, com alguns momentos assustadores, subvertendo aquilo que ele veio sendo vendido, mas não o suficiente para ser uma experiência completa e que tende a cair no esquecimento logo depois que você sai da sala de cinema.

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Perto de uma mulher, são só garotos!



Marcos Brolia
Marcos Brolia
Jornalista, editor e idealizador do 101HM, é fanático por filmes de terror (ah, vá!) desde que se conhece por gente, dos classudos aos mais bagaceiras. Adoraria ter um papo de boteco com H.P. Lovecraft e virar um shot toda vez que ele falasse a palavra “indizível”.

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